A INCONGRUÊNCIA DO SELF EM CASOS DE VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
A INCONGRUÊNCIA DO SELF EM CASOS DE VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR
Autores
  • Maria Eduarda Novaes de Lima
  • Marcela Soares Cunha
  • Ana Luiza Ribeiro De Lima
  • Amanda Laíssa Ribeiro Guimarães
  • Maria Luisa Vitoriano De Morais
  • Gustavo Paula de Melo Santana
  • Caroline Cavalcante da Silva
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Políticas públicas e direitos humanos
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1456890-a-incongruencia-do-self-em-casos-de-violencia-intrafamiliar
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
violência psicológica contra a mulher, violência intrafamiliar, abordagem centrada na pessoa, gênero.
Resumo
Introdução: O self para a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) pode ser entendido como um conjunto organizado, mutável e situado de percepções acerca do sujeito, isto é, um padrão de percepções sobre características, relações e aspectos da vida que dizem respeito ao “eu” (Rogers; Kinget, 1977). Nessa perspectiva, Rogers (2001, p. 103) implica que para ocorrer de fato a mudança terapêutica, é necessário que o cliente esteja em um estado de incongruência, que corresponde a um distanciamento entre a experiência real do organismo e a imagem do seu self. Nesse sentido, quanto maior a discrepância entre o self real e o self ideal maior é o estado de ansiedade e desconforto. Rogers (2001, p.103) acrescenta: “Quando o indivíduo não está consciente de tal incongruência em si mesmo, a simples possibilidade de ansiedade e desorganização, torna-o vulnerável”. Nesse âmbito, é possível estabelecer uma relação entre incongruência e processos de sofrimento associados a contextos marcados por julgamentos, rejeições e condições de valor. Segundo Rogers e Kinget (1977), o self é constituído na infância, a partir das experiências vividas pela criança nas relações com pessoas significativas. Portanto, ambientes nos quais o afeto e a aceitação são oferecidos de forma condicional tendem a favorecer a introjeção de valores externos, levando o indivíduo a afastar-se de sua experiência interna autêntica para corresponder às expectativas alheias. Tal dinâmica se mostra especialmente relevante quando analisada à luz das relações familiares, uma vez que estas desempenham papel fundamental na constituição subjetiva. A violência intrafamiliar, entendida como práticas abusivas exercidas no interior da família ou entre pessoas que mantêm vínculos de convivência e parentesco, configura-se como um fenômeno que atravessa diretamente a construção do self (Miura et al., 2011). No caso das mulheres, essa violência frequentemente assume formas simbólicas e psicológicas, manifestando-se por meio de humilhações, críticas constantes, controle comportamental e imposição de padrões rígidos de gênero e feminilidade. No Brasil, a Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) reconhece a violência psicológica como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, podendo ocorrer em diferentes configurações familiares, inclusive nas relações entre mãe e filha. Diante desse cenário, o presente estudo propõe uma análise da incongruência do self em contextos de violência psicológica intrafamiliar, a partir da personagem Elvira no filme A Meia-Irmã Feia (The Ugly Stepsister, 2025). A obra apresenta uma releitura do clássico conto da Cinderela sob a perspectiva de Elvira, uma das “irmãs feias”, cuja trajetória é marcada por comparações constantes, exigências estéticas e desvalorização emocional no ambiente familiar. Discussão: Na trama, observa-se Elvira, atravessada por expectativas familiares e sociais que moldam sua autopercepção. Nesse sentido, sob a ótica da Abordagem Centrada na Pessoa, nota-se como as pressões externas introduzem valores, normas e exigências que tornam seu self cada vez mais dependente de avaliações externas (Rogers, 2001). A personagem se percebe imersa em um contexto que valoriza padrões estéticos que permeiam o imaginário social sobre a figura da “mulher para casar”, bem como posturas comparativas com sua irmã, o que fragiliza sua autoimagem. A busca por corresponder esses padrões não é espontânea, mas se fortalece por meio da avaliação condicional, a tendência de evitar experiências para atender às expectativas do meio, frequentemente em detrimento das próprias necessidades. Nesse processo, formam-se as pessoas-critérios, que oferecem consideração apenas mediante certas condições (Rogers, 1959). No filme, a figura materna ocupa essa posição, pois só aceita a protagonista quando ela atende a determinadas condições. Assim, movida pelo desejo de ser amada pela mãe, a personagem passa a modificar aspectos de sua personalidade e de sua forma física. Smailes (2004) observa que, quando a violência parte de pessoas aparentemente confiáveis, seus efeitos tendem a ser mais profundos e devastadores. A Abordagem Centrada na Pessoa permite compreender essa trajetória ao evidenciar o afastamento de Elvira de sua experiência interna para corresponder às expectativas externas. Esse movimento gera incongruências no self (Rogers, 1997) e tensões entre a experiência vivida, sua simbolização e a forma como a personagem passa a se expressar (Rogers, 1959). O filme, inicialmente, apresenta a protagonista em um contexto familiar relativamente estável, no qual ainda não sofria forte influência das pressões sociais sobre seu corpo, porém, desde as primeiras