TEATRO DO OPRIMIDO COMO RECURSO DIALÓGICO E EMANCIPATÓRIO NA TERAPIA OCUPACIONAL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA.

Publicado em 19/01/2026 - ISBN: 978-65-272-2134-0

Título do Trabalho
TEATRO DO OPRIMIDO COMO RECURSO DIALÓGICO E EMANCIPATÓRIO NA TERAPIA OCUPACIONAL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA.
Autores
  • Jefferson Davi Silva Lemos
  • Emanoela dos Santos Souza
Modalidade
Resumo Expandido Estruturado
Área temática
Saúde Mental e Bem-Estar – abordagens interdisciplinares para promoção da saúde mental, prevenção e cuidado integral
Data de Publicação
19/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/iv-semana-iniciacao-cientifica-universitaria/1383163-teatro-do-oprimido-como-recurso-dialogico-e-emancipatorio-na-terapia-ocupacional--um-relato-de-experiencia
ISBN
978-65-272-2134-0
Palavras-Chave
Teatro do oprimido, Terapia ocupacional social, Justiça social, Estigma social, Dialógico.
Resumo
INTRODUÇÃO A terapia ocupacional (TO) inicialmente possuía foco na reabilitação de acidentados no trabalho. Contudo, o deslocamento de alguns profissionais, para atuação em contextos sociais, criou um novo panorama na década de 1970. Com isso, cria-se duas perspectivas teóricas que fundamentam o que ficou conhecido como Terapia Ocupacional Social (TOS), a primeira pautada na análise de processos sociais, enquanto a segunda surge como uma crítica ao saber médico-psicológico. Desse modo, a TOS reconhece as desigualdades sociais e propõe ações voltadas à população vulnerável, promovendo o reconhecimento de direitos (Cavalcanti e Galvão, 2024). As contribuições Freirianas influenciam várias áreas do saber, inclusive a TOS e o Teatro do Oprimido, ao proporem ações que geram o enfrentamento das opressões e das desigualdades, intencionando soluções práticas para as situações que expõe contradições sociais na vida dos sujeitos historicamente oprimidos (Farias e Lopes, 2022). Paulo Freire destaca em sua obra (Pedagogia do Oprimido), a importância de os oprimidos reconhecerem os seus opressores como forma de interromper relações de dominação (Freire, 1987). Isso firma uma base sólida para o Teatro do Oprimido posteriormente. Boal (2009), criador do método teatral, elabora a estética do oprimido afirmando que a arte e a cultura, frutos do pensamento sensível, carregam consigo a força capaz de despertar consciência e liberdade. Somente a partir dos meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem) o sujeito possui a capacidade de transformar a realidade para a construção da real democracia. Nessa estética, o oprimido assume papel de ator através da interação espontânea (espect-ator). Alves, Gontijo e Alves (2013) demonstram a potência da integração entre o Teatro do Oprimido e a TOS ao oportunizarem a reflexão crítica através do método teatral, em contextos de vulnerabilidade social. Dentre as várias observações permitidas, as autoras expõem a capacidade que o método possui em propiciar a auto-observação seguida da reflexão, a diminuição da timidez e melhora relativa das relações interpessoais. Além de ser ferramenta emancipatória no combate aos estigmas. Guimarães, Lorenzo e Mendonça (2021) afirmam que algumas narrativas sociais apresentam como o processo estigmatizador auxilia para que pessoas LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais, Pansexuais, Não binários e outras identidades) sejam consideradas moralmente condenáveis. Paralelo a isso, Conforme Barkley (2008), Crianças com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) possuem itinerários marcados pela estigmatização, oportunizados pelas contribuições de variáveis como comportamentos de menor reciprocidade nas trocas sociais e comunicação menos eficiente, coeficientes que contribuem para a dificuldade de aceitação social. Logo, como o Teatro do Oprimido pode contribuir para a desconstrução de estigmas ligados ao TDAH e às identidades LGBTQIAPN+, no contesto da TOS? Desse modo o presente estudo objetiva descrever a experiência favorecida por uma oficina que integra TO e teatro do