DERMATOSE NEGLECTA E ESTIGMA SOCIAL: UM RELATO DE CASO

Publicado em - ISSN: 2675-8563

Título do Trabalho
DERMATOSE NEGLECTA E ESTIGMA SOCIAL: UM RELATO DE CASO
Autores
  • Agatha Carneiro Teixeira
  • Joanna Dale Coutinho Pereira Silva
  • Attilio Valentini
  • LUCIANA TEIXEIRA VELLOSO
  • Aline Albino Quintanilha Faver
Modalidade
Relatos de Caso
Área temática
SAÚDE E BEM-ESTAR
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/scunifasefmp2023/713523-dermatose-neglecta-e-estigma-social--um-relato-de-caso
ISSN
2675-8563
Palavras-Chave
Dermatose Neglecta, Estigma Social
Resumo
Introdução: A Dermatose Neglecta (DN) é uma doença dermatológica benigna, assintomática e relacionada à baixa higiene pessoal, que se apresenta através de placas hiperpigmentadas. Devido a sua fisiopatologia relacionada à hiperqueratinização, as lesões transparecem o aspecto de uma pele “suja”. Primeiramente citada há menos de 30 anos, e também conhecida como “Dermatose Não Lavada”, é uma condição pouco descrita na Literatura, que se distingue devido ao estigma social associado à sua apresentação cutânea. Essa discriminação se apresenta de forma sustentada, especialmente em países como o Brasil, onde o asseio é um fator biopsicossocial determinante. No entanto, é necessário ter-se em mente que a DN está comumente ligada aos pacientes negligenciados e incapazes de manter hábitos de higiene de maneira independente e regular. O presente trabalho busca, além de relatar o caso de um paciente atendido no Ambulatório Escola da UNIFASE durante as atividades do Internato de Medicina no Serviço de Dermatologia, discutir a fisiopatologia, epidemiologia, diagnóstico, tratamento e estigmatização da DN. Relato de Caso: Paciente masculino, 71 anos, ex-tabagista, ex-alcoolista e ex-usuário de drogas, portador de HAS, DM e epilepsia, com rede de apoio fragilizada. Chega para atendimento encaminhado pela Clínica Médica, onde realiza tratamento e acompanhamento regular de suas comorbidades. À coleta da anamnese, refere pele generalizadamente pruriginosa, presença de diversas placas hipercrômicas descamativas em ambos os braços, pescoço e regiões retroauriculares, sem saber especificar o tempo, forma de evolução das mesmas e negando demais sintomas associados. Relata que, devido à procedimento ambulatorial de exérese de cisto não especificado em região lombar, evita banho de corpo todo há 2 anos. Ao exame físico, se encontrava em bom estado geral e cooperativo. Inicialmente, à ectoscopia, notou-se baixa higiene, pele espessa, ressecada e liquenificada. Foram identificadas inúmeras placas hipercrômicas, especialmente na grande dobra dorsal e região lombar, onde havia presença de cicatriz cirúrgica na altura de L4-L5, com bordas irregulares, pontos de atrofia e descamação, especialmente em seu entorno. À dermatoscopia, evidenciadas placas hiperqueratóticas acastanhadas e com pontos enegrecidos, descamativas de diversos tamanhos, com bordas regulares e sobrepostas linearmente.Foi realizada a prova semiotécnica de fricção com Álcool 70%, que culminou com desaparecimento completo da parte superior das lesões em grande dobra dorsal. Diante disso, optou-se por iniciar tratamento medicamentoso com Fluconazol 150 mg/semana por 02 meses, associado a sabonete de Glicerina e bucha vegetal em banho de corpo todo e com auxílio e uso tópico de substâncias queratinolíticas e emolientes. Foi também solicitado hepatograma para avaliação de tratamento antiparasitário adjuvante na próxima consulta, agendada em 60 dias. Discussão: Descrita em 1995 por Poskitt et al., a apresentação cutânea da DN consiste em placas hiperqueratinizadas acastanhadas ou enegrecidas e assintomáticas. Podendo ou não estar associadas à descamação e lesões verrucosas, sua distribuição é comumente simétrica e predominante no tronco, ombros, pescoço e grandes dobras (Poskitt et al., 1995). Ou ainda, pode ser descrita como semelhante a escamas serosas similares a flocos de milho em tons acastanhados (Greywal e Cohen, 2015). Sua fisiopatologia não é totalmente elucidada, no entanto, sabe-se que o aparecimento das lesões é secundário ao espessamento e queratinização da camada córnea da epiderme. Acredita-se que essa alteração é desencadeada pelos queratinócitos de forma reacional exagerada ao acúmulo de suor, sebo, melanina e debris devido a pouca ou nenhuma higiene e esfoliação cutâneas. Esta condição está relacionada à negligência ou deficiência, o que faz com que a DN acometa principalmente idosos, pacientes pós-cirúrgicos, psiquiátricos e neuropatas (Sasaya et al., 2014). À dermatoscopia, as lesões de córnea espessa apresentam padrão de hiperqueratose lamelar e depósito de melanina, com bordos bem definidos e dispostos linearmente, interrompidos em sulcos e que poupam os óstios foliculares (Sechi et al., 2021). Quanto aos diagnósticos diferenciais, as dermatoses papilomatosas e hiperqueratinizantes com a Dermatose Terra Firma-Forme, Paraqueratose Granulosa, Papilomatose Reticular, Acantose Nigricans, Ictiose Vulgar e Pitiríase Versicolor devem estar presentes no raciocínio clínico. As imprecisões diagnósticas, por sua vez, submetem o paciente a abordagens desnecessárias e invasivas (Santarpia e Guarneri, 2016), apesar do diagnóstico essencialmente clínico e tratamento simples, baseado no uso tópico de Álcool a 70%, queratinolíticos, emolientes e banhos regulares com uso de água, sabão e utensílios esfoliantes (Begum et al., 2022). A DN é frequentemente subdiagnosticada, subnotificada e subtratada, o que contribui efetivamente para seu agravo e manutenção na população, especialmente em pacientes com desabilidades físicas e mentais (Saha et al.,2015). Diante disso, sob a perspectiva psicossocial, seus portadores enfrentam as consequências do estigma atrelado à "sujidade", que repercutem em sua funcionalidade social. Conclusão: É indispensável a maior produção científica acerca da Dermatose Neglecta. São necessários estudos sistemáticos e de ampla difusão com o objetivo da realização rápida, eficaz e pouco onerosa do diagnóstico, através do estabelecimento de critérios clínicos e dermatoscópicos, haja visto a simplicidade e alta resolutividade do tratamento da doença. Além disso, a redução dos fatores desencadeantes da baixa higiene pessoal relacionados à população negligenciada deve ser buscada através do acesso à informação e tratamento adequado de suas causas primárias. Por fim, em combinação com o cuidado multidisciplinar, o combate ao estigma e suas consequências é fundamental para a reintegração social desses pacientes.
Título do Evento
XXIX Semana Científica UNIFASE/FMP
Cidade do Evento
Petrópolis
Título dos Anais do Evento
Anais Semana Científica
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

TEIXEIRA, Agatha Carneiro et al.. DERMATOSE NEGLECTA E ESTIGMA SOCIAL: UM RELATO DE CASO.. In: . Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/SCUNIFASEFMP2023/713523-DERMATOSE-NEGLECTA-E-ESTIGMA-SOCIAL--UM-RELATO-DE-CASO. Acesso em: 26/05/2026

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