ENTRE SABERES E FAZERES: DISPOSITIVOS GRÁFICOS ESTRATÉGICOS PARA A AUTONOMIA ARTESÃ

Publicado em 09/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2266-8

Título do Trabalho
ENTRE SABERES E FAZERES: DISPOSITIVOS GRÁFICOS ESTRATÉGICOS PARA A AUTONOMIA ARTESÃ
Autores
  • Giovana Silva de Oliveira
  • Victor Silva Morais Furtado
  • Lya Brasil Calvet
  • Alline de Albuquerque Bezerra Moreira
Modalidade
Resumo Expandido (Edital)
Área temática
Saberes Situados, Tecnologias e Modos de Produção
Data de Publicação
09/03/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/v-coloquio-pesquisa-design-arte/1248776-entre-saberes-e-fazeres--dispositivos-graficos-estrategicos-para-a-autonomia-artesa
ISBN
978-65-272-2266-8
Palavras-Chave
Palavras-chave: Dispositivos gráficos estratégicos, autonomia, Saberes localizados, Design social, projeto editorial, ilustração.
Resumo
1. Entre Tradição e Formalização As comunidades artesanais tendem a enfrentar desafios como a formalização profissional, precificação justa e acesso a direitos trabalhistas. Mestras e mestres artesãos por vezes apresentam dúvidas acerca dos aspectos econômicos e legais de suas atividades produtivas. Tal demanda foi identificada na comunidade artesã de Moita Redonda (Cascavel-CE), por meio de pesquisas do Varal - Laboratório de Design Social, entre 2018 e 2024, junto às artesãs e aos artesãos locais. As pesquisas lidaram com os temas da sustentabilidade socioeconômica dos núcleos produtores e da união entre moradores, baseada na compreensão de identidade comum e lutas partilhadas, visando combater a perda da tradição secular de produção das peças em barro (Silva et al., 2024). Nesse período, foram cocriados diversos projetos, desde utensílios até mapas da comunidade e livros ilustrados. Como parte dessas iniciativas, integrantes do laboratório desenvolveram o projeto Dispositivos gráficos estratégicos de Design Social junto a comunidades artesãs, apoiado pela Lei Paulo Gustavo (LPG) por meio do 13º Edital Ceará das Artes (SECULT-CE). O objetivo principal foi desenvolver e implementar livretos ilustrados didáticos que orientam sobre três instâncias: Métodos de precificação; Direitos profissionais e benefícios legais; Design social. Os livros, finalizados e distribuídos entre a comunidade, utilizam linguagem acessível e possuem versões digitais e em audiolivro. Criamos materiais gráficos estratégicos que dialogam com a realidade local, promovemos uma oficina criativa para aplicação prática dos conhecimentos e garantimos acessibilidade por meio das versões audionarradas. O processo se insere na fase Coração da metodologia do laboratório (Cabeça, Corpo e Coração), na qual comunidade e designers já se conhecem bem (após anos de processos cocriativos) e os projetos experimentais se tornam mais robustos e objetivos, buscando autonomia para além do período de cocriação e incentivando a comunidade a utilizar os dispositivos à sua maneira. 2. Do Contexto e da Teoria à Prática Comunitária A fundamentação deste trabalho se alinha à proposta de Donna Haraway (1995) sobre saberes localizados, expandida à prática do design como atividade política e situada, capaz de conectar conhecimentos empíricos a dispositivos contemporâneos de comunicação e regulação social. Ancoramo-nos no estudo sobre os dispositivos gráficos estratégicos no campo do Design Social (Silva et al., 2018; 2023), especialmente a categoria denominada dispositivos de autonomia – artefatos que interagem diretamente com as práticas e condições de trabalho de sujeitos inseridos em uma coletividade. Por meio de projetos, tangíveis ou não, designers tomam a rede de interação e produção de significados que media a relação entre artefatos e público como estratégia que guia os resultados pretendidos. Os dispositivos estratégicos de Design Social (Silva et al., 2018) emergem como dispositivos de autonomia (Silva et al., 2023) ao mediar os saberes localizados da comunidade artesã e os sistemas normativos que regulam trabalho, reconhecimento profissional e direitos sociais. Os dispositivos reconhecem os artesãos como detentores de saberes culturais e relacionam-se com questões do fluxo compreendido na comunidade de Moita Redonda. O primeiro problema registrado foi a precificação: a