SILÊNCIOS E RESISTÊNCIAS NAS NARRATIVAS DE TRABALHADORAS-ESTUDANTES NA EJA

Publicado em 18/06/2026 - ISBN: 978-65-272-2494-5

Título do Trabalho
SILÊNCIOS E RESISTÊNCIAS NAS NARRATIVAS DE TRABALHADORAS-ESTUDANTES NA EJA
Autores
  • Maria da Conceição Fonseca
  • Francisco Canindé da Silva
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Área 3 – Práticas Educativas, Cultura, Diversidade e Inclusão
Data de Publicação
18/06/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ix-simposio-de-pos-graduacao-em-educacao-iii-seminario-tematico-das-linhas-de-pesquisa-do-profeiuern-617739/1371357-silencios-e-resistencias-nas-narrativas-de-trabalhadoras-estudantes-na-eja
ISBN
978-65-272-2494-5
Palavras-Chave
EJA. TRABALHADORAS-ESTUDANTES. REPRODUÇÃO SOCIAL.
Resumo
SILÊNCIOS E RESISTÊNCIAS NAS NARRATIVAS DE TRABALHADORAS-ESTUDANTES NA EJA Maria da Conceição Fonseca Francisco Canindé da Silva INTRODUÇÃO A Educação de Jovens e Adultos (EJA) configura-se como um lugar de reparação e construção de dignidade, visto que pode possibilitar a recuperação de direitos antes negados, como acesso à educação (Brasil, 2000). Para as trabalhadoras-estudantes, cujas trajetórias escolares foram muitas vezes interrompidas, ora pelo trabalho de cuidado ora pela desigualdade de gênero, a EJA representa um recomeço, uma natalidade (Arendt, 2014). No entanto, esse recomeço exige resistência, uma vez que suas construções, saberes e experiências originados fora do espaço educativo nem sempre são visibilizados pelos currículos e práticas pedagógicas. O que essas mulheres carregam consigo, além desses conhecimentos, são marcas de exaustão, falta de tempo e sensação de inadequação. A origem deste estudo vem da compreensão de que o silenciamento dessas trabalhadoras-estudantes na EJA não significa ausência de fala, mas, também, a falta de uma escuta sensível a sua condição. O cotidiano escolar é atravessado por histórias de mulheres que sustentam a vida com seus corpos, dores e choros, dividindo-se entre suas casas, seus trabalhos e seus estudos, experiências construídas, algumas vezes não faladas e muitas, não escutadas. Assim, pergunta-se: como o trabalho e o gênero influenciam nas narrativas das trabalhadoras-estudantes, gerando silenciamento e formas de resistências? A pesquisa tem abordagem qualitativa, emergindo de rodas de conversas (Ribeiro, Souza e Sampaio, 2018), realizadas em abril de 2023, em municípios com Ipanguaçu e Angicos/RN, como parte de um projeto desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (GEPEJA) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Para trazer compreensões significativas ao texto, utilizamos como referencial teórico, Federici (2019; 2023), Bhattacharya (2023) e Fraser (2023), que discutem o trabalho reprodutivo e suas relações com o gênero. Também dialogamos com hooks (2017) e Zanello (2022), que entendem o silêncio como mecanismo de dominação e a fala como ato de liberdade. A partir da Teoria da Reprodução Social (TRS) e do feminismo crítico, entendemos que as trabalhadoras-estudantes são marcadas pela precarização da vida, sobrecarga do cuidado e invisibilização de seus conhecimentos. O capitalismo se estruturou a partir dessas vivências, ou seja, estruturou-se na domesticação do corpo feminino e na apropriação gratuita de sua energia. Essa exploração se manifesta hoje na naturalização da jornada continua (Ávila, 2014): as mulheres estudam, trabalham e cuidam, mas continuam socialmente relegadas a invisibilização. Quando essa realidade chega ao espaço da EJA, traduz-se em cansaço, evasão e culpa, com se sua presença naquele espaço para estudar fosse um luxo diante de tantas demandas da vida que ficam em casa. Essa realidade aponta que o capitalismo não depende apenas da exploração do trabalho produtivo, mas também daquele que mantém a vida cotidiana, o trabalho reprodutivo. As mulheres diretamente responsáveis por esse trabalho são levadas a compreendê-lo e naturalizá-lo como um gesto de amor ou dever moral. O capital regula os afetos, o corpo e o valor das mulheres através de padrões aceitos e idealizações projetadas (Bhattacharya, 2023). De acordo com Fraser (2023), a crise do cuidado nasce e se potencializa através do capitalismo, quando constrói a contradição entre trabalho produtivo e o trabalho reprodutivo, exigindo produtividade das mulheres e diminuindo as políticas públicas e redes de apoio que estejam a seu favor. Compreendemos que o silenciamento não significa ausência de voz, mas a negação das experiências femininas como saber legítimo. A pedagogia feminista (hooks, 2017) permite vislumbrar a sala de aula como espaço de liberdade, onde o rompimento do silêncio se configura como ato político, potente para desequilibrar as estruturas de poder dominante. METODOLOGIA As narrativas apresentadas pelas trabalhadoras-estudantes da EJA indicam uma infinidade de experiências, afetos e silêncios carregados de sentidos, e muitas vezes invisibilizados. Cada palavra, ouvida em rodas de conversas mostra o trabalho de cuidado e o gênero construindo o cotidiano dessas mulheres, reorganizando seus tempos, corpos e formas de estar na escola. Na roda de conversa, frases como: “chego cansada demais para estudar”, “falo pouco porque tenho vergonha” ou “a professora fala difícil e não entendo nada” (Roda de conversa, 2023), indicam que o silêncio vai além da ausência de voz, tendo sua origem em estruturas marcadas pela desigualdade e exclusão. Esse texto é atravessado por narrativas de trabalhadora-estudantes que desenvolvem jornadas