INCONGRUÊNCIA E VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NO FILME É ASSIM QUE ACABA

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
INCONGRUÊNCIA E VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NO FILME É ASSIM QUE ACABA
Autores
  • Dominique Nobre Jacinto
  • Flávia Costa Da cruz
  • Giovana gândara
  • Marceli Aviz Silva
  • Caroline Cavalcante da Silva
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Promoção de saúde a partir de uma perspectiva interseccional
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462597-incongruencia-e-violencia-contra-mulheres-no-filme-e-assim-que-acaba
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
Violência contra a mulher; Abordagem Centrada na Pessoa; Incongruência; Self; Manejo clínico.
Resumo
Introdução: A violência contra a mulher insere-se em uma estrutura histórica marcada por desigualdades de gênero que atravessam dimensões como classe, raça, sexualidade e território, exigindo análise crítica desses entrecruzamentos. Essas desigualdades também se manifestam nas relações afetivas e familiares, especialmente em contextos abusivos, nos quais práticas como invalidação emocional e controle afetam a percepção de si e produzem sofrimento psicológico. À luz da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, tais experiências podem ser compreendidas como dificuldades na simbolização e integração das vivências, sobretudo quando o ambiente relacional se mostra ameaçador à autenticidade, favorecendo processos de distorção ou negação da experiência e intensificando a incongruência (Rogers, 1992). Na perspectiva rogeriana, o sofrimento psíquico emerge quando condições ambientais fragilizam a confiança nas próprias percepções, ainda que todo indivíduo possua uma tendência atualizante, entendida como impulso inerente ao desenvolvimento e à realização de suas potencialidades (Rogers, 1992). A expressão dessa tendência depende de condições relacionais favoráveis, especialmente aquelas pautadas na empatia, na aceitação positiva incondicional e na congruência (Lima; Branco, 2023a). Conforme propõe Puente (1979), o self real refere-se à experiência vivida de forma autêntica, enquanto o self ideal corresponde à imagem construída a partir de expectativas e condições de valor internalizadas. A discrepância entre essas instâncias configura a incongruência psíquica, caracterizada pelo distanciamento entre a experiência sentida, consciência e simbolização. De acordo com Lima e Branco (2023b), ambientes relacionais que ameaçam a autenticidade e restringem a expressão emocional tendem a ampliar os processos de incongruência, afetando negativamente a autonomia, o bem-estar psicológico e a percepção de si. De modo complementar, Maciel e Branco (2025) destacam que contextos coercitivos e violentos aprofundam o afastamento do sujeito em relação ao próprio self, dificultando a integração da experiência. Nessa direção, o filme “É Assim que Acaba” ilustra essas dinâmicas ao retratar a trajetória de Lily Bloom em um relacionamento marcado por violência e ambivalência afetiva, no qual experiências abusivas sustentam processos de negação e minimização que ampliam o distanciamento entre sentimentos vividos e interpretações conscientes, justificando a análise de uma cena à luz da Abordagem Centrada na Pessoa para compreender a incongruência na violência contra a mulher. Discussão: A cena analisada ocorre no contexto do relacionamento amoroso heterossexual entre Lily Bloom e Ryle Kincaid, em que Lily é retratada como uma mulher branca, jovem e de classe média, enquanto Ryle é apresentado como um neurocirurgião branco, socialmente prestigiado e financeiramente estável; a relação, inicialmente idealizada, passa a revelar dinâmicas de controle que inserem Lily em um ciclo de violência. Nesse contexto, ocorre o episódio em que Ryle, ao se queimar ao retirar uma travessa do forno, agride Lily fisicamente quando ela se aproxima para ajudá-lo. A ruptura entre o cenário doméstico cotidiano e a violência explícita evidencia o caráter imprevisível da violência. A protagonista interpreta o ocorrido como um acidente, mobilizando mecanismos de negação e minimização. Posteriormente, um flashback revela a intencionalidade do ato, configurando a primeira agressão explícita no relacionamento e rompendo a imagem idealizada que Lily havia construído sobre o parceiro, o que inaugura a percepção do ciclo da violência, marcado pela alternância entre afeto, agressão, justificativas e conflitos emocionais. A violência vivenciada por Lily expressa relações estruturais de poder que atravessam sua experiência subjetiva, inserindo-se em uma organização social marcada por desigualdades de gênero. A partir disso, compreende-se que a desigualdade de gênero constitui elemento central na violência, sendo a opressão, marcada por relações desiguais de poder e submissão, núcleo fundamental para entendê-la como fenômeno social decorrente das iniquidades de gênero (De Lucena, 2016). Nesse contexto, observa-se um processo de incongruência, no qual Lily tenta conciliar o vínculo afetivo, suas memórias infantis de violência e a realidade concreta da agressão. A cisão entre a experiência sentida, marcada por dor, medo e insegurança, e a interpretação consciente construída para preservar a relação evidencia um afastamento da experiência imediata, sustentado por condições de valor que restringem a liberdade experiencial (Rogers, 1992). Progressivamente, Ryle passa a ocupar o lugar de pessoa-critério no campo experiencial de Lily. Ao subordinar suas percepções e sentimentos aos