A LEITURA DA PAISAGEM NO CINEMA: UMA REFLEXÃO PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA

Publicado em - ISBN: 978-65-272-1352-9

Título do Trabalho
A LEITURA DA PAISAGEM NO CINEMA: UMA REFLEXÃO PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA
Autores
  • Pedro Paulo Pinto Maia Filho
Modalidade
Resumo Expandido
Área temática
Representações do espaço no/do ensino
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ix_neer/901128-a-leitura-da-paisagem-no-cinema--uma-reflexao-para-o-ensino-de-geografia
ISBN
978-65-272-1352-9
Palavras-Chave
Paisagem, Geografia e Cinema, Ensino de Geografia, Geografia Cultural
Resumo
Introdução: O cinema é um dos meios mais estudados pelos geógrafos que buscam conciliar a ciência geográfica com as manifestações artísticas. Além de ser um importante recurso didático, as representações cinematográficas são consideradas uma fonte valiosa para compreender as condições da existência humana no espaço geográfico. Embora seja um campo de pesquisa relativamente recente, o cinema como objeto de estudo geográfico tem gerado inúmeros trabalhos que partem de diferentes proposições teórico-metodológicas, contribuindo para o desenvolvimento epistêmico e ontológico da Geografia (MORIN, 2009). Determinadas obras audiovisuais, quando refletidas e analisadas criticamente, podem ser utilizadas para tanto para investigar como a sociedade representa seu espaço social quanto o impacto que essas imagens têm na construção da realidade. Além disso, essas obras estimulam o aprendizado em Geografia despertando a curiosidade sobre certos temas e lugares. O poder representativo do cinema aproxima o espectador de diferentes culturas, paisagens e regiões do mundo, facilitando o entendimento de outras localidades e incentivando a reflexão sobre a própria espacialidade. O cinema, por seu valor artístico e abrangência social, é uma produção cultural significativa para a formação intelectual, pois aborda questões cognitivas, artísticas e afetivas de grande importância. (PONTUSCHKA; PAGANELLI; CACETE, 2007). Arcabouço Teórico Tomaremos a análise da paisagem como o "fio condutor" da leitura fílmica (BARBOSA; CORRÊA, 2001). Além do estudo da narrativa — a trama do filme — a análise da paisagem cinematográfica é considerada por muitos geógrafos como o modo mais eficaz de examinar um documento fílmico sob a perspectiva geográfica. Nesse sentido, a paisagem é central na formação do espaço cinematográfico (LUKINBEAL, 2005). Portanto, o foco geográfico deve ser a ênfase no processo de construção das representações de paisagens culturais através da obra fílmica (MACIEL, 2008). A paisagem, adotada como uma mediação que engloba diversas definições e significados oriundos do campo artístico, foi desenvolvida em diferentes áreas do conhecimento científico. Conceito caro à Geografia, a paisagem ganha novos sentidos nas representações audiovisuais, ampliando as possibilidades de análise desse meio. Embora existam diferentes modelos para estudar o cinema sob a perspectiva geográfica, o recurso mais empregado pelos autores para a reflexão crítica dos filmes é a interpretação da paisagem transformada em imagem (BARBOSA, 1998). Para o presente estudo, o conceito é relevante na medida em que permite a aproximação entre a arte (cinema) e a ciência (Geografia). No âmbito da teoria do cinema, Lefebvre (2002) observa que muitas pesquisas preferem categorias genéricas centradas na narrativa, como os estudos de gêneros cinematográficos (westerns, road movies, ficção científica). A paisagem, portanto, não é um gênero dominante na teoria do cinema, mas seu uso tem sido retomado por comunicólogos interessados na espacialidade. Lefebvre (2002) então retoma a teoria do cineasta russo Sergei Eisenstein (1987), que vê a paisagem e a música do filme como elementos que expressam, na forma cinematográfica, o que é de outra forma inexprimível. Para