DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA PSICOLOGIA HUMANIZADA E TERRITORIALIZADA NO SUS AMAZÔNICO

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA PSICOLOGIA HUMANIZADA E TERRITORIALIZADA NO SUS AMAZÔNICO
Autores
  • Ana Carolina Da Costa Moraes
  • Ana Paula Amaral Pequeno
  • LUCIOLA SANTANA PASTANA SILVA
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Promoção de saúde a partir de uma perspectiva interseccional
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1455445-desafios-e-possibilidades-para-a-construcao-de-uma-psicologia-humanizada-e-territorializada-no-sus-amazonico
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
Psicologia no SUS; Territorialização; Saúde mental; Transculturalidade; Amazônia.
Resumo
Introdução: O Sistema Único de Saúde (SUS) representa uma conquista fundamental para a garantia do direito à saúde no Brasil, pautada nos princípios da universalidade, integralidade e equidade. Entretanto, a efetivação desses princípios em um território de dimensões continentais e diversidade sociocultural ímpar, como a Amazônia Legal, apresenta desafios complexos e específicos. A formação em Psicologia, frequentemente centrada em modelos urbanocêntricos e hospitalocêntricos, mostra-se insuficiente para preparar profissionais para atuar nesse contexto, no qual a lógica de cuidado hegemônica pode se tornar uma forma de violência epistêmica ao desconsiderar saberes, modos de vida e territorialidades próprias. Este ensaio surge de uma vivência no SUS realizada em Belém-PA, em maio de 2025. A experiência permitiu constatar o abismo entre a teoria psicológica tradicional e a realidade amazônica, despertando a reflexão crítica sobre o fazer psicológico na região. Defendemos a premissa de que a Psicologia no SUS Amazônico deve se fundamentar em dois pilares indissociáveis: a humanização, entendida como uma prática centrada na subjetividade, nos direitos humanos e no afeto; e a territorialização, que significa ancorar a prática nas especificidades ecológicas, culturais, históricas e espirituais do território, rejeitando a imposição de modelos universais e descontextualizados. Para tanto, é imperativo adotar uma postura transdisciplinar e transcultural, que busque romper com a hierarquia dos saberes e assim estabeleça um diálogo horizontal e ético com os conhecimentos tradicionais das populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas. Objetivo: Eeste relato de experiência objetiva refletir criticamente sobre os desafios e as possibilidades para construir uma prática psicológica humanizada e territorializada no âmbito do SUS na Amazônia. Busca-se, a partir da análise da vivência em serviços de saúde e comunidades tradicionais da região metropolitana de Belém, problematizar os limites do modelo de formação e atuação psicológica hegemônica e apontar caminhos para uma Psicologia comprometida com a equidade, a justiça socioambiental e o diálogo de saberes. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência de caráter reflexivo e ensaístico, fundamentado na observação participante e em diálogos realizados durante uma vivência de campo no SUS, na região metropolitana de Belém-PA, em maio de 2025. A experiência foi guiada por um olhar etnográfico sensível, buscando compreender a realidade a partir da perspectiva dos atores locais. As atividades incluíram visitas a dois espaços emblemáticos: 1) A Associação de Mulheres Extrativistas do Combu (AME), na Ilha do Combu, onde foi possível conhecer o processo de extração do óleo de andiroba, seus usos medicinais e cosméticos, e os saberes tradicionais e ritos que envolvem essa prática, transmitidos oralmente entre gerações; e 2) A Unidade Básica de Saúde do quilombo Sucurijuquara, onde se observou o trabalho de uma Agente Comunitária de Saúde (ACS) e se ouviu o relato de um casal de irmãos detentores de conhecimentos sobre ervas medicinais. A reflexão gerada a partir dessas experiências diretas foi articulada a uma revisão narrativa da literatura, consultando marcos legais do SUS (como a Lei nº 8.080/1990 e a Lei nº 10.216/2001), políticas públicas específicas (como a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas - PNSIPCFA), documentos de referência do Conselho Federal de Psicologia e autores fundamentais das áreas de Psicologia Social, Saúde Coletiva e pensamento decolonial. A análise integra, portanto, as impressões da vivência prática com um quadro teórico-conceitual que permite discutir criticamente a formação e a atuação psicológica na Amazônia. Discussão: A vivência expôs, de maneira contundente, a inadequação de um modelo de Psicologia desterritorializado para a realidade amazônica. Enquanto o SUS preconiza a universalidade, a realidade regional exige adaptações criativas que reconheçam a diversidade. O primeiro desafio identificado é geográfico e logístico: a vastidão do território, cortado por rios e coberto por florestas, dificulta o acesso físico das populações aos serviços de saúde, e vice-versa. Políticas como a expansão das Equipes de Saúde da Família Ribeirinha (eSFR) e das Unidades Básicas de Saúde Fluvial (UBSF), previstas no Plano Nacional de Saúde 2024-2027, são respostas necessárias, mas ainda insuficientes. Um desafio mais profundo, porém, é de ordem cultural e epistêmica. A formação psicológica, como apontam Mello e Teo (2019), frequentemente reproduz um modelo clínico tradicional, individualizante e baseado em uma suposta neutralidade científica, deslocado para a atenção básica. Dimenstein e Macedo (2012) criticam essa atuação, afirmando que o psicólogo muitas vezes se integra a uma lógica de trabalho "biologizante e mecanizada da vida", com intervenções individualizadas e