faixa de preços entre diferentes núcleos artesãos não possui padrão e apresenta grandes discrepâncias, com um mesmo produto sendo ofertado a R$ 10 ou R$ 100, dependendo do núcleo. Alguns artesãos estão melhor posicionados no mercado e possuem conexões com espaços promotores do artesanato, como a Ceart, sentindo-se seguros na cobrança de preços justos; outros têm dificuldade em alcançar reconhecimento, ainda que partilhem da tradição e também produzam com qualidade. Há ainda o fator geográfico: alguns núcleos localizam-se na avenida principal de Moita Redonda, outros são afastados. Assim, quem visita a comunidade para adquirir peças artesanais naturalmente prefere os núcleos mais próximos da avenida, tornando escassa a demanda dos demais. A segunda problemática refere-se ao reconhecimento dos próprios direitos, deveres e benefícios pelo artesão. Muitos artesãos são idosos em idade de aposentadoria, mas relataram dificuldade para comprovar tempo de serviço e usufruir do direito, principalmente devido à condição do artesanato como profissão autônoma. Além disso, muitos não possuem a Carteira do Artesão (nacional ou estadual), promovida pelo Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), que comprova atuação profissional e confere benefícios como acesso a feiras e isenção de ICMS na comercialização das peças artesanais em alguns estados. O terceiro tema é o Design Social, que surge como proposta de letramento, endereçando ações realizadas junto à comunidade como partes de processos de projeto. Manzini (2017) define Design Social como atividade que lida com problemas não tratados por instâncias mercadológicas e governamentais e com pessoas que normalmente são silenciadas por não possuírem meios econômicos ou políticos para criar uma demanda formal. Similarmente, Margolin e Margolin (2004) entendem que esse design atende às necessidades de pessoas invisibilizadas, como as de baixa renda ou com necessidades especiais. São essas definições, aliadas à vivência com a comunidade, que guiam o conteúdo desse livreto. Ele atua como uma síntese das ações realizadas junto a Moita Redonda ao longo dos anos, relembrando métodos e técnicas que permearam a cocriação e podem ser retomados e reapropriados. 3. Discussão dos resultados Foram realizadas oito pesquisas de campo com ações para o desenvolvimento deste projeto, entre os meses de setembro e dezembro de 2024. A coleta dos dados foi feita tanto pela equipe interna quanto pelos monitores comunitários, seis jovens de Moita Redonda, entre 18 e 30 anos, que atuam como auxiliares no processo de acabamento das peças artesanais dos núcleos produtores (pintando, alisando, queimando etc). Os monitores participaram de processo seletivo para contribuir com o projeto e produziram fotos, vídeos e entrevistas, além de facilitar a comunicação com a comunidade de modo geral durante as idas de campo e os períodos entre idas. Imagem 1 – Reunião com a monitoria comunitária Fonte: Autores (2024). Durante as pesquisas, a equipe levou protótipos e partes do livro para testagem e verificação dos dados. O primeiro foi a ficha de precificação, contendo os principais componentes para o cálculo do preço de uma peça artesanal de barro, como a “bola de barro” (medida-base indicada pelos artesãos), água, lenha, materiais de decoração e acabamento, horas de trabalho, valor percebido etc. Uma primeira versão desta ficha foi experimentada junto a sete artesãos mais experientes e com os monitores comunitários, que apontaram melhorias e possíveis correções, como a inclusão ou exclusão de alguns itens. O segundo e o terceiro protótipo giraram em torno dos direitos: um panfleto voltado aos meios de obtenção da aposentadoria pela atividade artesanal e uma cartilha sobre a carteirinha de artesão e os passos para obtê-la. Ambos os materiais possuíam teor principalmente informativo, pouco interativo, e foram entregues a artesãos que haviam demonstrado dúvidas sobre a temática. O panfleto foi distribuído e mediado pela equipe interna e a cartilha, pelos monitores comunitários. Imagem 2 – Testagem de protótipos em campo Fonte: Autores (2024). O principal momento de validação do material produzido, a Oficina Criativa, se dividiu em dois momentos. No primeiro, o público artesão aplicou, com