oprimido, abordando estigmas como TDAH e identidades LGBTQIAPN+, além de analisar como o Teatro do oprimido pode favorecer o diálogo emancipatório. MÉTODO O presente estudo surge de uma vivência construída a partir de uma abordagem observacional, com caráter descritivo e exploratório. Este é um relato de experiência, permitido por meio da disciplina de Atividades e Recursos Terapêuticos, do curso de Terapia Ocupacional. A proposta teve como inspiração o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, compreendido aqui como um poderoso instrumento de expressão, reflexão e ação. Para além de uma técnica dramatúrgica, o teatro foi utilizado como um espaço que permitisse experiências que tocassem o sensível e o simbólico, intencionando a construção compartilhada de narrativas. A proposta foi executada como um espaço vivencial, sob a ótica das convergências entre TO e Teatro do Oprimido, permitindo que os estudantes pudessem participar como espect-atores, atuando e refletindo sobre cenários que envolvessem os estigmas associados às pessoas com TDAH e identidades LGBTQIAPN+. Houve preparação do ambiente de maneira que fosse criada uma atmosfera que oportunizasse a imersão e engajamento ativo, com uso de iluminação, sons e cartazes informativos. Tais elementos serviram como mediadores, incrementados como forma de potencializar a expressividade e percepção da plateia. A intervenção se deu em três momentos: uma vivência inicial com a prática de exercícios com movimentos e também o estabelecimento de privações sensoriais, para alguns participantes, incentivando a criatividade para novas formas de comunicação; encenações nas modalidades teatro invisível e teatro fórum, que expuseram o TDAH e as identidades LGBTQIAPN+ sob a ótica do estigma; e, por fim, uma apresentação de dança simbólica seguida por uma roda de conversa, permitindo o diálogo a partir das percepções sobre a experiência. As observações, registradas em diário, permitiram que a equipe pudesse registrar gestos, expressões e falas que apontaram o envolvimento do grupo. Tais registros foram analisados de maneira que buscou-se compreender as vivências construídas e quais significados foram atribuídos a elas e ao uso da prática dramatúrgica emancipatória. RESULTADOS E DISCUSSÕES Foi observado que, durante a vivência, alguns participantes demonstraram comportamentos distintos frente às privações sensoriais. Aqueles que tiveram a restrição da visão, por exemplo, mostraram-se mais sensíveis aos sons provocados pelos atores e instrumento (zabumba), reagindo com sobressaltos aos ruídos inesperados. Essa resposta pode ser compreendida através do entendimento de como o cérebro processa os impulsos de inibição e excitação para regular o estado de alerta. Para Dunn (2011) o excesso de excitação provoca reações exageradas, assim como a inibição, também em excesso, pode impedir respostas adequadas ao que acontece ao nosso redor. No primeiro momento, a plateia apresentou certa hesitação, mas, após incentivo dos atores passaram a participar de forma mais ativa e espontânea. A primeira cena em que houve participação, abordava uma relação conflitante entre mãe e filha, com comportamento de birra, por parte da filha e agressividade da mãe. Foram observadas duas reações distintas: uma empática e outra punitiva, por parte do público, movidas pelas emoções experimentadas com a cena. Fonseca (2008) afirma que as emoções são os primeiros sistemas de relação que possuímos, sendo elas uma força que impulsiona e estrutura o comportamento, por meio da organização da sensibilidade e da motricidade. Após a vivência de várias outras cenas escoradas na modalidade do teatro fórum, o grupo proponente finge encerrar o espetáculo e inicia um conflito combinado com uma integrante da plateia (orientada previamente). A participante, agora espect-ator, questiona a veracidade das situações representadas nos contextos de pessoas com identidades LGBTQIAPN+, afirmando que estas possuíam as mesmas oportunidades em sociedade. A reação foi imediata: Uma parte da plateia manifestou comportamento de