RACISMO À BRASILEIRA E PSICOLOGIA SOCIAL CRÍTICA: SUBJETIVIDADE, DISCURSO E A FERIDA NARCÍSICA

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
RACISMO À BRASILEIRA E PSICOLOGIA SOCIAL CRÍTICA: SUBJETIVIDADE, DISCURSO E A FERIDA NARCÍSICA
Autores
  • FRANCISCO ASSIS DOS SANTOS NETO
  • Larissa Victória Gonçalves do Rosário
  • Mauricio Rodrigues de Souza
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Políticas públicas e direitos humanos
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462763-racismo-a-brasileira-e-psicologia-social-critica--subjetividade-discurso-e-a-ferida-narcisica
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
Psicologia Social Crítica; Ferida Narcísica; Necropolítica; Subcidadania; Jacarezinho.
Resumo
RESUMO O presente resumo expandido analisa as intersecções entre o racismo estrutural no Brasil e os processos de subjetivação negra sob a ótica da Psicologia Social Crítica. A estrutura organiza-se em três eixos fundamentais: a fundamentação da Psicologia Social Crítica como práxis política; a articulação teórica entre Frantz Fanon e Neusa Santos Souza acerca da alienação e da ferida narcísica; e a análise da convergência entre o discurso meritocrático, a criminologia crítica e a letalidade estatal, exemplificada pelo estudo de caso da Chacina do Jacarezinho. Conclui-se que o enfrentamento ao racismo na sociedade brasileira, exige o desvelamento dos mecanismos de subcidadania e a promoção de uma escuta clínica e social que reconheça o impacto traumático da estrutura racial brasileira na saúde mental da população negra. Palavras-chave: Psicologia Social Crítica; Ferida Narcísica; Necropolítica; Subcidadania; Jacarezinho. INTRODUÇÃO: A PSICOLOGIA SOCIAL CRÍTICA E O COMPROMISSO COM A PRÁXIS A Psicologia Social Crítica surge no cenário latino-americano como uma resposta necessária à crise da psicologia social tradicional, que por décadas se pautou em modelos experimentais e individualistas importados do norte global. No contexto brasileiro, essa vertente assume uma postura ética e política, compreendendo que o psiquismo não é um dado biológico isolado, mas uma construção histórica atravessada por relações de poder. Segundo Chersoni, Chagas e Muniz (2022), a psicologia deve se desvincular das "metrópoles teóricas" para entender o racismo como um estruturador da sociedade brasileira, promovendo uma decolonialidade do saber que faça sentido para a maioria da população. Esta abordagem exige que o psicólogo atue na denúncia das estruturas de dominação, como o racismo e o capitalismo, que moldam a subjetividade. A ideia de "práxis" aqui é fundamental: não basta descrever o mundo ou o sofrimento, é preciso agir sobre as causas estruturais que o produzem. Nesse sentido, ela deixa de ser apenas "estudo do comportamento" para se tornar uma ferramenta de denúncia contra as estruturas de dominação, operando no que se denomina sofrimento ético-político, a dor gerada pela injustiça social e pela humilhação. O TORNAR-SE NEGRO: ALIENAÇÃO E A FERIDA NARCÍSICA EM FANON E SOUZA A compreensão da subjetividade negra exige a articulação entre a obra de Frantz Fanon e a clínica de Neusa Santos Souza. Fanon argumenta que o racismo cria uma "zona de não-ser", uma região onde o negro é destituído de sua humanidade aos olhos do branco. Essa desumanização leva o sujeito colonizado a desenvolver o que ele chama de "complexo de inferioridade", alimentado por uma estrutura que associa tudo o que é branco ao positivo e civilizado. A tese central da "máscara branca" descreve o esforço doloroso do negro para se distanciar de sua negritude e se aproximar do ideal branco como estratégia de sobrevivência e busca por reconhecimento. Neusa Santos Souza transporta essas reflexões para a especificidade brasileira em sua obra "Tornar-se Negro". Ela identifica que o racismo no Brasil opera um golpe no narcisismo do sujeito, criando a "ferida narcísica". Como a sociedade estabelece a branquitude como o único modelo de perfeição, o negro carece de espelhamento positivo. Souza afirma que "realizar o ideal do ego é uma exigência dificilmente burlável que o superego vai impor ao ego" (SOUZA, 1983, p. 2). No Brasil, esse Ideal do Ego é invariavelmente branco, forçando o negro a um conflito psíquico entre seu ego atual e um modelo inalcançável. A história de Luísa, relatada por Souza, exemplifica essa dinâmica: a celebração dos traços finos do pai que "pode passar por branco" e a calvície da avó de tanto esticar o cabelo revelam o custo físico e psíquico da tentativa de apagar a marca negra. "Tornar-se negro" é, portanto, o processo de desalienação: a cura da ferida através da rejeição do ideal de branquitude e do resgate da dignidade da própria cor. Sem esse resgate, o sujeito vive sob uma vigilância constante de si mesmo, tentando não "parecer negro" para evitar a humilhação social. DISCURSO, CRIMINOLOGIA E LETALIDADE: DA MERITOCRACIA AO JACAREZINHO O racismo no Brasil possui uma característica singular: a sua negação constante sob o "mito da democracia racial". Carvalhaes, Silva e Lima (2020) apontam que esse discurso funciona como uma cortina de fumo ideológica que impede o reconhecimento