QUE CORPO PAGA A COLONIALIDADE? ANGOLA E BRASIL EM CRISE NO DIREITO LGBTI+

Publicado em 30/04/2026 - ISBN: 978-65-272-2360-3

Título do Trabalho
QUE CORPO PAGA A COLONIALIDADE? ANGOLA E BRASIL EM CRISE NO DIREITO LGBTI+
Autores
  • Matheus Reuter Sena
Modalidade
Resumo
Área temática
GT1 - Perspectivas afrodiaspóricas e/ou decoloniais
Data de Publicação
30/04/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/ii-seminario-interno-pesquisas-geocorpo/1437036-que-corpo-paga-a-colonialidade-angola-e-brasil-em-crise-no-direito-lgbti
ISBN
978-65-272-2360-3
Palavras-Chave
Estudos queer africano, Diversidade sexual e de gênero, Sexualidade, Gênero, Angola, Brasil, Colonialidade, Descriminalização.
Resumo
A proposta investiga as tensões, permanências e rupturas que atravessam os debates sobre sexualidade, gênero e colonialidade em Angola e no Brasil, tomando como eixo central a disputa pelos corpos dissidentes no campo jurídico e político. A análise confronta a narrativa colonial que, por séculos, construiu a ideia de que identidades e práticas não heterossexuais seriam inexistentes nas sociedades africanas pré-coloniais e, portanto, manifestações degeneradas do “contato com o Ocidente”. Tal ficção serviu — e ainda serve — como instrumento de apagamento histórico e como base de projetos políticos que legitimam violência, exclusão e tutela sobre populações LGBTI+. Ao resgatar experiências tradicionais angolanas, como as figuras dos ngangas dia quimbanda e dos chibados, reconhecidas socialmente como autoridades espirituais e políticas que exerciam papéis de gênero dissidentes e mantinham relações afetivo-sexuais com outros homens, rompe-se com esse mito colonial e expõe-se a complexidade dos sistemas de gênero africanos anteriores ao domínio europeu. A criminalização da homossexualidade em Angola não tem origem endógena, mas está diretamente vinculada à imposição do Código Penal Português de 1886, que institucionalizou a moralidade euro-cristã e transformou a sexualidade em instrumento de controle colonial. Apesar da ausência de registros oficiais de condenações, o dispositivo penal funcionou como tecnologia de poder, regulando corpos e produzindo subjetividades marcadas pela vergonha, pelo silêncio e pela violência. A revogação desse arcabouço normativo em 2019, com entrada em vigor em 2021, e a inclusão da discriminação por orientação sexual como crime representam importantes inflexões, fruto da mobilização de organizações como a Associação Íris Angola e a AIA – Arquivo Identidade Angolana. Essa atuação dialoga com o Manifesto Queer Africano e com a busca por uma política de autodeterminação que recuse a tutela neocolonial e reivindique uma história LGBTI+ angolana inscrita no próprio território ancestral. O cenário brasileiro, apesar de frequentemente celebrado por marcos jurídicos progressistas — como o reconhecimento de uniões homoafetivas e a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal em 2019 — revela um paradoxo inquietante. O país que mais avança normativamente é também aquele que mais mata pessoas LGBTI+ no mundo. A persistência de índices alarmantes de assassinatos, sobretudo de travestis, pessoas trans, negras e periféricas, demonstra que a legalidade brasileira não tem sido capaz de interromper a colonialidade que estrutura a violência letal. A herança portuguesa, atravessada por fundamentalismos cristãos e por uma lógica racializada de gestão de vidas, conecta Brasil e Angola, mas assume, no contexto brasileiro, contornos genocidas. Ao aproximar esses dois países marcados por trajetórias coloniais comuns, mas experiências sociais distintas, o estudo evidencia que o debate sobre direitos LGBTI+ só pode ser compreendido plenamente quando articulado à crítica da colonialidade, à disputa pela memória e à centralidade do corpo como arquivo político. A comparação entre avanço formal e violência material revela que o direito, embora necessário, é insuficiente para garantir vidas vivíveis. O enfrentamento exige uma prática anticolonial que reinscreva a dignidade dos corpos dissidentes na história e no presente.
Título do Evento
II SEMINÁRIO INTERNO DE PESQUISAS GEOCORPO
Cidade do Evento
Rio de Janeiro
Título dos Anais do Evento
Anais do Seminário Interno de Pesquisas GeoCorpo
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SENA, Matheus Reuter. QUE CORPO PAGA A COLONIALIDADE? ANGOLA E BRASIL EM CRISE NO DIREITO LGBTI+.. In: Anais do Seminário Interno de Pesquisas GeoCorpo. Anais...Rio de Janeiro(RJ) UERJ, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/ii-seminario-interno-pesquisas-geocorpo/1437036-QUE-CORPO-PAGA-A-COLONIALIDADE-ANGOLA-E-BRASIL-EM-CRISE-NO-DIREITO-LGBTI. Acesso em: 04/07/2026

Trabalho

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