MULHERES EM RESISTÊNCIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE INTERVENÇÃO EM UMA OCUPAÇÃO FEMININA

Publicado em 28/09/2026 - ISBN: 978-65-272-2778-6

Título do Trabalho
MULHERES EM RESISTÊNCIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE INTERVENÇÃO EM UMA OCUPAÇÃO FEMININA
Autores
  • Ruan Pablo Sales dos Santos
  • Érica Pereira Da silva
  • JOELMA DOS SANTOS FAYAL
  • Kiara Kauany Do Nascimento Maciel
  • Edson Cauã Ramos Lisboa
  • ROBERTA BENTES FLORES BAYMA
Modalidade
RESUMO EXPANDIDO
Área temática
Políticas públicas e direitos humanos
Data de Publicação
28/09/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1454972-mulheres-em-resistencia--relato-de-experiencia-de-intervencao-em-uma-ocupacao-feminina
ISBN
978-65-272-2778-6
Palavras-Chave
Ocupação, intervenção, psicossocial, direitos humanos.
Resumo
INTRODUÇÃO A Ocupação de Mulheres Rayana Alves foi fundada em 15 de agosto de 2022, na cidade de Belém, estado do Pará. Trata-se de uma iniciativa do Movimento de Mulheres Olga Benário (MMOB), o qual está presente em 22 estados brasileiros. O movimento tem como marco a criação da Casa Tina Martins no ano de 2016, em Belo Horizonte, e teve papel relevante no engajamento político que contribuiu para a formação do Partido Unidade Popular (UP). A ocupação Rayana Alves foi instalada em um prédio privado abandonado havia mais de sete anos, localizado no bairro Batista Campos, e recebeu o nome de Rayana de Jesus Bezerra Alves, que foi uma militante do movimento assassinada. Em seu período inicial, o espaço chegou a acolher até 70 mulheres em situação de vulnerabilidade psicossocial e chegou a abrigar simultaneamente até 20 mulheres ao longo de sua trajetória no acolhimento das vítimas. O objetivo do presente trabalho é realizar um relato de experiência de uma intervenção realizada na Ocupação Rayana Alves. O relato pretende destacar tanto as potencialidades, quanto às dificuldades enfrentadas na construção da intervenção, além de contribuir para fortalecer práticas de cuidado coletivo e promover reflexões críticas acerca das condições sociais que atravessam a vida dessas mulheres. METODOLOGIA A intervenção realizada e a presente produção escrita adotou como metodologia uma abordagem qualitativa a qual, de acordo com Minayo (2001) está voltada para questões particulares, não quantificáveis e que se relacionam com os processos referentes ao mundo dos significados que não são alcançados por metrificações. As atividades ocorreram a partir do levantamento diagnóstico realizado na comunidade em dois momentos. No primeiro, com a coordenadora, foi realizada uma entrevista livre com o objetivo de coletar informações sobre o histórico do espaço, funcionamento dos atendimentos, potencialidades do serviço, bem como suas limitações; o grupo utilizou papel e caneta para registrar pontos importantes da conversa, sem um roteiro ou modelo pré-definido. No segundo, foi realizado um encontro com as mulheres usuárias do serviço da ocupação, voltado a acolher as percepções das usuárias acerca do espaço, bem como coletar dados sociodemográficos e apreensão sobre aspectos subjetivos, tais como desejos e projeções. Para tanto, utilizou-se as perguntas disparadoras, “Como eu chego hoje?”; “Qual minha relação com a Ocupação Rayana Alves?”; “O que eu vejo como potência em mim?”. A partir das informações coletadas nos momentos diagnósticos, o grupo realizou a intervenção psicossocial que foi denominada como “O reflexo de mim”. Nesta atividade, foi ofertado às mulheres folhas de papel A4 com uma moldura de um espelho e lhes foi solicitado que produzissem um desenho, colagem e/ou pintura, a partir do comando: “Represente no espelho algo que te mobiliza e te espelha” através da utilização de materiais que foram disponibilizados. Em seguida, o grupo conduziu uma roda de conversa a partir das seguintes perguntas norteadoras: 1. “O que você sentiu ao representar algo que te espelha? ”; 2. “Como é para você se ver refletida nesse desenho/colagem/pintura e qual palavra lhe vem à mente ao olhar para o seu reflexo? ”; 3. “O que você deseja que seu eu do futuro veja como reflexo? ”. RESULTADOS E DISCUSSÕES A partir das visitas diagnósticas, emergiram as demandas psicossociais: baixa autoestima das participantes, dificuldade de visualização de si mesmas e necessidades relacionadas à manutenção da ocupação, principalmente advindos da falta de energia elétrica, que acarreta consequentemente a falta de água, além de ameaças constantes de reintegração de posse do local. Tendo em vista que a ocupação mantém um brechó para geração de renda, a necessidade de arrecadação de fundos para manutenção da Ocupação e o decorrente impacto psicossocial da questão econômica sobre as mulheres, nossa proposta inicial de intervenção foi facilitar a organização de um brechó solidário para geração de renda, juntamente com atividades reflexivas onde as mulheres pudessem discorrer sobre os impactos psíquicos da situação de vulnerabilidade econômica e social. Apesar do acordo inicial com a coordenação, a frequência das mulheres nas reuniões preparatórias foi baixa, com média de 1 a 2 participantes. Dessa forma, a intervenção seguiu a segunda ideia previamente planejada: a realização da dinâmica “O reflexo de mim”. No início da intervenção, foi disposta uma peça de centro no círculo formado pela participante, pelos integrantes do grupo e pela preceptora, ora orientadora deste relato, que precisaram participar da atividade devido à ausência de mulheres. Duas pessoas do grupo mediaram o processo e disponibilizaram revistas, cola, tintas guache, pincéis, tesouras, giz-de-cera. Embora as modificações tenham sido necessárias para garantir a viabilidade da intervenção, e mesmo que o brechó solidário não tenha sido realizado, o