cenas demonstra seu desejo de encontrar um “príncipe encantado” e ser validada romanticamente por essa figura masculina. A autora Zanello (2023) descreve esse fenômeno da busca feminina pelo amor romântico, especialmente em relações heterossexuais, em seu livro “A Prateleira do Amor”, isto é, as mulheres são socializadas desde cedo a enxergar o amor como um pilar central na formação de sua identidade, e as “mais socialmente bonitas” são as “escolhidas e privilegiadas”. Este cenário é encontrado na relação de Elvira com sua irmã Agnes, e também na relação com sua mãe, que se coloca como rival amorosa da filha, reforçando as comparações. Dessa forma, a partir dessa compreensão sobre como os ideais patriarcais de beleza estruturam desigualdades e violências simbólicas, torna-se possível perceber como tais mecanismos se concretizam na vivência de Elvira. O filme evidencia que esses padrões atravessam diretamente a dinâmica familiar e criam um ambiente de intensa violência contra Elvira provocada por sua mãe. Críticas constantes e imposições estéticas configuram práticas que se enquadram na definição legal e conceitual de violência psicológica contra a mulher (Brasil, 2006), pois produzem dano emocional e prejuízos ao desenvolvimento pleno do sujeito. Além disso, o filme evidencia como o ideal do amor romântico atua como elemento estruturante da identidade feminina, as mulheres são socializadas a compreender o amor como um eixo central de validação pessoal (Zanello, 2022). Desse modo, Elvira internaliza a crença de que somente ao se tornar desejável será digna de reconhecimento, o que reforça a construção de um self idealizado e distante de sua experiência real. A partir dessa perspectiva, observa-se que Elvira desenvolve um self rígido, incapaz de atualizar suas percepções a partir da própria vivência. Conforme Messias e Cury (2019), a incongruência compromete a capacidade do indivíduo de integrar novas experiências de forma saudável, tornando-o vulnerável à introjeção acrítica de valores externos. No filme, isso se expressa na submissão da personagem a procedimentos estéticos que comprometem sua saúde física e emocional, evidenciando o grau de alienação em relação às próprias necessidades. Apesar de se tratar de uma obra ficcional, a narrativa dialoga diretamente com experiências vividas por mulheres na realidade contemporânea, especialmente em contextos marcados por desigualdades de gênero e violências simbólicas. Ao final do filme, a fuga de Elvira com a irmã mais nova sugere a possibilidade de rompimento com o ambiente violento, apontando para a importância de relações mais acolhedoras como condição para a reconstrução subjetiva. Sob a ótica da ACP, esse movimento pode ser compreendido como a busca por um ambiente facilitador, pautado na aceitação positiva incondicional, empatia e autenticidade, condições necessárias para a redução da incongruência e o fortalecimento da autonomia. Considerações finais: A análise evidencia a trajetória de Elvira diante do impacto das pressões estéticas, da avaliação externa e da violência psicológica intrafamiliar, as quais produzem incongruências profundas entre o self real e o self ideal, fenômeno que Rogers (1997) descreve como fonte primária de angústia e vulnerabilidade. Dessa forma, o estudo contribui para reflexões acerca da articulação entre psicologia humanista, violência intrafamiliar e gênero, destacando a relevância de práticas clínicas e sociais que promovam ambientes de acolhimento, empatia e aceitação incondicional. Ao utilizar uma obra cinematográfica como recurso analítico, o trabalho amplia as possibilidades de compreensão dos processos subjetivos envolvidos na experiência feminina, reafirmando a importância da ACP como referencial teórico-clínico na análise do sofrimento psicológico produzido por contextos de violência e desigualdade. Referencial Bibliográfico BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 8 ago. 2006. MESSIAS, João Carlos Caselli; CURY, Vera Engler. Psicoterapia Centrada na Pessoa e o Impacto do Conceito de Experienciação. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 19, n. 3, p. 355-361, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-79722006000300003. Acesso em: 22 nov. 2025. MIURA, P. O.; NAFFAH NETO, A.; PAIXÃO, R.; LEAL REDONDO, A. A constituição do self a partir das relações familiares abusivas: um enfoque winnicottiano. Psic. Rev. São Paulo, v. 20, n. 1, p. 43-66, 2011. ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. ROGERS, Carl R. Terapia centrada no cliente: sua prática e teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ROGERS, C. R. Teoria e pesquisa. In: ROGERS, C. R.; KINGET, M. Psicoterapia e relações humanas: teoria e prática da terapia não-diretiva. v. 1. Belo Horizonte: Interlivros, 1977. p. 143-282. Original publicado em 1959. SMAILES, S. Making connections: domestic violence, feminism and person-centred therapy. In: NAPIER, M. B.; PROCTOR, G. (orgs.). Encountering feminism: intersections between feminism and the person-centred approach. Ross-on-Wye: PCCS Books, 2004. p. 207-220. ZANELLO, Valeska. A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Curitiba: Appris, 2023.
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

LIMA, Maria Eduarda Novaes de et al.. A INCONGRUÊNCIA DO SELF EM CASOS DE VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1456890-A-INCONGRUENCIA-DO-SELF-EM-CASOS-DE-VIOLENCIA-INTRAFAMILIAR. Acesso em: 15/10/2026

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