contínuas, ouvidas durante atividades de escutas. Em um momento inicial, a palavra trabalho emergiu nas narrativas. As mulheres revelaram jornadas exaustivas que começava antes de amanhã e se estendiam até tarde da noite, tanto em suas casas (limpar a casa, cuidar dos filhos) quando nas casas e espaços outros. Essa sobrecarga é nomeada de trabalho reprodutivo (sustento de vida) e não reconhecido socialmente como legitimo (Federici, 2019). Quando chegam a escola, o corpo cansado se apresenta silenciosamente, não por falta de desejo ou pensamento, mas pela ausência de tempo, escuta e condições simbólicas para se expressarem. Algumas dessas mulheres se sentem orgulhosas por terem retornado as escolas, sonham com o aprender, com a universidade, com outros espaços, mas também se sentem constrangidas quando percebem a falta do acolhimento a sua pessoa. Uma dela apresenta a seguinte narrativa: “a professora perguntou por que eu não fiz o dever, mas eu estava com um filho doente, e não tenho só a escola” (Roda de conversa, 2023). Nesse instante, a escola aparece perpassada tanto por possibilidades quanto por contradições. Para Fraser (2023), essa fala evidencia a crise da reprodução social, visto que, na lógica da produtividade a instituição tende a desconsiderar as condições materiais e afetivas que atravessam a vida dessas mulheres. Nas narrativas se percebe o controle simbólico dos afetos, onde o valor do feminino é pesado e medido por sua capacidade de entregam, de amor e cuidado. Esse aspecto aprisiona as mulheres em sentimento de culpa por se priorizar (Zanello, 2022). Fica percebido no relato: “eu venho para escola, mas fico pensado se não deveria estar lá com eles. E se cair, se chorar” (Roda de conversa, 2022). Elas se sentem egoístas por tirarem tempo para estudar enquanto os filhos ficam em casa sendo cuidado por outras pessoas. Esse sentimento é socialmente produzido: o amor materno é traduzido como autossacrificio, ocultando o fato de que estudar é uma forma de cuidado de si. Muitas trabalhadoras-estudantes afirmaram que voltar as escolas mudaram as suas vidas, a forma de ver o mundo e a si mesmas. Falaram com orgulho de ler bilhete, ajudar os filhos nas atividades escolares, encontrar endereços lendo placas, participara de conversa que antes não compreendiam o que se falava. Essa passagem confirma uma educação como prática de liberdade, visto que quando uma mulher diz: “hoje não tenho vergonha de falar” (Roda de conversa, 2023), está expressando a tomada de uma consciência crítica. CONSIDERAÇÕES Refletir a partir da questão: como o trabalho e o gênero influenciam nas narrativas das trabalhadoras-estudantes, gerando silenciamento e formas de resistências? Implicou uma revisão, ainda que rápida, da Teoria da Reprodução Social (TRS), para qual existe uma produção silenciosa que sustenta o acúmulo continuado do capital, sem reconhecimento da força do trabalho feminino. A pesquisa revela diferentes interditos, nas vozes das estudantes que retornaram à escola, na modalidade EJA, com o objetivo de garantir nesta fase da vida sua dignidade sequestrada. A modalidade educativa, por se caracterizar pela capacidade de acolhimento, reparação, qualificação e de transformação, deve ocupar-se da escuta cuidadosa dessas tantas experiências, traduzindo-as em princípios que possam nortear o projeto pedagógico de escola. REFERÊNCIAS ARENDT, H. A condição humana. Tradução Roberto Raposo. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014. ÁVILA, M. B. O tempo do trabalho das mulheres. São Paulo: SOF – Sempre Viva Organização Feminista, 2014. BHATTACHARYA. T. Teoria da reprodução social: remapeamento de classe, recentralização da opressão. São Paulo: Elefante, 2023. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer CNE/CEB nº 11/2000, de 10 de maio de 2000. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Brasília: MEC/CNE, 2000. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/PCB11_2000.pdf. Acesso em: 13 out. 2025. FERERICI, S. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2019. FEDERICI, S. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2023. FRASER, N. Contradições do capital e cuidados. In: _______. Fortunas do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2023. p. 113-144. HOOKS, B. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. RIBEIRO, T; SOUZA, R. de; SAMPAIO, C. S. (orgs.). Conversa como metodologia de pesquisa: por que não? Rio de Janeiro: Ayvu, 2018. ZANELLO, V. A prateleira do amor: sobre mulheres, cultura e depressão. Petrópolis: Vozes, 2022.
Título do Evento
IX SIMPÓSIO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO & III SEMINÁRIO TEMÁTICO DAS LINHAS DE PESQUISA DO PROFEI/UERN
Cidade do Evento
Mossoró
Título dos Anais do Evento
Anais Simpósio de Pós-Graduação em Educação (SIMPOSEDUC) e o Seminário Temático das Linhas de Pesquisa do PROFEI/UERN
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

FONSECA, Maria da Conceição; SILVA, Francisco Canindé da. SILÊNCIOS E RESISTÊNCIAS NAS NARRATIVAS DE TRABALHADORAS-ESTUDANTES NA EJA.. In: Anais Simpósio de Pós-Graduação em Educação (SIMPOSEDUC) e o Seminário Temático das Linhas de Pesquisa do PROFEI/UERN. Anais...Mossoró(RN) UERN-Campus Central, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ix-simposio-de-pos-graduacao-em-educacao-iii-seminario-tematico-das-linhas-de-pesquisa-do-profeiuern-617739/1371357-SILENCIOS-E-RESISTENCIAS-NAS-NARRATIVAS-DE-TRABALHADORAS-ESTUDANTES-NA-EJA. Acesso em: 30/07/2026

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