PATRIMÔNIO CULTURAL E CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO: INVENTARIAÇÃO PARTICIPATIVA NA COMUNIDADE DO CEDRO NOVO EM QUIXADÁ-CE

Publicado em - ISBN: 978-65-272-1352-9

Título do Trabalho
PATRIMÔNIO CULTURAL E CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO: INVENTARIAÇÃO PARTICIPATIVA NA COMUNIDADE DO CEDRO NOVO EM QUIXADÁ-CE
Autores
  • Francisco Mateus Nogueira Pinheiro
  • Emilio Tarlis Mendes Pontes
Modalidade
Resumo Expandido
Área temática
Paisagem, turismo e patrimônio
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ix_neer/900432-patrimonio-cultural-e-convivencia-com-o-semiarido--inventariacao-participativa-na-comunidade-do-cedro-novo--em-qu
ISBN
978-65-272-1352-9
Palavras-Chave
Patrimônio. Cultura. Semiárido. Inventário Participativo.
Resumo
O presente trabalho resulta da análise de um projeto de pesquisa aplicada gestado no Laboratório de Estudos sobre Espaço, Cultura e Política (LECgeo) do Instituo Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) sediado nos sertões semiáridos de Quixadá/CE. A prerrogativa da investigação é baseada na aplicação da metodologia de inventariação participativa contida e distribuída pelo manual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN, 2016), no intuito de promover novas formas de compreensão do que é patrimônio cultural. No Brasil, diversos patrimônios, mesmo os já oficialmente tombados, seguem em processos de negligência, sejam pela falta de compreensão de sua relevância ou por não se coadunarem com a realidade das comunidades onde estão inseridas, o que acaba gerando resistência entre os sujeitos locais afetados por processos verticalizados de proteção de bens naturais e culturais. Essa é uma realidade admita inclusive pelo órgão responsável por suas salvaguardas, o IPHAN (IPHAN, 2012, 2016). Desse modo, diversas políticas públicas relacionadas ao patrimônio cultural nacional se caracterizam por não considerarem a necessidade de uma premente participação social. Logo, existem bens tombados que acabam por expressar desigualdades na representação dos grupos sociais, levando inclusive a casos de abandono (PAES, 2017). Na busca por superar alguns desses desafios, tem sido realizadas ações de Educação Patrimonial com aplicação de Inventários Participativos (IPHAN, 2016), que tentam ampliar a participação da população e demais setores/instituições representativos. Enseja-se a necessidade de uma reflexão crítica sobre as experiências de Inventários Participativos no país, notadamente na região Nordeste, para repensar suas potencialidades assim como seus limites e metodologias que promovam a melhora dessa ferramenta no intuito de proteger áreas patrimoniais. No presente caso em estudo, o recorte espacial estudado localiza-se no município de Quixadá, no Sertão Central Cearense, em uma área com diversas camadas e recortes patrimoniais, a cerca de cinco quilômetros da sede municipal. Trata-se da Comunidade Cedro Novo, inserida entre as margens do icônico Açude Cedro e de um inselberg conhecido como Pedra da Galinha Choca, um perímetro federal que está sob supervisão do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Quixadá é conhecido por inserir-se em um campo de inselbergs (popularmente chamados de monólitos) de ímpar beleza, onde estão localizados o Açude Cedro, uma das primeiras obras que marcaram o início do período das políticas federais de combate à seca (entre a virada dos séculos XIX para XX) e a Pedra da Galinha Choca, ambos tombados pelo IPHAN, desde 1984. Considera-se que as diversas iniciativas de patrimonialização do Açude e do inselberg citados ainda não conseguiram se coadunar com a presença secular da Comunidade Cedro Novo que pleiteia reconhecimento, visibilidade e permanência em seu lócus de vida, incluindo ameaças para que a mesma seja retirada de onde se aloca. Essas tensões de expulsão dificultam a garantia de métodos de preservação compartilhados entre a sociedade e o poder público, indo contrário à consciência do valor da preservação, do turismo e do patrimônio locais. Tal cenário justificou a realização do projeto de pesquisa: um Inventário Participativo com a Comunidade para introduzir ferramentas que pudessem colaborar na relação entre preservação e valorização desses