Eisenstein, a paisagem é um complexo que possibilita uma interpretação plástica das emoções, sendo mais livre da narrativa e mais flexível em transmitir estados emocionais e experiências espirituais (EISENSTEIN, 1987 apud LEFEBVRE, 2002). A paisagem, conforme a visão de Eisenstein, é uma categoria de análise que desafia a narrativa em todos os aspectos do filme. A paisagem deve ser distinguida de um mero fundo ou ajuste subordinado, sendo considerada uma "musicalidade" emocional. No entanto, alguns autores argumentam que um entendimento crítico do filme deve considerar a inseparabilidade da estrutura narrativa com os elementos de paisagem e ambiente (BARRERA; DEMATTEIS; MANCINI, 1981). A paisagem dá sentido aos eventos cinematográficos e às posições narrativas com escala e contexto histórico (LUKINBEAL, 2005). Partindo da definição de paisagem na Geografia, a paisagem cinematográfica — enquanto construção de uma retórica geográfica — é considerada um conjunto de argumentos, principalmente visuais, mas também sensoriais, que transmitem uma impressão sobre o espaço representado, seja com intencionalidade explícita ou refletindo um contexto subjacente. Articulada pela montagem, a paisagem carrega sentidos dramáticos, efeitos retóricos e sugestões ideológicas (AMANCIO, 2000). A paisagem cinematográfica é uma expressão subjetiva sobre uma região, uma mediação entre cineastas e público sobre um conjunto espacial. É uma produção cultural impregnada de ideologia e intencionalidade. A paisagem cinematográfica, assim como na representação pictórica, constitui a forma como percebemos o espaço geográfico, sendo intrínseca à sensibilidade cultural do espectador (GÁMIR ORUETA, 2012). Na paisagem cinematográfica, o observador compreende dois sujeitos: o cineasta e o público. O diretor não apenas captura a realidade, mas busca, mostra e monta uma paisagem que é, então, reproduzida na tela. O espectador, por sua vez, interpreta a visão do diretor, sempre de maneira ativa. A paisagem cinematográfica atua como uma figura retórica, contribuindo para uma Geografia imaginativa enraizada nas qualidades do meio físico, no contexto histórico-político e na biografia do cineasta. (MAIA FILHO, 2013). Além disso, a paisagem desempenha uma função essencial no cinema, servindo como um conjunto de planos que organiza a narrativa, dá ritmo ou emoldura a ação dos personagens. A paisagem no cinema atua como pontuação, pausa reflexiva, imagem poética e composição estética (AMANCIO, 2000). A paisagem visualizada nos filmes é uma construção interpretativa que reflete uma seleção de características do espaço, interpondo experiências individuais e coletivas, materiais e simbólicas, sedimentadas por sua historicidade. Portanto, as paisagens cinematográficas não são meras representações, mas elementos envolvidos na produção e reprodução cultural. Elas incluem o mundo da produção, distribuição e consumo de filmes (LUKINBEAL, 2005). A forma de representar ou criar essas paisagens é uma maneira de compreender a estruturação simbólica do espaço e de relacionar a experiência com a representação da paisagem (MACIEL, 2004). O cinema se apropria de paisagens ou elementos característicos de uma paisagem concreta, contribuindo significativamente para a construção das identidades relacionadas ao território ao escolher cenários específicos para os filmes. Essas identidades são mediadas por símbolos que mantêm uma relação direta com o espaço e, ao mesmo tempo, são carregadas de subjetividade. Em primeiro lugar, nosso entendimento da linguagem cinematográfica não se restringe a um único formato audiovisual. A partir do "cinema", desenvolve-se grande parte da teoria sobre diversos mecanismos de produção audiovisual, o que também se aplica às análises geográficas. Portanto, longas-metragens — ficcionais ou documentais —, curtas-metragens, séries e novelas oferecem oportunidades