CORPO, CAMPO E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA GESTÁLTICA DE CASSANDRA

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
CORPO, CAMPO E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA GESTÁLTICA DE CASSANDRA
Autores
  • Darley Armando dos Santos Souza
  • Lorena Schalken de Andadre
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Promoção de saúde a partir de uma perspectiva interseccional
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462562-corpo-campo-e-resistencia--uma-leitura-gestaltica-de-cassandra
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
Gestalt-terapia; Antirracismo; Corpo; Psicologia social.
Resumo
Introdução Este trabalho caracteriza-se como um estudo teórico de natureza qualitativa e analítica. A metodologia consistiu na análise da narrativa fílmica da série Manhãs de Setembro (2021) sob a perspectiva da Gestalt-terapia, utilizando a revisão bibliográfica para fundamentar a leitura interseccional sobre gênero, raça e classe. Interpretada por Liniker, a personagem apresentada na série, uma mulher trans negra que constrói sua existência em um campo social marcado por profundas desigualdades relacionadas a gênero, raça, classe, sexualidade e território. Ambientada na cidade de São Paulo, a narrativa acompanha seu cotidiano como motogirl, sua relação com a música e os rearranjos afetivos que emergem a partir do reencontro com Leide, sua ex-namorada, e com Gersinho, o filho cuja existência lhe era desconhecida. A obra ultrapassa a dimensão de um drama individual e se configura como uma narrativa sensível sobre as condições sociais que produzem sofrimento, exclusão e resistência (MANHÃS DE SETEMBRO, 2021). Pensar a trajetória de Cassandra a partir da promoção da saúde implica deslocar o olhar do adoecimento individual para as condições sociais que organizam as possibilidades de viver, adoecer e cuidar. A saúde, compreendida em seu sentido ampliado, envolve dignidade, reconhecimento, pertencimento e acesso a condições materiais e simbólicas de existência, conforme propõem os referenciais da saúde coletiva e da promoção da saúde crítica. No caso de sujeitos trans negros e periféricos, a negação sistemática de direitos, a violência cotidiana e a precarização do trabalho configuram fatores centrais na produção do sofrimento psíquico e social (KILOMBA, 2019; NASCIMENTO, 2021; AYRES, 2004; BRASIL, 2015). A Gestalt-terapia, especialmente a partir da clínica gestáltica do sofrimento ético-político-antropológico, oferece um referencial potente para essa discussão ao compreender o sofrimento como produto das relações entre corpo, campo social e poder (GRANZOTTO; GRANZOTTO, 2019). Essa perspectiva permite articular clínica e promoção da saúde ao reconhecer que o adoecimento emerge quando o campo restringe as possibilidades de contato e participação social. Promover saúde, nesse horizonte, implica reconhecer e validar o sofrimento produzido pelas desigualdades estruturais, intervindo criticamente nas condições que organizam o campo da experiência. Dessa forma, este resumo tem como objetivo analisar a trajetória de Cassandra em Manhãs de Setembro a partir de uma leitura gestáltica, articulada à promoção da saúde em uma perspectiva interseccional, compreendendo como os entrecruzamentos entre gênero, raça, classe e sexualidade produzem sofrimento e engendram estratégias de resistência e cuidado (AKOTIRENE, 2019). Discussão A análise da trajetória de Cassandra revela que o seu sofrimento psíquico não decorre de uma incapacidade individual, mas sim de um sofrimento ético-político gerado por um campo que nega sua humanidade. A partir da Gestalt-terapia, compreende-se que o campo organismo–ambiente atua como força organizadora da experiência, delimitando quais vidas são protegidas e quais são expostas à precarização e à violência (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). O corpo trans negro de Cassandra ocupa um lugar de vulnerabilidade estrutural nesse campo. A violência simbólica, a instabilidade econômica e a exclusão social impactam diretamente suas possibilidades de cuidado, vínculo e participação social. Como afirma Kilomba (2019, p. 40), “o racismo é uma ferida colonial que nunca foi tratada”, produzindo efeitos psíquicos contínuos nas subjetividades negras. O sofrimento que emerge dessa experiência, portanto, não pode ser reduzido a uma dimensão individual, pois se constitui como sofrimento ético-político decorrente da negação sistemática de reconhecimento e de direitos (AKOTIRENE, 2019; BENTO, 2022). Nessa perspectiva, a promoção da saúde exige uma leitura crítica das desigualdades estruturais que produzem adoecimento. Não se trata de responsabilizar o sujeito por sua condição, mas de