bens culturais e das pessoas que lá vivem. Localizada nas proximidades do espelho d’água do Açude Cedro e em volta de um conjunto de monólitos, a Comunidade do Cedro Novo é composta com cerca de 60 famílias que sofrem com a invisibilidade de estar entre essas duas conhecidas paisagens cearenses. Atualmente, uma série de políticas públicas no interior do Nordeste estão em vigência, como o Programa Um Milhão de Cisternas Rurais e o Programa Uma Terra e Duas Águas, que se destacam por estarem no escopo do chamado paradigma da convivência com o semiárido (MACIEL, PONTES, 2016). É sabido que as famílias do Cedro Novo desenvolveram diversas formas de lidar com a região. As estruturas de coleta de água das chuvas, espaços de sociabilidade religiosa interligados com as rochas, pequenas áreas de produção agropecuária, estruturas para pesca e construção de poços são exemplos dessas estratégias. Além desses objetos, o local está diretamente conectado às ruínas dos galpões usados para construir o Açude Cedro e aos canais de irrigação, heranças materiais que permaneceram do período da construção do Açude datadas do final do século XIX e início do século XX. Ambos estão na vivência, no dia-a-dia e na memória dos moradores locais, assim como o vínculo com a Pedra da Galinha Choca, inselberg geossimbólico que é visto em iconografias e toponímias em Quixadá e no estado do Ceará. A Pedra e a Comunidade do Cedro Novo formam uma conexão paisagística. As casas compõem a cena quando a rocha representa a área. Isso cria uma relação cultural da convivência com o semiárido, incluindo potenciais atividades turísticas, como trilhas, venda de artesanatos, restaurantes e espaços de lazer. Desse modo, objetiva-se, numa perspectiva da Geografia Cultural, estabelecer uma conexão entre a investigação acadêmica e sua aplicação na prática (MACIEL, 2016). O Inventário Participativo representa uma pesquisa que retoma um esforço para combinar estudos teóricos com ações e práticas de gestão que causem impactos notórios para os territórios inventariados. Nessa perspectiva, baseia-se na metodologia proposta pelo IPHAN em seu Manual de Aplicação de Inventários Participativos (2016), fundamentado na noção de referência cultural, quais sejam: objetos, práticas e lugares apropriados pela cultura na construção de sentidos de identidade (IPHAN, 2000, p. 43). Desde a publicação desse manual, diversos coletivos e associações de moradores têm feito experiências de identificação e produção de conhecimento colaborativo no Brasil. Acredita-se que essa abordagem tem potencialidade de permite que os sujeitos sociais envolvidos no caso do Cedro Novo tomem essa ferramenta para suas lutas de permanência em seu local de morada. A estratégia metodológica de inventariação participativa do IPHAN é composta por algumas etapas: levantamento preliminar, revisão bibliográfica; identificação com a construção de fichas de referências culturais e constituição de um mapa final; elaboração de um dossiê do inventário participativo. Assim, organiza-se um encontro com a comunidade e faz-se um círculo. Em um ponto central está a placa intitulada "cultura" e ao redor são colocadas outras seis placas que representam as demais referências (lugares, objetos, celebrações, formas de expressão, saberes e edificações). Faz-se a seguinte pergunta: o que é patrimônio cultural para a comunidade? As pessoas começam a responder e um facilitador anota as respostas em formato de fichas e pregadas nos fios que compõem a mandala. As interconexões culturais da comunidade são dialogadas e expostas pela união dessas referências. Com a possibilidade de destacar a riqueza do patrimônio cultural local, esse método permite uma visão integrada e dinâmica das referências culturais. Cada categoria de referência na mandala interliga-se com outras categorias ao mesmo tempo, formando uma grande teia. Ao final, anotam-se as temáticas para posterior escrita completa das fichas de referências. Foram realizadas três oficinas temáticas com as famílias no segundo semestre de 2023, com aplicação da dinâmica da mandala de referências culturais. Foi incentivado o engajamento dos membros da comunidade do Cedro Novo, na busca por garantir a reflexão sobre seus próprios referentes culturais, estimulando