auxílio da equipe de designers e monitores comunitários, os métodos de precificação explicados no livreto em suas próprias peças. Uma versão aprimorada da ficha foi apresentada e recebida com sugestões de melhoria. No segundo momento da oficina, as perguntas relativas aos direitos profissionais foram novamente abordadas, desta vez com possibilidade de consulta no livreto, gerando troca entre os pares. A equipe verificou a eficiência dos dispositivos gráficos e os ajustes a serem feitos. Imagens 3 e 4 – Apreciação dos livretos em Oficina Criativa Fonte: Autores (2024). Com as críticas incorporadas, os Guias ilustrados para comunidades artesãs: direitos, precificação e design social foram distribuídos na forma impressa para cada núcleo produtor e disponibilizados digitalmente, permitindo apropriação por outras realidades do artesanato popular. Os dispositivos estratégicos contêm linguagem simples, ilustrações, quadrinhos e interações analógicas que reforçam a participação do público. No livreto de Precificação, há espaços para preenchimento a lápis, facilitando o uso da ficha como instrumento de trabalho; no guia de Direitos, as listagens ilustradas de documentos e critérios também têm possibilidade de preenchimento, como checklists; já o livreto de Design Social foi entregue à comunidade na forma de calendário, estimulando o uso cotidiano. A proposta incluiu versões audionarradas, com efeitos sonoros, assegurando maior acessibilidade. Essas versões são acessadas por meio de um QR code na versão impressa e um botão no e-book. Os materiais podem ser encontrados no link: https://linktr.ee/guiaseducativosartesanato. Imagem 5 – Capas das versões finais dos livretos Fonte: Autores (2024) Imagem 6 – Livretos finais abertos Fonte: Autores (2024) Imagem 7 – Entrega dos livretos finais na comunidade Fonte: Autores (2024) Imagem 8 – Organograma das atribuições de projeto Fonte: Autores (2024) Ainda que contenha espaços para melhorias, o projeto contribui para o desenvolvimento da profissão artesã, especialmente comunidades emergentes, com pouca visibilidade no circuito artesanal estadual. Além do impacto socioeconômico, ao tratar de rendimentos financeiros e formalização do ofício, prevemos um desenvolvimento individual articulado ao coletivo, uma vez que os livretos estabelecem parâmetros gerais para a comunidade, como preços similares das peças, o que pode fortalecer os laços e a percepção enquanto grupo e culminar em iniciativas como a criação de associações ou cooperativas. REFERÊNCIAS HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, n. 5, p. 7–41, 1995. MARGOLIN, Victor; MARGOLIN, Sylvia. Um Modelo Social de Design: questões de prática e pesquisa. Revista Design em Foco, v. I, n. 1, jul-dez, p. 43-48, 2004. MANZINI, Ezio. Design: quando todos fazem design: uma introdução ao design para a inovação social. São Leopoldo: UNISINOS, 2017. SILVA, Anna Lúcia dos Santos Vieira et al. CATÁLOGO COMO DISPOSITIVO ESTRATÉGICO DE DESIGN SOCIAL: PROCESSO COLABORATIVO COM A COMUNIDADE ARTESÃ DE MOITA REDONDA. In: Colóquio de pesquisa em design e arte: arte, design, (re)invenção política e transformação social. 2023, Fortaleza. Anais. Disponível em: https://www.even3.com.br/anais/iv-coloquio-de-pesquisa-em-design-e-arte/706669-catalogo-como-dispositivo-estrategico-de-design-social--processo-colaborativo-com-a-comunidade-artesa-de-moita-re/ . Acesso em: 20/06/2024. SILVA, Anna Lúcia dos Santos Vieira et al. Aplicação de dispositivos estratégicos em Design Social no fortalecimento de identidade local. Projética, Londrina, v.9, n.2 supl. p. 143-158, nov. 2018.
Título do Evento
V Colóquio de Pesquisa em Design e Artes
Título dos Anais do Evento
Anais do V Colóquio de Pesquisa em Design e Artes
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

OLIVEIRA, Giovana Silva de et al.. ENTRE SABERES E FAZERES: DISPOSITIVOS GRÁFICOS ESTRATÉGICOS PARA A AUTONOMIA ARTESÃ.. In: Anais do V Colóquio de Pesquisa em Design e Artes. Anais...Fortaleza (CE) UFC | UFCA, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/v-coloquio-pesquisa-design-arte/1248776-ENTRE-SABERES-E-FAZERES--DISPOSITIVOS-GRAFICOS-ESTRATEGICOS-PARA-A-AUTONOMIA-ARTESA. Acesso em: 22/05/2026

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