DESIGN E ANCESTRALIDADE: UMA LEITURA DO AGBÊ COMO ARTEFATO CULTURAL AFRO-ATLÂNTICO A PARTIR DO MARACATU NAÇÃO ENCANTO DO PINA (PE)

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-13  
Título do Trabalho
DESIGN E ANCESTRALIDADE: UMA LEITURA DO AGBÊ COMO ARTEFATO CULTURAL AFRO-ATLÂNTICO A PARTIR DO MARACATU NAÇÃO ENCANTO DO PINA (PE)
Autores
  • Camila Andrade dos Santos
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Cultura Material
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1299269-design-e-ancestralidade--uma-leitura-do-agbe-como-artefato-cultural-afro-atlantico-a-partir-do-maracatu-nacao-en
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Maracatu Nação. Agbe. Artefacto Cultural.
Resumo
Diseño y ancestralidad: una lectura del Agbê como artefacto cultural afroatlántico a partir del Maracatu Nação Encanto do Pina (PE) Design e ancestralidade: uma leitura do Agbê como artefato cultural afro-atlântico a partir do Maracatu Nação Encanto do Pina (PE) A Reading of the Agbê as an Afro-Atlantic Cultural Artifact through Maracatu Nação Encanto do Pina (PE) Autor/a Um Resumen Formado por una calabaza envuelta en una red tejida con cuentas – ya sean abalorios o semillas –, el Agbê es un instrumento de percusión de origen yoruba, también conocido como sekere o chékere (Lopes, 2014), ampliamente difundido en las diásporas negras de las Américas. Más allá de su función musical, se configura como un artefacto de gran valor simbólico, arraigado en prácticas religiosas y culturales relacionadas con el culto a los orixás. En Brasil, el instrumento fue incorporado tanto al Candomblé como al Maracatu Nação, donde trasciende su papel percusivo para convertirse en símbolo de axé, protección y ancestralidad. En este escrito, tomamos como objeto de análisis el Agbê de la Nación de Maracatu Encanto do Pina, ubicada en la Comunidad del Bode en Recife/PE, a partir de la observación participante y de los diálogos establecidos con artesanas y artesanos de la comunidad, para “escuchar” el instrumento en sus aspectos materiales, estéticos, funcionales y simbólicos. Palabras clave: Maracatu Nação. Agbe. Artefacto Cultural. Resumo Formado por uma cabaça envolta por uma rede tramada de contas - miçangas ou sementes -, o Agbê é um instrumento percussivo de origem iorubá, também conhecido como sekere ou chékere (Lopes, 2014), amplamente difundido nas diásporas negras das Américas. Para além de sua função musical, constitui-se como um artefato de forte valor simbólico, enraizado em práticas religiosas e culturais ligadas ao culto dos orixás. No Brasil, o instrumento foi incorporado tanto ao Candomblé quanto ao Maracatu Nação, onde transcende seu papel percussivo e se torna símbolo de axé, proteção e ancestralidade. Neste escrito, tomamos para objeto de análise o Agbê da Nação de Maracatu Encanto do Pina, localizado na Comunidade do Bode em Recife/PE a partir da observação participante aliada aos diálogos estabelecidos com artesãs e artesãos da comunidade para ouvir o instrumento em seus aspectos materiais, estéticos, funcionais e simbólicos. Palavras-chaves: Maracatu Nação. Agbe. Artefato Cultural. Abstract Formed by a gourd wrapped in a net woven with beads – either glass or seeds – the Agbê is a percussive instrument of Yoruba origin, also known as sekere or chékere (Lopes, 2014), widely spread throughout the Black diasporas of the Americas. Beyond its musical function, it stands as an artifact with deep symbolic value, rooted in religious and cultural practices connected to the worship of the orixás. In Brazil, the instrument has been incorporated both into Candombléand Maracatu Nação, where it transcends its percussive role to become a symbol of axé, protection, and ancestry. In this paper, we analyze the Agbê from the Nação de Maracatu Encanto do Pina, located in the Bode Community in Recife/PE, based on participant observation and dialogues with local artisans, in order to “listen” to the instrument in its material, aesthetic, functional, and symbolic aspects. Keywords: Maracatu Nação. Agbe. Cultural Artfact. Resumo expandido A riqueza simbólica do Agbê o torna objeto de interesse privilegiado tanto para o design — em seus aspectos formais, funcionais e estéticos — quanto para a antropologia — em sua dimensão ritual, identitária e ancestral. Estudar o Agbê permite uma abordagem expandida