revolta, expressando discordância e desconforto com a fala apresentada. A professora interveio, também sem saber que se tratava de uma encenação, e solicita que sigamos sem tensão. Em seguida, a equipe proponente retoma a situação de forma inesperada, iniciando uma apresentação coreografada com uma música simbólica, transformando tensão em alívio e celebração. Na roda de conversa, realizada ao final da apresentação, alguns integrantes da plateia relataram terem sido tocados de maneira significativa pelas cenas. Alguns exibiram comportamento contínuo de choro durante e após a apresentação. Os relatos e observações nos permite identificar o teatro como mobilizador de afetos e provocativo nas reflexões e elaborações de experiências transformadoras. CONCLUSÃO A experiência relatada alcançou plenamente os objetivos propostos, uma vez que foi percebida e descrita a integração da TO e Teatro do Oprimido, como mecanismo para abordar estigmas relacionados ao TDAH e às identidades LGBTQIAPN+, favorecendo o diálogo e elaboração de narrativas sociais. Revelou-se que as privações sensoriais aplicadas pela equipe proponente provocaram respostas diversas. As restrições visuais, de forma específica, trouxeram reflexos mais intensos diante dos estímulos sonoros, aumentando o nível de alerta dos participantes nessa condição. A hesitação da plateia em participar foi superada após mediação da equipe e da expressividade nas cenas, conquistando participação espontânea. Ficou evidente o contraste entre as posições opostas de participantes quanto a intervenção pretendida em casos encenados. Uma mesma cena podia evocar respostas éticas distintas, afirmando o Teatro do oprimido como um método capaz de revelar percepções e provocar a reflexão crítica. As cenas que dramatizavam preconceitos vividos por crianças com comportamentos próximos às identidades LGBTQIAPN+ e também as dificuldades enfrentadas por pessoas inseridas nessa comunidade, para se inserirem no mercado de trabalho, conjuraram emoções que se mostraram potentes para o engajamento nas cenas, reforçando a importância das emoções na ação contra contextos opressores. O encerramento com o teatro invisível possibilitou um debate real e intenso, além de expor a ação coletiva como uma grande força para enfrentamento das opressões sociais. Com isso, confirma-se que a pergunta que norteava o estudo foi respondida de forma afirmativa, tendo em conta que o teatro do oprimido contribuiu de forma significativa para a desconstrução de estigmas e construção de novos olhares. Contudo, reconhece-se limitações, como o contexto específico e o número reduzido de participantes e aplicações do método pela equipe. Mesmo assim, a experiência admite afirmar o Teatro do Oprimido e a Terapia Ocupacional como práticas com grande potencial de mudança e construção de novos caminhos. Usar essa relação dialética, de maneira estratégica, pode ser uma proposta para projetos futuros a serem introduzidos no ambiente acadêmico, como meio formativo, ou no campo social, como recurso dialógico e transformador.
Título do Evento
I Congresso Multidisciplinar em Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte
Cidade do Evento
Crato
Título dos Anais do Evento
Anais do I Congresso Multidisciplinar de Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

LEMOS, Jefferson Davi Silva; SOUZA, Emanoela dos Santos. TEATRO DO OPRIMIDO COMO RECURSO DIALÓGICO E EMANCIPATÓRIO NA TERAPIA OCUPACIONAL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA... In: Anais do I Congresso Multidisciplinar de Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte. Anais...Juazeiro do Norte(CE) Anais do I Congresso Multidisciplinar de Saúde, IV Semana de Iniciação Científica, II Semana de Extensão Universitária da UNINASSAU Juazeiro do Norte, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/iv-semana-iniciacao-cientifica-universitaria/1383163-TEATRO-DO-OPRIMIDO-COMO-RECURSO-DIALOGICO-E-EMANCIPATORIO-NA-TERAPIA-OCUPACIONAL--UM-RELATO-DE-EXPERIENCIA. Acesso em: 15/02/2026

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