A QUEM APELAR?: O JORNAL ÉCOS DA SEMANA E A CAMPANHA EM PROL DA MORALIDADE EM CRATO-CE.

Publicado em 31/01/2022 - ISBN: 978-65-5941-563-2

Título do Trabalho
A QUEM APELAR?: O JORNAL ÉCOS DA SEMANA E A CAMPANHA EM PROL DA MORALIDADE EM CRATO-CE.
Autores
  • Ravenna Rodrigues Cardoso
  • DARIA MARIA MARTINS ASSIS
  • Ingryd Damásio Ribeiro Tófani
Modalidade
Resumo
Área temática
ST 8 - CORPOS, LINGUAGEM E DEVASTAÇÃO: ARREBATAMENTO, SEXUALIDADE, PODER E FEMININO EM LACAN, FOUCAULT E DELEUZE/GUATTARRI
Data de Publicação
31/01/2022
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/sege2021/417466-a-quem-apelar--o-jornal-ecos-da-semana-e-a-campanha-em-prol-da-moralidade-em-crato-ce
ISBN
978-65-5941-563-2
Palavras-Chave
Discurso, Prostituição, Jornal.
Resumo
A QUEM APELAR? O JORNAL ÉCOS DA SEMANA E A CAMPANHA EM PROL DA MORALIDADE EM CRATO-CE Ravenna Rodrigues Cardoso- Unimontes- ravennacardoso21@gmail.com Ingryd Damásio Ribeiro Tófani- Unimontes- ingrydamasio@gmail.com Dária Maria Martins Assis- Unimontes- dariamartinsassis@gmail.com Palavras-chave: Discurso, Prostituição, Jornal. A cidade do Crato, localizada no extremo sul do Estado do Ceará, é uma região onde houve e ainda há muito apelo e zelo para o que acreditam ser “boa conduta e moralidade”. Por muito tempo, e principalmente no período de grande circulação de periódicos locais, como no recorte aqui estabelecido, que compreende a década de 1940, mormente os de orientação católica, como o aqui analisado, a saber, Écos da Semana: Órgão da União dos Estudantes de Crato, produziram, em suas colunas, uma certa produção discursiva que tinha como objetivo tanto o combate a prática de venalidade do corpo, condenando, assim, as condutas das mulheres que a realizavam, bem como também empreenderam uma campanha de remoção dos locais onde supostamente essas práticas ocorriam, por ser perto das instalações do colégio interno masculino destinada ao alunos do Diocesano, local em que residiam os articulistas do supracitado jornal estudantil. Em sua primeira edição, eles se apresentaram como um jornal de “caráter noticioso e independente”, porém, ao analisarmos algumas edições percebe-se que esse tinha um certo tipo de notícias específicas, por vezes mais voltado a denunciar o que consideravam ataque a “moralidade” do que a noticiar outras coisas do cotidiano, e não era tão independente quanto se proclamava, uma vez que estavam diretamente ligados ao jornal central da Diocese do Crato, o A ação. Na sua edição de lançamento, os alunos explicavam que: Caiu e espalhou-se no cerebro dessa juventude entusiasta, as sementes da imprensa, e achando o terreno propicio e adubado, brotou e floriu incontinenti as sementes jornalísticas. Surgiu então o ÉCOS DA SEMANA, jornal moço, porque quasi dirigido somente por gente moça (...). Vêm os leitores que aqui ninguém será explorado e que não haverá cambio negro em nossa sociedade. (Écos da Semana, 1948, p 1) A tática dos articulistas nitidamente era se apresentar como a imprensa do “futuro", uma vez que produzida pela mocidade, e é usando dessa mesma prerrogativa que ao proferirem discurso contra a prostituição e a localidade dessa prática supostamente ganhariam a simpatia do público leitor e passaria, ao menos para os interessados em ser mantenedor desses costumes, como uma juventude “de boa conduta e consciência sobre os valores”, sendo capaz de atingir alguma parcela da sociedade cratense com esse discurso moralista no seu jornal. O filósofo Michel Foucault nos auxilia com a questão da produção discursiva, para ele o discurso é uma rede de enunciados ou mesmo de relações que acabam tornando possíveis a existência de significantes. Portanto, a própria palavra discurso tem em si a ideia de percurso de movimento. Assim, o objeto da análise do discurso é estudar a língua em função de sentido. Ele nos elucida que; A análise do campo discursivo é orientada de forma inteiramente diferente; trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites de forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação excluem. [...] deve-se mostrar por que não poderia ser outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionado a eles, um lugar que nenhum outro poderia ocupar [...]