que ultrapassa o objeto físico e sonoro, compreendendo-o como artefato cultural, espiritual e epistemológico. Esta análise parte da confluência entre design e antropologia, buscando compreender de que modo o Agbê da Nação Encanto do Pina da comunidade do Bode em Recife/PE, articula conhecimentos tradicionais, materialidades locais e expressões culturais afro-atlânticas. Mais do que um produto artesanal, gesto ancestral de criar com as mãos aquilo que vibra no corpo e no espírito, ele é tratado aqui como projeto de design vernacular, cujas soluções emergem de cosmovisões afrocentradas e práticas coletivas de saber que se reiventam e resistem a partir das técnicas transmitidas oralmente. A metodologia adotada entrelaça análise formal e funcional com estudo de caso, observação participante e diálogo com artesãs, escutando o Agbê como artefato sensível e potente, corpo vibrante de memória, ritmo e estética ancestrais. A investigação parte de sua materialidade — a trama que o compõe, os gestos que o ativam, os sons que o atravessam — para desvelar as camadas de sentido que ele carrega. O estudo de caso realizado com o Maracatu Nação Encanto do Pina - liderado por Mestra Joana Cavalcante , - permitiu um mergulho nas singularidades de uma prática viva, observando suas cores, tramas e padrões como narrativas de pertencimento e resistência. Assim, a pesquisa propõe uma leitura do Agbê como síntese dinâmica entre tradição e invenção, espiritualidade e forma, memória e criação. Ancorada em epistemologias afro-atlânticas, esta abordagem tensiona as fronteiras entre arte e função, propondo um olhar ampliado que reconhece as potências criativas e simbólicas das culturas não hegemônicas e ainda, no caso dos maracatus, marginalizadas. Como afirma Martins (2019), “a memória se faz performance, e a performance é, ela mesma, um modo de inscrever o tempo no corpo”. Essa perspectiva sustenta a escuta sensível que guia a análise deste instrumento como gesto, narrativa e permanência. No contexto do Maracatu Encanto do Pina, o Agbê integra corpo, som e espírito em rituais que conectam o visível ao invisível, evocando memórias afrodescendentes, resistência cultural e orgulho identitário. Tocando frequentemente em momentos simbólicos, a exemplo do carnaval, ele funciona também como elo comunitário — uma vibração coletiva e expressão do sagrado na vivência afro-brasileira. A rede que o envolve, trançada com miçangas dispostas em padrões rítmicos, expressa uma estética singular criada pela Mestra Joana, remetendo às orixás que regem o Encanto do Pina. O azul de Iemanjá e o amarelo de Oxum compõem uma paleta que convoca a força das águas e das divindades femininas do panteão iorubá. Seu corpo, uma cabaça trançada com fios de nylon encerado e miçangas, estrutura a sonoridade grave ou aguda, a depender do instrumento e modo de tocar — um som que não apenas “preenche” a orquestra, mas invoca presenças, organiza o tempo, molda o espaço da celebração. O som agudo e “seco" é produzido ao chacoalhar o instrumento com as mãos (uma mão no "pescoço" da cabaça e outra na base), gerando ruídos característicos do encontro das miçangas com a cabaça, já o toque das mãos no instrumento pode produzir um som encorpado. Oriundo das culturas iorubás e ewe-fon da África Ocidental, o Agbê atravessou o Atlântico junto às populações escravizadas, sendo ressignificado em meio a processos de sincretismo e reinvenção cultural para sobreviver, resistir ou se adaptar (Hall, 2006). No Encanto do Pina, torna-se expressão tangível da ligação entre forma, som e espiritualidade — uma síntese onde o design não se separa da vida, mas a habita como gesto, memória e ofício. Sob a lente da antropologia do objeto, o Agbê revela-se como condensador de práticas coletivas, cosmologias ancestrais e políticas de afirmação identitária. Ele ocupa um papel central tanto na composição sonora quanto na visualidade ritual do cortejo — dançando entre mãos e corpos em coreografia própria do Encanto que varia a depender do estilo de toque de cada loa , vibrando junto ao corpo, reverberando sentidos que não se explicam apenas por suas notas, mas por suas histórias. A cabaça, como receptáculo de vida, ressoa o sopro ancestral, e ao ser trançada pelas mãos artesãs e artesãos durante um período grande de tempo - posto que é custoso - transforma-se em design ancestral — não na lógica industrial do termo, mas como manifestação de modos de vida, ofícios e saberes que escapam às lógicas ocidentais de produção e consumo. Cabe salientar que as mãos que tecem são também as mãos que tocam. Frequentemente quem produz é também integrante do corpo percussivo que toca, a quem denomina-se agbezeira ou agbezeiro. Como propõe Ingold (2013), “fazer é pensar”; cada ponto da trama do Agbê é também linha de pensamento, gesto de conhecimento encarnado, transmitido não por manuais, mas por escuta, observação e prática compartilhada. A confecção e o uso do Agbê são atos coletivos e ritualizados, onde cada fio carrega ensinamentos invisíveis, memórias corporificadas e códigos de pertencimento. O artesão não é um agente isolado, mas um elo na rede viva de sua comunidade, onde a criação é também continuidade. Appadurai (2008) nos lembra que os objetos “têm vidas sociais” — o Agbê circula, mas também atua: constrói identidades, produz afetos, sustenta redes simbólicas. No Encanto do Pina, ele encarna uma estética própria, forjada na intersecção entre função e beleza, gesto e presença. Sua materialidade não se dissocia de seu valor simbólico — ele é ao mesmo tempo objeto e sujeito, oferenda e tecnologia, arte e afirmação. Para Leda Maria Martins (2019), “a memória se faz performance”, e no toque do Agbê, essa performance assume a forma de tempo espiralar, onde passado e presente se entrelaçam no corpo coletivo do maracatu. Manuela Carneiro da Cunha (2009) recorda que os saberes tradicionais são sistemas vivos, em constante adaptação. Assim, o Agbê da Nação do Encanto torna-se emblema da identidade negra e afrodescendente da comunidade do Bode, no Pina, reafirmando a cada batida a permanência de um povo que, mesmo sob apagamentos históricos, segue recriando o mundo com suas próprias mãos. Pensar o Agbê na encruzilhada entre design e antropologia é reconhecer que objetos também são vivos — e que esse viver vibra em rede, entre mãos, corpos, materiais e histórias. Não se trata de preservar uma técnica ou fixar um modelo, mas de sustentar uma ética do fazer, onde o conhecimento é vivido e partilhado no cotidiano da comunidade. As características formais do Agbê do Encanto do Pina o identificam como único: suas cores, tramas e sonoridades contam uma história situada, que inscreve o lugar em sua própria matéria. O Agbe do Encanto do Pina, a partir de sua trama, é único, inconfundível. O Agbê do Encanto é ativado pela comunidade como memória viva — que se move, respira nos cortejos, e se renova a cada nova mão que aprende a trançar, a cada corpo que aprende a tocar. Esse processo é uma pedagogia radical e coletiva, onde o saber circula, contamina e transforma. Preservar o Agbê não é apenas conservar uma técnica, mas comprometer-se com a continuidade da vida em sua dimensão estética, espiritual, política e ancestral. Ao fim, o que o Agbê nos ensina é que design não é apenas solução de problemas - na tradicional abordagem centrada na identificação de necessidades e na criação de soluções práticas, funcionais e inovadoras para desafios diversos -, mas invenção de mundos — e que, para esses mundos permanecerem habitáveis, é preciso escutar o que dizem os objetos, respeitar os tempos do fazer e cultivar as relações que sustentam o saber partilhado. Na Nação Encanto do Pina, o Agbê não é apenas herança do passado, mas elo vivo com o porvir. Referências APPADURAI, Arjun. A vida social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: EdUFF, 2008. CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. INGOLD, Tim. Fazer: Antropologia, Arqueologia, Arte e Arquitetura. São Paulo: Editora Ubu, 2013. LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. Selo Negro Edições, 2014. MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. São Paulo: Perspectiva, 2019.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
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Como citar

SANTOS, Camila Andrade dos. DESIGN E ANCESTRALIDADE: UMA LEITURA DO AGBÊ COMO ARTEFATO CULTURAL AFRO-ATLÂNTICO A PARTIR DO MARACATU NAÇÃO ENCANTO DO PINA (PE).. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1299269-DESIGN-E-ANCESTRALIDADE--UMA-LEITURA-DO-AGBE-COMO-ARTEFATO-CULTURAL-AFRO-ATLANTICO-A-PARTIR-DO-MARACATU-NACAO-EN. Acesso em: 22/05/2026

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