grupo arrecadou uma quantidade expressiva de roupas por meio de divulgação. Essas peças foram entregues à ocupação, para que fossem direcionadas ao brechó. Apesar das limitações do planejamento inicial, as adaptações permitiram reflexões importantes sobre a necessidade de olhar para si mesmas, para o cotidiano e para a luta e resistência das mulheres que frequentam a ocupação na medida em que descentra o olhar delas sobre a sua luta e as violências às quais estão expostas - que não deixa de ser uma questão significativa -, mas, permite um espaço de cuidado e reflexão sobre si para além da militância. Isso corrobora com o relato da participante que, em linhas gerais, disse que a intervenção foi um momento de olhar para suas potências, para a sua singularidade, mas também para projetar reflexos futuros, sobretudo no que tange às projeções políticas que têm enquanto mulher e militante. Apesar do estado de consciência política das mulheres sobre o seu processo de opressão e sobre as construções que produzem sua condição de vulnerabilidade, uma ampla esfera de impactos psíquicos, que extrapolam o simples nível da compreensão, se impõe como questão. Nesse sentido, a intervenção corrobora com o que Martín-Baró (1994) chama de psicologia da libertação ao passo que a fragmentação da autoimagem representa o processo de internalização do olhar estigmatizante da sociedade patriarcal e racista e os impactos subjetivos produzidos por esse enquadramento de violência e subalternidade. Assim, a atividade do espelho mostrou-se potente para externalizar esse processo e iniciar uma ressignificação da autoimagem, construindo não só a resistência diante das mazelas estruturais da sociedade, mas também um processo elaborativo sobre sua história de vida e reflexão sobre sua história o que leva a reflexão crítica e à transformação social (Lane, 2006). Outra percepção importante a partir da intervenção se refere à relação conflituosa da ocupação com o poder público e privado, a qual pauta-se em aspectos históricos, nas dimensões políticas, sociais e econômicas que perpetuam práticas de injustiça social e violências (Butler, 2021). Nesse processo, o estado é insuficiente para lidar com a condição de desigualdade produzida por uma falha primária no cuidado e atenção das mulheres vítimas de violência e assume uma postura violenta frente aos movimentos que constroem possibilidades para combater esse ônus. Ao adotar essa postura, o poder ignora a tentativa dos movimentos de mulheres de “reclassificar os seres vivos como dignos de valor, como potencialmente enlutáveis justamente na condição em que são apagados do campo de visão ou lançados em formas irreversíveis de precariedade" (Butler, 2021, p.35). A trajetória da militância representa estratégias que combate às condições de desigualdade a que estão expostas e seu desejo de igualdade e justiça para o futuro reforça a importância da “utopia possível” apontada por Freire (1996), que mesmo em condições extremas de vulnerabilidade, as mulheres conseguem projetar-se para além da sobrevivência imediata. Isso reafirma o alerta ético de que nenhuma intervenção será emancipatória se não partir do reconhecimento radical das condições materiais que produzem o sofrimento, e se não se submeter permanentemente ao ritmo e às decisões das próprias mulheres. CONCLUSÃO Em síntese, a experiência mostrou que há potência na escuta horizontal e na produção artística como dispositivos de ressignificação da autoimagem e de fortalecimento coletivo. A intervenção reafirmou que, como aponta Martín-Baró (1996), a libertação psicológica não se faz apesar das opressões, mas a partir delas e com elas. A experiência de trabalho na comunidade foi potencialmente transformadora para o grupo, muitos aprendizados foram adquiridos, ademais, o grupo mantém interesse de manter contato com a comunidade para a realização de outras atividades. Assim, compreender a dinâmica da Ocupação de Mulheres Rayana Alves exigiu reconhecer não apenas sua relevância como espaço de acolhimento e resistência, mas também sua posição enquanto território de construção coletiva, disputa política e enfrentamento cotidiano das desigualdades de gênero e classe. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUTLER, Judith. A força da não violência: um vínculo ético político. 1º Edição. São Paulo: Boitempo, 2021. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. HOOKS, bell. Ensinando o pensamento crítico: sabedoria prática. 1º Edição. São Paulo: Editora Elefante, 2020. LANE, S. T. M. Psicologia Social Crítica: o homem em movimento. São Paulo: Brasiliense, 2006. MARTÍN-BARÓ, I. Problemas da Psicologia Social. Petrópolis: Vozes, 1996. MARTÍN-BARÓ, Ignacio. Writings for a Liberation Psychology. Editado por Adrianne Aron e Shawn Corne. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1994. MINAYO, Maria C. S. (org.). Pesquisa social, teoria, método e criatividade. 18º Edição. Petrópolis: Vozes, 2001.
Título do Evento
VI Seminário de Psicologia Social da Amazônia - Entre o rio e a cidade: insurgências contemporâneas
Cidade do Evento
Belém
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SANTOS, Ruan Pablo Sales dos et al.. MULHERES EM RESISTÊNCIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE INTERVENÇÃO EM UMA OCUPAÇÃO FEMININA.. In: Anais do Seminário de Psicologia Social da Amazônia: Entre o rio e a cidade: Insurgências contemporâneas.. Anais...Belém(PA) UNIFAMAZ, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/vi-seminario-de-piscologia-social-da-amazonia-entre-o-rio-e-a-cidade-insurgenciasnbsp-contemporaneas-659526/1454972-MULHERES-EM-RESISTENCIA--RELATO-DE-EXPERIENCIA-DE-INTERVENCAO-EM-UMA-OCUPACAO-FEMININA. Acesso em: 12/10/2026

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