ENFEITIÇAR A LÍNGUA, RECUPERAR A VOZ: ESCRITAS INSURGENTES EM DESIGNANTROPOLOGIA

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-25  
Título do Trabalho
ENFEITIÇAR A LÍNGUA, RECUPERAR A VOZ: ESCRITAS INSURGENTES EM DESIGNANTROPOLOGIA
Autores
  • Imaíra Portela
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Contribuiciones Teóricas
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1299163-enfeiticar-a-lingua-recuperar-a-voz--escritas-insurgentes-em-designantropologia
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Designantropologia. Posicionalidad. Escritura en primera persona en el diseño. Outsider within en el campo del diseño.
Resumo
Como pensar a escrita de processos de designantropologia (Izídio, Farias and Noronha 2022) sem que a experiência fique diluída em um texto acadêmico que, ao contrário do que representa o processo, deseja encerrar tudo que foi vivido em uma imparcialidade ou neutralidade da “voz”. Que voz, ou que vozes deveriam contar estas histórias? Como contá-las? Ao pensar processos de designantropologia insurgentes, questiono-me sobre a escrita e o registro destas experiências. Não o entendo como um diário de campo, consolidado na antropologia, nem como um relatório de projeto, herança do design. Provoco-me a estar, no texto, posicionada, em primeira pessoa. Neste sentido, dou as mãos com Nêgo Bispo (2023) na tentativa de um registro que não apague a oralidade (ou se sobreponha a ela). Parto da perspectiva das outsiders within (Collins, 2016) no design <omitido para revisão>, entendendo que este campo de conhecimento, que reproduz noções situadas de objetividade científica, universalidade e neutralidade, está ancorado em um projeto de conhecimento que visa excluir determinados tipos de vozes e saberes, validando e perpetuando outros. E o faço com a consciência de que não sou um corpo hegemônico no processo de ensino e aprendizagem de design. Assim, objetivo na escrita a autorrecuperação (Collins, 2000) possibilitada pelo reconhecimento de quem sou e o que conversar comigo mesma pode contribuir na formação em design em contextos de opressão. Neste caminho, concordo Gonzales (2020), quando afirma que as estruturas de validação do que é o conhecimento e a verdade são controladas por pessoas brancas e a produção de conhecimento está atrelada a “relações desiguais de poder de raça”, também com Kilomba (2019), quando aponta que a academia é um espaço de “autoridade racial”, também, “um espaço de violência”. No mesmo sentido de violência colonial, Fanon nos alerta para a aniquilação do passado do colonizado em uma imposição dos valores dos colonos, de modo a produzir esvaziamentos. “Para assimilar a cultura do opressor e nela se aventurar, o colonizado precisou oferecer garantias. Entre outras, fazer suas as formas de pensamento da burguesia colonial” (Fanon, 2022, p.45), ou seja, para acessar um determinado espaço de poder, era necessário assimilar a cultura do opressor. Mas não apenas, para o autor, o colonialismo não apenas encerra o povo, esvaziando suas experiências de forma e de conteúdo. “Por uma espécie de perversão da lógica, orienta-se para o passado do povo oprimido, distorce-o, desfigura-o, e anula-o.” (Fanon, 2022, p.211). Como forasteira de dentro do campo, vislumbro a possibilidade dialógica de acionar experiências coletivas, tanto no que fui ensinada colonialmente pela academia de design, como pela transgressão (hooks, 2016) ensinada nos processos de aprendizagem — ou desaprendizagem —quando busco alternativas de repensar o ensino de design a partir de outras matrizes. Assim como para nos comunicar, precisamos aprender a língua do opressor para falar com ele (hooks, 2016), Bispo dos Santos, autor quilombola, nos conclama além. Em uma visão alinhada com a de um pretuguês (Gonzales, 2020), que dobra e transforma a língua para que ela fale o que nós queremos dizer, o autor propõe que a enfeiticemos, como o povo da favela que usa a gíria para preencher o português com palavras que o próprio colonizador não entende, “falam português na frente do inimigo sem que ele entenda. A favela adestrou a língua, a enfeitiçou. Temos que