A PERIFERIA EM CONTEXTO DE CIDADE DO AGRONEGÓCIO: O BAIRRO DO PASSO EM SÃO BORJA (RS).

Publicado em - ISBN: 978-65-272-1352-9

Título do Trabalho
A PERIFERIA EM CONTEXTO DE CIDADE DO AGRONEGÓCIO: O BAIRRO DO PASSO EM SÃO BORJA (RS).
Autores
  • Nola Patrícia Gamalho
Modalidade
Resumo Expandido
Área temática
Práticas espaciais, espaços de vivência e espaços apropriados
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ix_neer/899916-a-periferia-em-contexto-de-cidade-do-agronegocio--o-bairro-do-passo-em-sao-borja-(rs)
ISBN
978-65-272-1352-9
Palavras-Chave
Espaços de vivência; Representações; São Borja
Resumo
São crescentes e reveladores do processo urbano os estudos acerca de cidades médias, pequenas e locais (Santos, 1993), os quais colocam em evidência contextos específicos de inserção na divisão mundial do trabalho, na decorrente fragmentação territorial e nas dinâmicas espaciais urbanas, em suas particularidades e generalidades. Por um lado, as grandes metrópoles caracterizam-se pela crescente influência do capital financeiro (Carlos, 2009), por outro, o território é também composto por cidades que se inserem nas lógicas mundiais, mas constituem-se a partir de formas e processos distintos. É a contradição de estar contido, todavia compor-se distinto. A partir dessas compreensões iniciais que as reflexões propostas são explicitadas: busca-se compreender a fragmentação entre centro e periferia de São Borja (RS), notadamente nos processos de apropriação e representações (Lefebvre, 2013) do espaço no bairro do Passo. O município de São Borja é aqui compreendido a partir de Elias (2022), cujos estudos articulam as compreensões de Milton Santos sobre o meio técnico-científico-informacional com a modernização de regiões agrícolas sob comando de empresas agroindustriais globalizadas. Assim, a problemática de estudo localiza-se na fragmentação intraurbana de uma cidade do agronegócio, com suas diferenciações, dominações e apropriações constitutivas. A análise se insere no campo da Geografia social e dos Estudos de Representações do espaço, com a utilização de entrevistas semi-diretivas (Thiollent, 1980) e com análise e categorização de conteúdo (Michelat ,1980). O município de São Borja localiza-se em região de fronteira do Brasil e Argentina: o rio Uruguai como limite e como articulador entre essas duas espacialidades. As funções e relações atuais, embora assentadas no agronegócio, precisam ser compreendias a partir de sua produção espacial ainda no período de disputa fronteiriça entre Espanha e Portugal, cujas heranças decorrem das reduções jesuíticas e da configuração territorial de latifúndios. Carlos, em a (Re)produção do espaço urbano (1994), argumenta acerca da fragmentação espacial como consequência da reprodução ampliada do capital e como a materialização do processo produtivo produz espaço, lugares. Essa perspectiva orienta essa análise. Assim, São Borja foi uma redução jesuítica dos Sete Povos das Missões (século XVII), tendo seu povoamento sede desde 1682 e constituindo um dos primeiros municípios do Rio Grande do Sul. A exemplo dessa afirmação, em 1835, quando foi deflagrado o conflito Farroupilha, havia apenas 14 municípios no estado. Foi essa conjuntura de articulação territorial do Brasil e de inserção nas lógicas entre colônia e metrópole que produziu essa espacialidade a partir da pecuária em grandes extensões de terra, com o uso da força de trabalho escravizada e apropriação de territórios de povos originários. São Borja e a região compreendida como fronteira oeste e metade sul do estado constituem-se enquanto grandes extensões territoriais de campo e o urbano com menor dimensão. Todavia, com as transformações do século XX e XXI tem-se a emergência da produção de arroz em um primeiro momento e o avanço do cultivo de soja, ainda em grandes extensões de terras, mas no contexto de inserção do Brasil e região como fornecedora de commodities ao mercado mundial. As relações de poder não são alteradas, tem-se o agronegócio como conteúdo da relação entre os espaços agrícolas e a cidade, seja na manutenção da concentração fundiária e industrial, seja na fragmentação intraurbana constituidora de centralidades e periferias, no que concerne aos seus conteúdos simbólicos, materialidades, modos de vida e opressões. Ou seja, o município se insere nas dinâmicas globais em que o agronegócio mobiliza o que se denomina de antes, dentro e depois da porteira (Feix, Leusin Júnior, Agrononik, 2016). Por outro lado, a fragmentação intraurbana revela espaços de concentração e de escassez, de presenças e de ausências, de dominações e apropriações (Lefebvre, 2013). Desta forma, faz-se a introdução do Passo, bairro histórico de São Borja, periferia em seus primórdios e atualmente. A periferia, comumente associada a regiões de segregação metropolitanas, também é produzida nesse contexto da cidade do agronegócio. São Borja tem 59.676 habitantes (IBGE, 2022), sendo que o bairro Passo possui aproximadamente 20% da população do município (dados do Censo de 2010, uma vez que essa escala de dados não foi disponibilizada ainda). É uma periferia social, fragmentada em vilas, cuja paisagem é reveladora dos processos de apropriação espacial que constituem o habitar como condição para a reprodução da vida. É produto da divisão do trabalho, ao mesmo tempo que é refúgio, dado que o habitar é condição básica da vida. A moradia é a espacialidade a partir da qual cada sujeito constitui um “refúgio”, daí a transgressão de transformar o habitat, aspecto do espaço abstrato (Lefebvre, 2013) em habitar. Todavia, esse espaço de dominação, abstrato, se assenta em discursos ideológicos que reproduzem as