análises de como vivem nesse território e como o interpretam, já que são eles os sujeitos produtores e conhecedores de sua própria cultura, e têm a capacidade identificar seus referenciais culturais, baseados em suas vivências, lutas, conquistas e desejos de melhoria dessa relação patrimonial tão marcada em suas vidas. No contexto do paradigma da convivência com o semiárido, é importante compreender que o Açude Cedro e a Pedra da Galinha Choca são uma expressão turística, patrimonial, econômica e cultural significativa para o município de Quixadá. Eles são considerados um dos principais impulsionadores do desenvolvimento urbano, rural e social da cidade e de sua região de influência no estado. Ao promover grupos locais envolvendo interlocutores e parceiros para a implementação de um Inventário participativo, esta pesquisa está criando novos grupos de pesquisadores e defensores da defesa do patrimônio cultural de Quixadá, principalmente da comunidade inventariada. A comunidade Cedro Novo tem se fortalecido com a ajuda do Inventário, por ser um instrumento de empoderamento para os moradores, pois eles conseguiram compreender que são patrimônio e devem ter os direitos e obrigações associados a esse status cultural. A participação de membros da comunidade em estudos acadêmicos, especialmente aqueles que estão no campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Quixadá, permite que o mesmo se comunique com o público externo. Isso valoriza a conexão essencial entre teoria e prática na Ciência Geografia. Como resultados das aplicações da mandala, considera-se que as mesmas tem conseguido promover uma análise significativa de como a Comunidade do Cedro Novo interpreta sua situação enquanto patrimônio cultural. Afinal, eles são os mais qualificados para identificar seus referenciais culturais e podem manifestar e publicizar tais características. Espera-se, com isso, que os produtos gerados pelas aplicações das mandalas de inventário participativo na Comunidade Cedro Novo possam trazer formas de empoderamento e fortaleça seu vínculo tanto com os patrimônios tombados como também na aproximação da Geografia institucionalizada com os sujeitos da área federal de entorno da mesma, tão cara a Quixadá e ao estado do Ceará. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Política Nacional de Identificação e Patrimônio Cultural: Princípios e Diretrizes. Brasília, DF: IPHAN, 2000. ______. Patrimônio Cultural Imaterial: para saber mais; texto e revisão de Natália Guerra Brayner. 3ª ed., Brasília, DF: IPHAN, 2012. ______. Educação Patrimonial: Inventários Participativos. Manual de Aplicação. Brasília: DAF/IPHAN, 2016. MACIEL, Caio Augusto Amorim. Cultura e política em diálogo na Geografia Humana: comentário sobre as possibilidades de se pensar os espaços da interculturalidade. Revista GeoSertões, [S. l.], v. 1, n. 1, p. 08-21, jun. 2016. ISSN 2525-5703. Disponível em: https://cfp.revistas.ufcg.edu.br/cfp/index.php/geosertoes/article/view/30/20 acesso em 09 de março de 2024. ______; PONTES, Emilio Tarlis Mendes. Seca e convivência com o semiárido: adaptação ao meio e patrimonialização da Caatinga no Nordeste brasileiro. 1ª ed. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2016. PAES, Maria Teresa Duarte. Gentrificação, preservação patrimonial e turismo: os novos sentidos da paisagem urbana na renovação das cidades. GEOUSP - Espaço e Tempo (Online), v. 21, n. 3, p. 667-684, dez. 2017, disponível em: http://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/128345 , acesso em 10 de fevereiro de 2023.
Título do Evento
IX NEER
Cidade do Evento
Curitiba
Título dos Anais do Evento
Anais do Colóquio Nacional do NEER: Movimentos e devires, espaço e representações
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

PINHEIRO, Francisco Mateus Nogueira; PONTES, Emilio Tarlis Mendes. PATRIMÔNIO CULTURAL E CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO: INVENTARIAÇÃO PARTICIPATIVA NA COMUNIDADE DO CEDRO NOVO EM QUIXADÁ-CE.. In: . Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ix_neer/900432-PATRIMONIO-CULTURAL-E-CONVIVENCIA-COM-O-SEMIARIDO--INVENTARIACAO-PARTICIPATIVA-NA-COMUNIDADE-DO-CEDRO-NOVO--EM-QU. Acesso em: 04/04/2026

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