CLÍNICA PSICANALÍTICA NO HOSPITAL: POTENCIALIDADES E TENSÕES A PARTIR DE UMA BRINQUEDOTECA

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
CLÍNICA PSICANALÍTICA NO HOSPITAL: POTENCIALIDADES E TENSÕES A PARTIR DE UMA BRINQUEDOTECA
Autores
  • Rebeca Lima Pena
  • Isadora Francez Sassim
  • Roseane Freitas Nicolau
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Políticas públicas e direitos humanos
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462789-clinica-psicanalitica-no-hospital--potencialidades-e-tensoes-a-partir-de-uma-brinquedoteca
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
Hospital Público; Psicanálise; Brinquedoteca Hospitalar; Neurodesenvolvimento.
Resumo
Introdução: O contexto hospitalar constitui-se historicamente como um espaço organizado a partir da centralidade do saber médico, orientado por protocolos, classificações diagnósticas e pela lógica da resolução rápida dos sintomas. Nesse contexto, o cuidado em saúde tende a ser pautado pelo modelo biomédico fortemente estabelecido na sociedade, que, ao privilegiar a dimensão orgânica da doença, opera por meio da padronização de condutas e da objetivação do corpo (Canguilhem, 2009). Tal prática, ao recorrer a categorias diagnósticas que reduzem o sujeito a nomeação que foi-lhe dada, pode evidenciar suas limitações quando confrontada com as especificidades da experiência humana, especialmente no campo da infância e das questões do neurodesenvolvimento. É nesse cenário que se insere a experiência da brinquedoteca em um hospital público, enquanto dispositivo clínico que introduz uma lógica distinta daquela que predomina na instituição. Baseada na ética da psicanálise, a brinquedoteca não se organiza a partir da urgência e da adaptação da criança às exigências sociais, mas sustenta-se na aposta no brincar, na escuta e na construção de laços como vias privilegiadas de acesso à singularidade do sujeito. Para a psicanálise o foco é o modo singular como cada criança responde, simboliza e se inscreve no laço social (Nicolau; de Barros, 2021), mesmo quando essa inscrição se dá por vias não normativas. Uma vez que trata-se de discursos que se estruturam a partir de pressupostos éticos e epistemológicos distintos, é possível notar a tendência à produção de entraves à sustentação de tal prática. Neste desencontro, porém, encontra-se ainda a possibilidade de abrir caminhos para questionar os modos instituídos de cuidar, tensionando os discursos que silenciam o sujeito em nome da normalização. Em trabalhos anteriores (Sassim, 2023; Sassim; Paes, 2024) o conflito aqui analisado aparece reverberando sobretudo na prática clínica, o que demonstra a necessidade de olhar mais profundamente para esta realidade. É neste horizonte que o presente trabalho se insere, propondo uma reflexão acerca das potencialidades, dos limites e tensões que atravessam o fazer psicanalítico nesse contexto institucional, com a justificativa de contribuir para a produção de conhecimento sobre o fazer psicanalítico neste espaço e com esse público, ao passo que colabora-se para a própria atuação do projeto e para a ampliação da compreensão do sujeito no contexto hospitalar, abarcando, assim, o indivíduo em todas as suas dimensões e garantido a ele dignidade. Objetivo: A brinquedoteca tem como objetivo a construção do Caso Clínico com a equipe multiprofissional do hospital através da promoção de um espaço de escuta para as crianças, usuárias do serviço, com questões do neurodesenvolvimento. Metodologia: A Brinquedoteca constitui-se como um dispositivo de escuta e intervenção, inserido em hospital público universitário. Os atendimentos são realizados por bolsistas e estagiários, sob supervisão docente, duas vezes por semana, em uma sala de espera de uma unidade que atende crianças e adolescentes com diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras questões do neurodesenvolvimento. Nestes são realizadas atividades lúdicas, como criação de desenhos, jogos e brincadeiras, ao passo que são realizadas escutas com as crianças, pais ou responsáveis. Os registros das atividades são realizados por meio de diários de campo e relatórios clínicos, que subsidiam análises teóricas e a produção científica vinculada ao projeto. Discussão: Segundo Moretto e Priszkulnik (2014), a inserção do psicanalista em uma instituição de saúde não se confunde com o simples ingresso em uma equipe, pois implica a construção progressiva de um lugar de operação clínica, sustentada pela articulação com diferentes discursos institucionais. A partir dessa perspectiva, percebe-se entraves que dificultam essa inserção efetiva do psicanalista no hospital, mesmo quando este já adentrou a instituição. Neste trabalho, destaca-se a fragilidade do espaço físico da brinquedoteca e a dificuldade de articulação multiprofissional. A ausência de um espaço físico estável destinado à brinquedoteca não se configura apenas como um problema logístico, mas como um analisador institucional que evidencia o lugar ocupado, ou não ocupado, pela clínica psicanalítica