A ASSOCIAÇÃO OITOCENTISTA QUE INVENTAVA MENTIRAS: RIO DE JANEIRO (1830-1860)

Publicado em 04/07/2022 - ISBN: 978-65-5941-738-4

Título do Trabalho
A ASSOCIAÇÃO OITOCENTISTA QUE INVENTAVA MENTIRAS: RIO DE JANEIRO (1830-1860)
Autores
  • Cristiane Garcia Teixeira
Modalidade
Apresentação de comunicação
Área temática
07 - Regimes de verdade e mentira nos oitocentos (Luiz Estevam De Oliveira Fernandes - UNICAMP)
Data de Publicação
04/07/2022
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ivseoivencontroposgraduandos/479753-a-associacao-oitocentista-que-inventava-mentiras--rio-de-janeiro-(1830-1860)
ISBN
978-65-5941-738-4
Palavras-Chave
agremiações, século XIX, mentira
Resumo
O ano é 1853 e o vigésimo terceiro dia do mês de janeiro, mais uma sexta-feira em que saia do prelo um dos números do jornal de modas e variedades Marmota Fluminense. No cabeçalho do periódico encontramos a informação que o jornal era impresso todas as terças e sextas-feiras na “Empreza Typ. Dous de Dezembro”, fixada na Praça da Constituição, n. 64. O impressor era “da Casa Imperial”: Francisco de Paula Brito, proprietário do impresso em questão. Ao folheá-lo, descobrimos que Paula Brito foi também presidente de uma agremiação – A Sociedade Petalógica do Rossio Grande. E foi a partir desse número do jornal, o 335, que as Atas das reuniões da Sociedade passaram a ser publicadas. E é sobre essa agremiação e seus membros que tratarei neste trabalho. É possível que a Sociedade Petalógica ou de Petalogia tenha iniciado suas reuniões por volta da década de 1830. Um texto publicado em julho de 1853, também na Marmota Fluminense, indicou que a Petalógica – “um ajuntamento de pessoas, mais ou menos instruídas” (Marmota Fluminense, 05 jul. 1853, p. 1) – já existia há cerca de 20 anos. É possível que tenha sido em 1831 o momento em que Francisco de Paula Brito começou a reunir literatos, artistas e políticos nos fundos de sua primeira casa e que posteriormente essas reuniões tenham sido transferidas para a livraria e tipografia na Praça da Constituição, conhecida na época como o Largo do Rossio, o que completou o nome da sociedade: Petalógica do Rossio Grande. Muito provavelmente a agremiação não foi instaurada com o título de Petalógica nos primeiros anos de encontros, e sim a partir de 1850 se pensarmos como marco os primeiros registros na imprensa. Foi uma agremiação sem estatutos, o que dificulta um pouco a pesquisa. Quando seria oficializada, em 1861, por conta do projeto da Caixa Auxiliadora das Composições Dramáticas e Musicais, Paula Brito adoeceu e veio a falecer em dezembro do mesmo ano. Desse modo, a oficialização não ocorreu. Ao que parece, a agremiação continuou com encontros esparsos até 1862. A Petalógica, portanto, usou como espaço físico para os encontros a tipografia de Francisco de Paula Brito. Esse lugar, considerado um dos mais visitados da corte em meados do século XIX, funcionou também como oficina de encadernação, livraria e casa de chá. Foi apontado por Laurence Halewell (2005) como um ponto de encontro literário, onde escritores e intelectuais reuniam-se para conversas e debates. O estabelecimento de Paula Brito ofereceu, nas primeiras décadas do século XIX, um dos primeiros exemplos brasileiros em converter uma livraria em clube literário informal. Segundo Halewell (2005), a tipografia e livraria de Francisco de Paula Brito foi um estabelecimento de muito sucesso enquanto um espaço de sociabilidade, em motivo da existência da Sociedade Petalógica. O presidente e criador da agremiação, Paula Brito, tinha por costume abrigar jovens iniciantes da pena em seu estabelecimento. O editor foi considerado o primeiro “patrão” de Machado de Assis. Para o historiador Rodrigo Godoi (2016) foi através dessas práticas, do seu trabalho e dos laços de amizades costurados nesse estabelecimento e também fora dele que Francisco de Paula Brito tornou-se uma espécie de catalisador da cultura nacional oitocentista. Talvez seja essa uma das causas para que a Petalógica tenha reunido tantos homens de letras da época. Conforme destacou Hallewel, todo o movimento romântico de 1840 - 1860 se reuniu na Sociedade: poetas, compositores, artistas, atores, além de políticos como senadores, ministros do governo, entre outros. A Sociedade de Petalogia trazia consigo características que a aproximava das sociedades literárias oitocentistas: reunião de homens que objetivavam contribuir para a transformação do quadro social e cultural que os descontentavam. Ou/e uma agremiação que possuía papel decisivo na formação de uma consciência crítica que deveria orientar o destino da literatura no Brasil e na formação de seus escritores que se tornaram peças chave na construção do país. (PEREIRA, 2014). No entanto, há questões que a singulariza e uma delas é a mentira. E, diante do leque de possibilidades de investigação que essa Sociedade oportuniza, a peta (mentira) funciona como um signo e um caminho para estudar e compreender a Petalógica. Uma peta, em seu sentido figurado, significava uma mentira e esse foi a acepção empregada no título da Petalógica. Pretendeu, através da invertida lógica de “contrariar aos mentirosos, mentindo-lhes”, constranger e envergonhar aqueles que tomavam e apregoavam como verdades tudo o que ouviam. Pretendeu também que os mesmos mentirosos, logo após que obtivessem o conhecimento de que a notícia que tomavam e repassavam como verdadeira constituía-se em uma notícia petalógica, ou seja, uma mentira/invenção, “se corressem de envergonhados e se corrigissem” (Marmota Fluminense, 29 jul. 1859, p. 1). A Sociedade Petalógica era múltipla e, durante a pesquisa, tenho percebido o quanto foi complexa. Um dos objetivos da disseminação das mentiras de espavento – que impressionavam e causavam espanto por serem pomposas e bem elaboradas – era desmoralizar os mentirosos. Dessa maneira, os não iniciados na Sociedade ao repassar as mentiras que escutavam, como sendo verdades, perdiam a legitimação entre seus pares e a sociedade. Esse processo parecia uma espécie de ridicularização do mentiroso, uma zombaria de indivíduos cujos comportamentos eram passíveis de censura. As petas funcionavam como estratégia para criticar e punir os mentirosos e, como demonstrarei, inconvenientes do Rio de Janeiro oitocentista.
Título do Evento
IV Encontro de Pós-Graduandos da Sociedade de Estudos do Oitocentos (SEO)
Título dos Anais do Evento
Anais do IV Encontro de Pós-Graduandos da Sociedade de Estudos do Oitocentos (SEO)
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

TEIXEIRA, Cristiane Garcia. A ASSOCIAÇÃO OITOCENTISTA QUE INVENTAVA MENTIRAS: RIO DE JANEIRO (1830-1860).. In: Anais do IV Encontro de Pós-Graduandos da Sociedade de Estudos do Oitocentos (SEO). Anais...Campinas(SP) Unicamp, 2022. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/IVSEOIVEncontroPosGraduandos/479753-A-ASSOCIACAO-OITOCENTISTA-QUE-INVENTAVA-MENTIRAS--RIO-DE-JANEIRO-(1830-1860). Acesso em: 19/05/2026

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