do racismo como sistema de privilégios. Aliado a este mito, o discurso da meritocracia reforça a ideia de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, ignorando que o ponto de partida é desigual. Para o negro, a meritocracia individualiza o fracasso e invisibiliza as barreiras da cor, transformando a exclusão sistêmica em uma suposta incapacidade pessoal. Essa invisibilização discursiva prepara o terreno para a atuação letal do Estado, analisada pela Criminologia Crítica. O Estado não é neutro; ele opera na gestão da vida e da morte de acordo com critérios raciais. O conceito de "suspeito padrão" é a materialização desse racismo institucional, onde o corpo negro é automaticamente associado ao perigo. Como afirmam Chersoni et al. (2022), o sistema penal brasileiro é uma ferramenta de controle social desenhada para manter a população negra sob vigilância e repressão, produzindo o que Jessé Souza define como "subcidadania", sendo estes os indivíduos que são tratados como seres de direitos diminuídos. A Chacina do Jacarezinho, ocorrida em 2021 com 28 mortos, é o ápice desta análise. Do ponto de vista da Psicologia Social Crítica, o massacre revela a aplicação da necropolítica: o poder soberano de ditar quem deve morrer. A operação policial em território periférico demonstra que a vida negra não possui valor narcísico para o Estado. Ao rotular sumariamente os mortos como "criminosos", o discurso oficial busca interditar o luto das famílias e desumanizar as vítimas, confirmando que, para a sociedade brasileira, o negro na favela vive em uma zona de "não-ser" onde a lei pode ser suspensa. O impacto subjetivo dessa violência estatal é devastador. A ferida narcísica é reaberta coletivamente a cada chacina, enviando a mensagem de que o corpo negro é descartável. O trauma psíquico gerado por essa violência é transgeracional e afeta a saúde mental de toda a comunidade. A Psicologia Social Crítica deve, portanto, atuar no desvelamento dessas mentiras meritocráticas e no fortalecimento subjetivo daqueles que são alvos preferenciais da máquina de moer gente do Estado, unindo a clínica à defesa radical da vida. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao término desta análise, evidencia-se que o racismo no Brasil é um sistema complexo que exige uma psicologia social profundamente comprometida com a descolonização e com a práxis. Através da articulação entre a teoria subjetiva e a análise institucional, foi possível demonstrar que o sofrimento do negro brasileiro não é uma patologia individual, mas o resultado planejado de um sistema que fere o narcisismo, impõe máscaras de alienação e utiliza a força letal para manter hierarquias raciais. A ferida narcísica, conforme discutida por Neusa Santos Souza, encontra seu estágio final na necropolítica que vítima comunidades como o Jacarezinho, revelando um ciclo de desumanização que começa no discurso e termina no necrotério. Espera-se que este estudo contribua para o despertar de uma consciência profissional que recuse a neutralidade diante da barbárie. Isto porque, o psicólogo não pode limitar sua atuação ao consultório isolado quando a estrutura social produz subcidadãos e normaliza o extermínio. A cura para a alienação negra e para as marcas do racismo exige a destruição dos mitos de democracia racial e meritocracia, promovendo um "tornar-se negro" que seja, simultaneamente, um resgate da autoestima e um ato de insurgência política. Somente através de uma prática que acolha o sofrimento ético-político será possível construir caminhos para uma saúde mental que reconheça e valorize a vida negra em toda a sua plenitude. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019. (Feminismos Plurais). BENTO, Maria Aparecida Silva. O pacto narcísico da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. CARVALHAES, Flavia Fernandes de; SILVA, Rafael Bianchi; LIMA, Alexandre Bonetti. Reflexões sobre discursos a respeito do racismo no Brasil: considerações de uma psicologia social crítica. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 25, e44322, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.4025/psicolestud.v25i0.44322. CHERSONI, Felipe de Araujo; CHAGAS, Maria Eduarda Delfino das; MUNIZ, Veyzon Campos. Racismo entre psicologia social e criminologia crítica: encontros e perspectivas decoloniais. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 25, n. 2, p. 272-282, maio-ago. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1982-0259.2022.e84171. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019. MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: Antígona, 2018. SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017. SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

NETO, FRANCISCO ASSIS DOS SANTOS; ROSÁRIO, Larissa Victória Gonçalves do; SOUZA, Mauricio Rodrigues de. RACISMO À BRASILEIRA E PSICOLOGIA SOCIAL CRÍTICA: SUBJETIVIDADE, DISCURSO E A FERIDA NARCÍSICA.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462763-RACISMO-A-BRASILEIRA-E-PSICOLOGIA-SOCIAL-CRITICA--SUBJETIVIDADE-DISCURSO-E-A-FERIDA-NARCISICA. Acesso em: 15/10/2026

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