voltada à infância no interior do hospital público. A provisoriedade e a instabilidade do espaço indicam que o brincar, a escuta e a produção de laço não figuram entre as prioridades institucionais, sendo frequentemente subordinados a outras demandas consideradas mais urgentes ou centrais no cuidado em saúde. Tal configuração produz efeitos diretos sobre a prática clínica, uma vez que a ausência de um lugar reconhecido compromete a continuidade das atividades, fragiliza a inscrição do dispositivo no cotidiano hospitalar e dificulta sua legitimação enquanto espaço de cuidado. Desse modo, a dificuldade de sustentação de um espaço não pode ser compreendida como um entrave pontual, mas como expressão de uma hierarquização institucional que privilegia determinados modos de cuidado em detrimento de outros, revelando os limites do hospital em acolher práticas que operam para além da lógica da intervenção imediata. Ressalta-se, ainda, a dificuldade de articulação com outros profissionais da equipe de saúde, que emerge como um dos principais impasses para a inserção da clínica psicanalítica no hospital, especialmente quando se trata da construção compartilhada do cuidado. De acordo com Nicolau e de Barros (2021), a escassez de tempo para discussão de casos, a centralidade do saber médico e a urgência por respostas diagnósticas e terapêuticas dificultam a adesão dos profissionais a uma proposta de construção compartilhada do caso clínico, na medida em que nem sempre há espaço para sustentar a indeterminação, a singularidade e o tempo próprio do sujeito no interior de práticas orientadas por metas e condutas previamente estabelecidas. Nesse contexto, a expectativa de adaptação do paciente às normas sociais coloca limites à escuta da singularidade e à problematização do diagnóstico, exigindo da psicanálise a constante busca por brechas institucionais que permitam a circulação da palavra e a inclusão da dimensão subjetiva no cuidado. Assim, esses efeitos do funcionamento institucional dificultam a construção de um campo comum de trabalho quando os referenciais clínicos não compartilham os mesmos pressupostos e, consequentemente, a articulação multiprofissional constitui-se como um desafio permanente, exigindo negociações e reinvenções constantes. Conclusão: A experiência da Brinquedoteca hospitalar evidencia que, inserida em uma instituição marcada pela centralidade do saber médico e pela lógica diagnóstica, ela atua como um dispositivo que questiona a posição do saber médico quando ele passa a organizar de forma totalizante as formas de cuidado e os modos de se dirigir à infância. Por isso, a presença desse dispositivo na instituição faz-se de extrema importância para que a concepção de saúde não se limite a aspectos fisiológicos, mas considere também aquilo que é de caráter subjetivo. Tal experiência permite também compreender a promoção de saúde como prática comprometida com a dignidade e a singularidade do sujeito. Assim, a Brinquedoteca se apresenta como um dispositivo ético-político que aponta para a necessidade de práticas institucionais capazes de sustentar o cuidado em saúde de maneira ampla, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidades estruturais. Referências bibliográficas CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. MORETTO, Maria Lívia Tourinho; PRISZKULNIK, Léia. Sobre a inserção e o lugar do psicanalista na equipe de saúde. Tempo psicanalítico, v. 46, n. 2, p. 287-298, 2014. NICOLAU, Roseane Freitas; DE BARROS, Izabella Paiva Monteiro. Psicanálise e prática multidisciplinar:(im) possíveis desdobramentos do trabalho com crianças autistas e pais. Research, Society and Development, v. 10, n. 12, p. e220101219638-e220101219638, 2021. SASSIM, Isadora Francez et. al. A angústia parental frente à insígnia do diagnóstico da criança: um relato de experiência a partir da escuta em unidade hospitalar. In: CONGRESSO DO COMPLEXO HOSPITALAR UFPA-EBSERH, 4., 2023, Belém. Anais […] Belém: Universidade Federal do Pará, 2023. p. 76. Disponível em: file:///C:/Users/WINDOWS/Downloads/IV%20Congresso%20do%20Complexo%20Hospitalar%20UFPA-EBSERH%202023..pdf. Acesso em: 16 fev. 2026. SASSIM, Isadora Francez. PAES, Levy Araújo Dias. O desenvolvimento da linguagem através do brincar:um estudo de caso infantil a partir da psicanálise. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO, 8., 2024, Fortaleza. Anais [...] Niterói: Associação Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento - ABPD, 2025. p. 510. Disponível em: file:///C:/Users/WINDOWS/Downloads/XIII%20CBPD%20-%20Anais.pdf. Acesso em: 16 fev. 2026.
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

PENA, Rebeca Lima; SASSIM, Isadora Francez; NICOLAU, Roseane Freitas. CLÍNICA PSICANALÍTICA NO HOSPITAL: POTENCIALIDADES E TENSÕES A PARTIR DE UMA BRINQUEDOTECA.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462789-CLINICA-PSICANALITICA-NO-HOSPITAL--POTENCIALIDADES-E-TENSOES-A-PARTIR-DE-UMA-BRINQUEDOTECA. Acesso em: 15/10/2026

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