compreender como o campo social restringe o acesso a recursos materiais, afetivos e simbólicos fundamentais para a saúde coletiva (AYRES, 2004). Na Gestalt-terapia, o conceito de ajustamento criativo refere-se às formas singulares que o organismo encontra para sustentar a vida em determinado contexto (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Em Manhãs de Setembro, Cassandra constrói ajustamentos que lhe permitem sobreviver e resistir em um campo marcado pela exclusão. O trabalho como motogirl garante certa autonomia material, ainda que inserida em condições precárias, enquanto a música surge como espaço de expressão, pertencimento e ampliação do contato consigo e com o mundo. Esses ajustamentos podem ser compreendidos como estratégias de cuidado produzidas fora das políticas formais de saúde. Redes afetivas, práticas culturais e espaços de reconhecimento funcionam como dispositivos de promoção da saúde possíveis em contextos de desigualdade, ainda que carreguem um alto custo subjetivo quando as condições estruturais permanecem inalteradas (GRANZOTTO; GRANZOTTO, 2019). Dessa forma, o ajustamento criativo aqui se transmuta em resistência. Não se trata apenas de uma adaptação passiva ao meio, mas de um gesto afirmativo de cuidado de si que desafia as violências estruturais de gênero, raça e classe. Os ajustamentos de Cassandra expressam tanto a potência de sua existência quanto os limites impostos por um campo social que insiste em negar sua humanidade. Como aponta Bell Hooks (2019), para sujeitos historicamente oprimidos, o cuidado de si pode se constituir como gesto de resistência. A promoção da saúde, a partir de uma perspectiva interseccional, exige práticas de cuidado que reconheçam as desigualdades como produtoras de sofrimento. Ao articular a clínica gestáltica com a perspectiva interseccional, observa-se que promover saúde para sujeitos marginalizados implica reconhecer a potência desses ajustamentos, validando a dignidade de suas existências diante do sofrimento imposto pelo campo organismo-ambiente. Conclusão A trajetória de Cassandra em Manhãs de Setembro evidencia que a promoção da saúde, quando pensada a partir de uma perspectiva interseccional, exige o reconhecimento das desigualdades estruturais que atravessam a experiência humana. Gênero, raça, classe e sexualidade organizam o campo social e impactam diretamente as possibilidades de cuidado, saúde e pertencimento (AKOTIRENE, 2019). A Gestalt-terapia contemporânea permite compreender o sofrimento como produção do campo organismo–ambiente, deslocando a clínica de uma lógica individualizante para uma perspectiva ética e política. Cassandra não adoece por incapacidade individual, mas responde criativamente a um mundo que insiste em negar sua humanidade. Seus ajustamentos revelam resistência e, ao mesmo tempo, o alto custo subjetivo de sobreviver em um campo hostil. Ao articular Gestalt-terapia, promoção da saúde e interseccionalidade, este trabalho reafirma que cuidar do sofrimento ético-político-antropológico é um compromisso com a vida em sua dimensão coletiva. Promover saúde, nesse sentido, é sustentar práticas implicadas na transformação das condições que produzem sofrimento, reconhecendo a dignidade das existências historicamente marginalizadas. Referências AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen, 2019. AYRES, José Ricardo de Carvalho Mesquita. Cuidado e reconstrução das práticas de saúde. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 8, n. 14, p. 73–92, 2004. BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A saúde e seus determinantes sociais. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77–93, 2007. GRANZOTTO, Afonso; GRANZOTTO, Rosane. Clínica gestáltica do sofrimento ético-político-antropológico. São Paulo: Summus, 2019. HOOKS, Bell. E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. São Paulo: Elefante, 2019. KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019. NASCIMENTO, Letícia. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021. PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia: excitação e crescimento da personalidade humana. São Paulo: Summus, 1997. RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. MANHÃS DE SETEMBRO. Direção: Luis Pinheiro; Dainara Toffoli. Produção: Amazon Studios. São Paulo, 2021. Série.
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SOUZA, Darley Armando dos Santos; ANDADRE, Lorena Schalken de. CORPO, CAMPO E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA GESTÁLTICA DE CASSANDRA.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1462562-CORPO-CAMPO-E-RESISTENCIA--UMA-LEITURA-GESTALTICA-DE-CASSANDRA. Acesso em: 15/10/2026

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