verticalizadas. Na Amazônia, essa lógica entra em choque com cosmovisões que entendem saúde e doença de forma holística, coletiva e intimamente ligada ao território. O conceito de território aqui vai muito além da geografia. Conforme discutido por Furtado et al. (2016), na saúde mental, o território envolve relações de poder, identidades e saberes. Na Amazônia, como visto na vivência, o território é um elemento constitutivo da vida. O rio é via, alimento, ritual e eixo organizador da comunidade. A floresta é farmácia, cosmologia e espaço de existência. Ignorar essa dimensão é reproduzir a "cosmofobia" – termo cunhado por Bispo dos Santos (2023) para designar o medo ou a rejeição da conexão com a terra e os saberes ancestrais. A experiência no Combu e em Sucurijuquara evidenciou potentes possibilidades de superação desses desafios através do diálogo de saberes. Na AME, o conhecimento sobre a andiroba, envolto em ritos (como a interdição à participação de mulheres menstruadas no processo), não é um mero "folclore", mas um sistema de saber complexo e eficaz. No quilombo, a ACS demonstrou uma prática humanizada ao ler folhetos para quem não é alfabetizado, e o casal de irmãos mostrou um sistema autônomo de cuidado baseado em ervas do próprio quintal, conhecimento transmitido para a filha enfermeira, que ao integrar esse saber ancestral à sua prática profissional, personifica a transculturalidade desejável. Esses exemplos concretizam a necessidade de uma Psicologia territorializada que faça a "ancoragem", nos termos de Moscovici (2003), desses saberes locais. Isso implica uma postura ética de deslocamento: o psicólogo deixa de ser o detentor exclusivo do saber para assumir um papel de mediador, aprendiz e facilitador da articulação entre diferentes conhecimentos. A humanização nesse contexto está intrinsecamente ligada ao combate à medicalização da vida, fenômeno ampliado pelo neoliberalismo. Como explica Gorz (2004), a ideologia neoliberal, ao transformar tudo em mercadoria e responsabilizar o indivíduo por seu sucesso ou fracasso, gera um sofrimento social que é posteriormente convertido em transtorno individual a ser tratado com fármacos. Nas populações tradicionais, a imposição desse modelo significa invalidar seus próprios sistemas de cura, aprofundando a exclusão. A humanização, portanto, exige uma escuta ativa, afetiva e horizontal, que reconheça a alteridade e compreenda o sujeito em seu contexto social, histórico e cultural, como defende Lane (2001). A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) é um marco legal que abre espaço para essa integração, mas sua implementação no cotidiano do SUS ainda é insuficiente. A verdadeira integração demanda mais do que a simples oferta de novas terapias; exige uma mudança estrutural na relação entre os profissionais de saúde e os detentores de saberes tradicionais (pajés, parteiras, benzedeiras, erveiros). Considerações Finais: A vivência no SUS Amazônico escancara que a construção de uma Psicologia ética e eficaz na região é um projeto político-epistemológico de transformação. Não se trata de simplesmente aplicar técnicas em um novo cenário, mas de repensar radicalmente os fundamentos da prática profissional à luz das especificidades amazônicas. Os princípios de humanização e territorialização surgem como eixos norteadores indispensáveis para uma atuação que respeite a dignidade e promova a equidade em saúde. Conclui-se que a efetivação desse projeto depende de ações em múltiplas frentes. Na formação, é urgente reformular as grades curriculares dos cursos de Psicologia, incorporando conteúdos sobre saúde coletiva, políticas públicas, diversidade cultural, saberes tradicionais e uma crítica consistente ao modelo medicalizante e colonial. A experiência de estágios e vivências em contextos reais do SUS, como a que originou este ensaio, é fundamental para essa formação crítica. Nas políticas públicas, é necessário avançar além das metas quantitativas de cobertura e investir em recursos específicos para a saúde mental na Amazônia. Isso inclui financiar pesquisas-ação participativas, ampliar e fortalecer serviços territorializados e criar carreiras de estado que valorizem e fixem os profissionais na região. No exercício profissional, as psicólogas são chamadas a adotar uma postura permanentemente reflexiva e autocrítica, desconstruindo visões estereotipadas e racistas internalizadas. Devem buscar ativamente o diálogo com as comunidades, atuando como parceiros na co-construção de estratégias de cuidado que façam sentido localmente. Por fim, a Psicologia organizada, por meio de seu conselho profissional, deve seguir produzindo e disseminando referências técnicas que apoiem essa atuação contextualizada, como já fazem os documentos sobre atenção básica e povos indígenas (CFP, 2019; CFP, 2024). Em última análise, construir um SUS verdadeiramente universal e com equidade na Amazônia significa reconhecer que a universalidade não se alcança pela uniformidade, mas pelo respeito radical à diversidade. O futuro da saúde mental no Brasil passa pelo desafio de aprender com a Amazônia, honrando suas águas, suas florestas, suas lutas e, sobretudo, a sabedoria de seus povos.
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

MORAES, Ana Carolina Da Costa; PEQUENO, Ana Paula Amaral; SILVA, LUCIOLA SANTANA PASTANA. DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA PSICOLOGIA HUMANIZADA E TERRITORIALIZADA NO SUS AMAZÔNICO.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1455445-DESAFIOS-E-POSSIBILIDADES-PARA-A-CONSTRUCAO-DE-UMA-PSICOLOGIA-HUMANIZADA-E-TERRITORIALIZADA-NO-SUS-AMAZONICO. Acesso em: 12/10/2026

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