para trabalhar com o audiovisual em sala de aula. As análises da paisagem cinematográfica podem ser aplicadas a outras mídias que envolvem a composição da imagem em movimento. A primeira reflexão para o professor de Geografia é sobre qual mídia pode ser trabalhada em sala de aula. Campos (2006) ressalta que o tempo é um problema, pois longas-metragens — com mais de 50 minutos — podem ocupar toda a aula e não devem ser usados apenas para cobrir a falta de assunto ou a ausência de docentes. É necessário ser criterioso e explorar ao máximo o documento fílmico em sala. É fundamental realizar uma análise prévia do filme, considerando tanto os aspectos narrativos — o tema do filme — quanto os aspectos paisagísticos — localização, fotografia e escala. Ao trabalhar com documentos audiovisuais, é imprescindível conhecer os artifícios técnicos utilizados pelos produtores, como montagem, dimensão e largura da tela, posição da câmera e trilha sonora. Dependendo da estrutura da escola e da classe social dos alunos, a visualização do filme pode ser realizada em grêmios estudantis ou como atividade de extensão, permitindo mais tempo para reflexão e debate. Um filme também pode ser utilizado de forma interdisciplinar entre professores de diferentes áreas e pode ter vários usos e atribuições, cabendo aos professores realizar diferentes leituras possíveis de acordo com os vários níveis de ensino. Deste modo, o documento fílmico pode instigar debates sobre determinados conteúdos curriculares, refletir sobre a própria espacialidade do aluno e, em última análise, ampliar ou complexificar o horizonte do estudante por meio da narrativa cinematográfica. Considerações Finais Por último, argumentamos que ter um conhecimento básico da linguagem audiovisual permitiria ao professor de Geografia destacar diversas intenções na obra, especialmente em relação à dimensão espacial. Diferentes formas de trabalhar com o documento fílmico ampliam as oportunidades para a prática educativa em Geografia. O estudo das representações visuais insere-se em um movimento de aproximação com as manifestações artísticas e culturais e devem ser estimulados. Referências AMANCIO, T. O. Brasil dos gringos: imagens do cinema. Niterói: Intertexto, 2000. BARBOSA, J. L. Paisagens Americanas: Imagens e Representações do Wilderness. Espaço e Cultura, Rio de Janeiro, v. V, p. 43-53, 1998. BARBOSA, J. L.; CORRÊA, A. de M. A paisagem e o Trágico em O amuleto de Ogum. In: CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, Z. (Org.). Paisagem, imaginário e espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001. p. 71-102. BARRERA, D.; DEMATTEIS, G.; MANCINI, F. Cinema e paesaggio. Hérodote, Verona, n. 4, p. 170-179, 1981. CAMPOS, R. R. de. Cinema, Geografia e sala de aula. Estudos Geográficos, Rio Claro, v. 4, n. 1, p. 1-22, jun. 2006. Disponível em: <www.rc.unesp.br/igce/grad/geografia/revista.htm>. Acesso em: 12 maio 2019. GÁMIR ORUETA, A. La consideración del espacio geográfico y el paisaje em el cine. Scripta Nova, Barcelona, v. XVI, n. 403, 1 jun. 2012. LEFEBVRE, M. Landscape and film. New York: AFI, 2002. - LUKINBEAL, C. Cinematic Landscapes. 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PONTUSCHKA, N. N.; PAGANELLI, T. I.; CACETE, N. H. Para ensinar e aprender Geografia. São Paulo: Cortez Editora, 2007.
Título do Evento
IX NEER
Cidade do Evento
Curitiba
Título dos Anais do Evento
Anais do Colóquio Nacional do NEER: Movimentos e devires, espaço e representações
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

FILHO, Pedro Paulo Pinto Maia. A LEITURA DA PAISAGEM NO CINEMA: UMA REFLEXÃO PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA.. In: . Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ix_neer/901128-A-LEITURA-DA-PAISAGEM-NO-CINEMA--UMA-REFLEXAO-PARA-O-ENSINO-DE-GEOGRAFIA. Acesso em: 04/04/2026

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