. Na verdade, a supressão sistemática das unidades inteiramente aceitas permite, inicialmente, restituir ao enunciado sua singularidade de acontecimento e mostrar que a descontinuidade não é somente um desses grandes acidentes que produzem uma falha geológica da história (FOUCAULT, 2012, p.34). O filósofo chama de discurso um conjunto de enunciados, que vão se sustentando na própria formação discursiva, sendo os enunciados produtos de outros que os antecedem ou o sucedem. O discurso não é, portanto, uma simples sequência de palavras. Para a historiadora Cláudia Maia, os “[...] discursos devem ser entendidos em suas condições de produção, ou seja, na situação/circunstância em que emerge um enunciado, ou que se faz uma enunciação” (MAIA, 2011, p.54). Diante disto, podemos pensar que o discurso se constitui como uma prática que relaciona a língua com “outras práticas” no campo social. Usamos essa metodologia de análise do discurso, por entendermos que a produção discursiva elaborada a partir do local e da época em que os estudantes de Crato escreviam sobre essas mulheres e sobre a prática da prostituição, em defesa de uma moralidade da qual acreditavam ser defensores, deve ser entendida e problematizada levando em conta o contexto social e os valores da época, e de como esse pensamento era refletido e circulado nas páginas de periódicos. Os estudantes e articulistas do jornal Écos da Semana manifestavam queixas a respeito da presença e da conduta das chamadas “meretrizes”, e que fazia coro com as publicações de outros jornais locais, como o A Ação e O município. Em um artigo intitulado “ONDE ANDA A POLÍCIA? ”, os jovens faziam um apelo para que os agentes da lei usassem o poder que detinham para preservar as famílias da cidade. A matéria relata que: Esta é a nossa pergunta, no instante em que a patifaria do baixo meretrício do Barro Vermelho toma proporções absurdas num ultraje direto á dignidade das famílias cratenses. Dará a nossa policia informe, da noitada genuinamente escandaloso de sábado, dia 15, onde expressões de cunho totalmente pornográfico, rompiam as caladas da noite, penetrando de cheio nos Lares onde não predomina o sarcasmo crônica da ralé venérea dos lupanares? (Écos da Semana, 23 jan. 1949, p.1). (Grifos nossos) Ao apelarem para as autoridades e evocarem os aspectos da dignidade das famílias os enunciados aí acionados as colocam em campos opostos, os quais as autoridades funcionariam como mediador, protegendo a honra dessas pessoas contra a “conduta ultrajante da ralé do baixo meretrício”. Ao apelar para a intervenção policial, o lugar do discurso de quem o aciona, denota uma prerrogativa de um espaço social que teria de ser protegido. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 8ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fourense Universitária, 2012. ¬¬______. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2012. MAIA, Cláudia de Jesus. A invenção da solteirona: conjugalidade moderna e terror mora. Ilha de Santa Catarina: Editora mulheres, 2011.
Título do Evento
2º Seminário Efeitos de Gênero
Título dos Anais do Evento
Anais do 2º Seminário Efeitos de Gênero: dos corpos violentados às afetividades ativas
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI
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Como citar

CARDOSO, Ravenna Rodrigues; ASSIS, DARIA MARIA MARTINS; TÓFANI, Ingryd Damásio Ribeiro. A QUEM APELAR?: O JORNAL ÉCOS DA SEMANA E A CAMPANHA EM PROL DA MORALIDADE EM CRATO-CE... In: Anais do 2º Seminário Efeitos de Gênero: dos corpos violentados às afetividades ativas. Anais...Montes Claros(MG) Virtual, 2021. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/sege2021/417466-A-QUEM-APELAR--O-JORNAL-ECOS-DA-SEMANA-E-A-CAMPANHA-EM-PROL-DA-MORALIDADE-EM-CRATO-CE. Acesso em: 16/06/2024

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