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Apresentação





V Simpósio Internacional Repensando Mitos Contemporâneos: Criar Outros Corpos e Presenças

Temos a ideia, talvez um tanto romântica, de encontro. Encontro amoroso, encontro de amigos, encontro de pares. Falando assim o encontro deveria ser algo que remeteria à harmonia, relação suave e efêmera de algo supostamente e moralmente bom. Mas etimologicamente encontro quer dizer relação de contrários, ir de/em contra algo. Ser contra. Encontro seria, portanto, etimologicamente, um espaço de tensões, contrariedades, resistência e fricção. Encontrar o outro é um lugar muito mais infernal e dinâmico que o tedioso e harmonioso céu com anjinhos tocando harpa. Ou pelo menos deveria ser.

Um simpósio como esse proposto não seria em nada diferente. Falar de corpo e presença no campo das artes da cena é assumir grandes conflitos. Em uma torção bem-vinda do pensamento de Espinosa, poderíamos definir corpo como um terreno de encontros. Para Espinosa um corpo se define por suas relações, não por sua identidade ou função. Um corpo com nome e função social, econômica e/ou moral não diz absolutamente nada sobre um corpo. Um corpo se diz por suas relações, por seus mapas de força em composição dinâmica. E mais, um corpo alegre e feliz se diz de uma composição que amplia a capacidade afetiva no mundo, ou seja, um corpo ético é quele cuja composição de forças amplia e potencializa todas as partes envolvidas na emergência desse mesmo corpo. Espinosa grita que ALEGRIA, muito além da sensação de felicidade, é aumentar a potência de ação no mundo! Então uma pergunta que podemos fazer seria: com quais partes sociais, políticas, econômicas, éticas e poéticas meu corpo compõe para que haja aumento de potência de vida, não somente de meu corpo, mas de todas (e repitamos!) TODAS as partes envolvidas nessa composição? Essa é, certamente uma pergunta importante e interessante, mas não tão radical. Compor com nosso corpo ainda está na chave do sujeito, do corpo como posse material de si mesmo. Ainda há aqui uma centralidade incômoda. Talvez para escapar do corpo em si, dessa objetividade material tenhamos que dar um passo a mais. Talvez a pergunta não seja como compor com um outro corpo, mas sim, como COMPOR CORPOS? como compor OUTROS corpos e outras materialidades a partir de forças renovadas, insistentes, resistentes. Como desfazer a materialidade de um corpo para que ele promova e revele forças? E mais, como fazer com que essa materialidade seja renovada por forças alegres e poéticas que ampliem a capacidade de ação no mundo? Sabemos por Butler, passando por Foucault, que a materialidade de um corpo emerge como efeito dissimulado do próprio poder. Este efeito-forma material, para que seja efetivado, necessita da exclusão de materialidades que não tomam parte nessa formação. Essa exclusão, em realidade, não é um “fora” da materialidade formada, mas é constituinte à sua própria materialização. Toda materialidade é excludente, todo corpo é excludente. A materialidade dos corpos invoca e torna presente, em si mesma, todo um conjunto social de hierarquias e relações de exclusão que são a própria base da materialidade pensada, não como um “fora” metafísico absoluto do discurso, mas que promove e presentifica o próprio discurso hegemônico de exclusão em seu próprio sistema formativo. A materialidade, portanto, é histórica, política e organizada a partir de um sistema de hierarquias e exclusões que são sua base de existência. A biologia é discurso.

Por isso necessitamos de forma urgente criar outros corpos e outras materialidades para a emergência de outras presenças. O Ato de Criar como ação política efetiva e urgente. Os tempos atuais exigem esse esforço micropolítico macrocósmico de ações de inventividade. Nunca precisamos tanto de seres criativos. Precisamos criar outros corpos para fazer escapar as forças alegres excluídas das materialidades excludentes. Precisamos inventar outras presenças para além da presença insistente das ausências epistêmicas. E criar corpos é compor materialidades outras com forças invisíveis, ocultas. Criar corpos é agenciar frestas e fissuras, é promover micro e pequenas alianças, é treinar respiros curtos e possibilidades impossíveis. Criar corpo é liberar outros prismas afetivos e fazê-los re-insistir no campo pelo tempo necessário para serem assimilados.

Repitamos. Criar corpos é liberar outros prismas afetivos e fazê-los re-insistir no campo pelo tempo necessário para serem assimilados

Reforcemos mais uma vez para ficar claro: é liberar outros prismas afetivos e fazê-los re-insistir no campo pelo tempo necessário para serem assimilados.

Criar outros corpos (outras materialidades afetivas), não é, nem de longe, resolver os problemas postos, mas promover outros problemas mais complexos. E esse será o objetivo maior desse simpósio.




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Responsável

Renato Ferracini

rflume@unicamp.br


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