parâmetros do parceiro, a protagonista desconsidera sinais experienciados, aprofunda o afastamento em relação ao self e intensifica a incongruência entre experiência e simbolização. Para além da incongruência, a cena dialoga com o conceito de tendência atualizante, compreendida como a força inerente que impulsiona o indivíduo ao crescimento e à realização de suas potencialidades (Telles, Boris, Moreira, 2014). No entanto, no contexto do filme, essa tendência encontra-se bloqueada por um ambiente relacional ameaçador, marcado por controle e invalidação emocional, comprometendo a expressão autêntica da protagonista. No que se refere ao manejo clínico, a atuação do psicólogo diante de experiências de violência envolve a construção de um clima psicológico seguro, sustentado pelas atitudes facilitadoras. Conforme orienta Delziovo (2022), o atendimento a mulheres em situação de violência requer escuta qualificada, ausência de culpabilização e respeito ao tempo subjetivo da cliente. A postura não diretiva valida a experiência emocional, fortalece a confiança nas próprias percepções e favorece movimentos gradativos em direção à congruência interna. Conclusão: A análise fundamentada na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) evidenciou a pertinência dessa perspectiva para compreender os impactos psicológicos da violência doméstica. A partir da experiência de Lily no filme “É Assim que Acaba”, identificou-se como a incongruência se manifesta e se intensifica em contextos abusivos, afetando a percepção de si, a organização das vivências e o reconhecimento de situações que ameaçam a integridade emocional. A incongruência mostrou-se elemento central na configuração do sofrimento da protagonista, especialmente quando Lily passa a priorizar as expectativas do parceiro em detrimento de suas próprias percepções, ampliando a discrepância entre self real e self ideal e reforçando a influência das condições de valor sobre a liberdade experiencial. Observou-se, ainda, que a tendência atualizante permanece ativa, porém bloqueada por um ambiente relacional desfavorável, o que restringe a expressão autêntica e os movimentos de crescimento psicológico. No âmbito clínico, destaca-se a importância das atitudes facilitadoras, empatia, aceitação positiva incondicional e congruência, para a construção de um espaço terapêutico seguro, ético e não julgador, capaz de favorecer o contato com experiências negadas ou distorcidas e sustentar movimentos graduais em direção à congruência. Sob uma perspectiva interseccional, compreende-se que a violência contra a mulher não pode ser analisada apenas no plano individual ou relacional, mas deve ser situada em uma estrutura social atravessada por desigualdades de gênero, articuladas a marcadores como raça, classe, sexualidade e território. Ainda que Lily seja retratada como mulher branca e de classe média, sua experiência evidencia como a opressão de gênero produz sofrimento psíquico e reforça a necessidade de uma compreensão crítica das vulnerabilidades que atravessam mulheres em diferentes contextos sociais. Por fim, a análise evidencia que a violência doméstica produz rupturas profundas na relação do sujeito consigo mesmo, afetando autoestima, autonomia e autenticidade, o que reforça a ACP como uma abordagem potente para compreender esses processos e fundamentar intervenções clínicas sensíveis e humanizadas junto a mulheres em situação de violência. Nesse sentido, reconhecer os marcadores sociais que atravessam a violência é fundamental, pois modulam vulnerabilidades e possibilidades de cuidado, de modo que a promoção da saúde exige uma compreensão crítica das desigualdades de gênero articuladas a outras dimensões estruturais, ampliando o olhar clínico para além do âmbito individual. Referências Bibliográficas: DE LUCENA, Kerle Dayana Tavares et al. Análise do ciclo da violência doméstica contra a mulher. Journal of Human Growth and Development, v. 26, n. 2, p. 139-146, 2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.7322/jhgd.119238. Acesso em: 11 fev. 2026. DELZIOVO, Carmen Regina et al. 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Acesso em: 29 nov. 2025. MACIEL, Rodrigo Ferreira; BRANCO, Paulo Coelho Castelo. Um entendimento sobre o trauma psicológico baseado em Carl Rogers: ensaio teórico. Revista Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, v. 14, n. 1, p. 31-48, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.37067/rpfc.v14i1.1180. Acesso em: 29 nov. 2025. PUENTE, Miguel. Teoria da personalidade e desenvolvimento humano. São Paulo: Editora Atlas, 1979. ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa: um enfoque da psicoterapia centrada no cliente. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1992. TELLES, Thabata Castelo Branco; BORIS, Georges Daniel Janja Bloc; MOREIRA, Virginia. O conceito de tendência atualizante na prática clínica contemporânea de psicoterapeutas humanistas. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 20, n. 1, p. 13-20, jun. 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672014000100003. Acesso em: 29 nov. 2025.
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
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Meio Digital

Como citar

JACINTO, Dominique Nobre et al.. INCONGRUÊNCIA E VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NO FILME É ASSIM QUE ACABA.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462597-INCONGRUENCIA-E-VIOLENCIA-CONTRA-MULHERES-NO-FILME-E-ASSIM-QUE-ACABA. Acesso em: 15/10/2026

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