alteridades da divisão do trabalho na hierarquia intraurbana. E dialeticamente se estabelece a disputa discursiva que atribui sentidos aos espaços. Enquanto maior bairro em termos populacionais e de dimensão, assim como distante do centro, possui comércio local, vinculado principalmente aos moradores. Concentra a população de menor renda, como aposentados, pensionista, trabalhadores que atuam no comércio da cidade, na indústria (tem sua principal indústria a Pirahy alimentos, beneficiadora de arroz), como trabalhadores do espaço agrícola, ainda que moradores do urbano, trabalhadores informais. No passado, antes da construção da ponte internacional, havia o comércio formiga, importante fonte de renda das famílias. A construção da ponte está em consonância com o espaço abstrato de dominação o qual normatiza as relações a partir de uma ordem distante. Nesse sentido, tem-se um espaço apropriado para a sobrevivência, constituidor de uma cotidianidade em que as relações de proximidade e comércio entre Brasil e Argentina realizadas através do rio são interrompidas para atender ao poder hegemônico. Conforme a entrevistada 1, “Existia o comércio formiga, infelizmente terminou. Era uma coisa que gerava na época em torno de 200 ou 300 empregos. (...) Da noite para o dia passaram a borracha e perdeu tudo, em 1997 quando inauguraram a ponte, acabou tudo”. Na mesma perspectiva, a Entrevistada 3 informa que: “Quando eu e minha irmã era pequena, trabalhei muito no comércio formiga. Quando meu pai morreu e eu tinha 7 anos e minha irmã 9 anos, nós íamos com a mãe fazer farinha nos barcos”. Enquanto periferia, o bairro também se torna mais densamente ocupado ao longo do tempo. São incorporadas áreas de ocupação irregular, loteamentos irregulares e mesmo áreas de assentamento da população removida das áreas ribeirinhas. Discursivamente, tanto no passado quanto na atualidade é remetida a significados de externalidade do urbano/cidade, logo, distintos da norma imposta na centralidade. O Passo, produto de lógicas distantes, produto da segregação e diferenciação espacial, se insere na disputa discursiva de representações. Salutar reiterar que as representações são constituidoras das experiências espaciais, das vivências e formas de apropriação do lugar. Nesse sentido, o bairro foi associado a arrabaldes, externo à urbe. Esse é também um elemento das periferias metropolitanas, evidente quando seus moradores dizem: vou à (nome da cidade). A dicotomia Povoeiro e Passeano representa a alteridade, embora também a encubra. Lefebvre (2013) argumenta que o espaço de dominação, abstrato, encobre o real. É dessa forma que as desigualdades são subsumidas na hierarquia espacial. A diferenciação espacial é também de classes, o que é naturalizado na “meritocracia”. A Entrevistada 1 revela essa relação de conflito e disputa representacional: “(...)antigamente, 40, 50 anos atrás, existia o quê? O bairro Passo, que nós chamamos de passeano e o bairro centro, que era o bairro dos povoeiro, que dava briga. (...) Mas os passeanos também não podiam se meter lá, eles tinham isso aí”. Enquanto espaço em constante transformação, o Passo tem essas transformações em sua relação na divisão do trabalho ao longo do tempo, mas também em relação aos seus limites, sendo impreciso no senso comum alguns de seus limites. São Borja é reveladora da sucessão de diferentes inserções nos modos de produção, sendo contemporaneamente remetida à cidade do agronegócio. Enquanto tal, também reproduz as fragmentações da divisão do trabalho no tecido intraurbano e constituição de periferias. O Passo é historicamente a periferia mais reconhecida e permeadas por sentidos, discursos e práticas. É o espaço de apropriação para reprodução da vida em contexto dessa divisão do trabalho produtora de desigualdades. Constitui uma complexidade reveladora da produção do espaço urbano e suas desigualdades em contexto de regiões do agronegócio. Referências bibliográficas CARLOS, Ana Fani Alessandri. A (re)produção do espaço urbano. São Paulo: Edusp. . Acesso em: 30 jul. 2024. , 1994 CARLOS, Ana Fani Alessandri. A metrópole de São Paulo no contexto da urbanização contemporânea. Estudos avançados, V. 23, N. 66 2009. P.303-314. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/eav/article/view/10425. Acesso em: 01 jul. 2024. ELIAS, Denise. Agronegócio globalizado e (re) estruturação urbano-regional no Brasil. Revista de Geografia (Recife). Recife, v. 39, n. 2, p. 290-305, 2022,. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistageografia/article/view/254811. Acesso em: 20 jan. 2024. FEIX, , Rodrigo Daniel; LEOSIN JUNIOR, Sérgio; AGRONONIK,Carolina. Painel do agronegócio no Rio Grande do Sul -2016. Porto Alegre: FEE, 2016 LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Madrid: Capitán Swing Libros, 2013. MICHELAT, Guy. Sobre a utilização de entrevista não-diretiva em Sociologia. In: THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis, 1980. p. 191-212. SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Editora Hucitec, 1993. THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis, 1980.
Título do Evento
IX NEER
Cidade do Evento
Curitiba
Título dos Anais do Evento
Anais do Colóquio Nacional do NEER: Movimentos e devires, espaço e representações
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

GAMALHO, Nola Patrícia. A PERIFERIA EM CONTEXTO DE CIDADE DO AGRONEGÓCIO: O BAIRRO DO PASSO EM SÃO BORJA (RS)... In: . Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ix_neer/899916-A-PERIFERIA-EM-CONTEXTO-DE-CIDADE-DO-AGRONEGOCIO--O-BAIRRO-DO-PASSO-EM-SAO-BORJA-(RS). Acesso em: 03/04/2026

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