enfeitiçar a língua. (Bispo dos Santos, 2022, p.14). Nêgo Bispo também convida a semear outras palavras. Ele afirma que "precisamos transformar as armas dos inimigos em defesa” (Bispo dos Santos, 2022, p.13). Conceitualmente, o que ele nos pede é que enfraqueçamos as palavras e conceitos do opressor e ponhamos os nossos no lugar, “Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las.” (op. cit.) Dentro desta visão, o que se supera não é uma colonialidade, uma vez que na defesa do autor o povo dele não foi colonizado. O que almeja, é uma luta aliada à uma luta contracolonial. No campo do design, isto significa superar a ideia de neutralidade e universalidade e passar a nos posicionar como tendenciosos e situados. Não os situados de uma pesquisa que lida com realidades específicas (estes já estão no caminho), mas os tendenciosos e situados do/no pacto da branquitude (Bento, 2022). Nesta atitude aliada de uma atitude contracolonial, e de um design ideologicamente declarado, ao contrário do que o design hegemônico quer apagar, o designantropologia abre espaço para uma pesquisa em design que altera os modos de ser e estar no mundo de quem pesquisa com. Neste caminho, não se trata de uma abordagem ferramental, mas de uma forma de fazer pesquisa que assuma uma posicionalidade e declare seus limites, seus potenciais, com quem se engaja e por quem luta. Estas visões se aproximam da pedagogia crítica Freireana (1974), que defende uma educação engajada na luta pela libertação dos oprimidos, através de um processo dialógico e relacional. A práxis em Freire implica ação e reflexão dos sujeitos sobre o mundo para, então, transformá-lo. Nestes termos, os modos de ser e conhecer dos grupos tidos como inferiores não podem ser dominados e substituídos pelos grupos tidos como superiores. Isto é o que ele toma como invasão cultural (op.cit.) e o que observamos acontecer historicamente no design brasileiro e latino americano, desde a sua fundação. Como alternativa a um processo de colaboração que hierarquiza conhecimentos, o designantropologia busca tensionar as hierarquias, partindo do pressuposto de que os engajamentos com copesquisadores não se aliam ao que pede a academia positivista, em que exige-se que uma metodologia seja direcionada à priori. Nestes contextos, um método não se aplica. Ao entrar em contato com copesquisadores, os laços de confiança desenvolvidos ali superaram qualquer escopo de pesquisa. Embora a academia também peça que haja uma categorização das falas, uma análise do discurso, uma revisão teórica que dialogue com as categorias identificadas, os relatos dos copesquisadores demandam muito mais que uma caixa de ferramentas de pesquisa ou aprofundamentos teóricos para analisar dados qualitativos, uma vez que lidamos com as vidas das pessoas. Isto exige que trabalhemos na construção de outros laços (Mazzarotto et.al., 2023). Neste sentido, Noronha afirma que a impessoalidade rege o paradigma cartesiano, que apenas pensa, mas não expressa emoções, que considera que as sensações são nocivas à ciência. “O nome dado a isso é neutralidade epistemológica. Pesquisadora e objetos da pesquisa. Sem pontes, sem contato." (Noronha, 2021, p.611). Neste sentido a escrita em design também é questionada por Noronha, de modo que possamos “escapar e transcender à objetividade e à violência da escrita que é tida como científica como, por exemplo, a omissão dos nomes das copesquisadoras (que no paradigma vigente seriam sujeitos da pesquisa, no máximo), para o texto “parecer mais científico”, (op.cit.) Nesta atitude de pesquisa-escrita, além de voltar-se para uma escrita em primeira pessoa, procuro manter reveladas as identidades dos copesquisadores, à medida que esta permissão me seja concedida. Assumo também a construção de um trabalho de escrita coletivo, na possibilidade do retorno da minha escrita aos copesquisadores, a fim de que possam tecer comentários ou apontar incongruências. Ainda neste processo, estabeleço o compromisso dialógico com quem lê de conversar comigo mesma, dizer minha própria palavra, como nos incentiva Freire. Este não é um procedimento de pesquisa, ou uma estratégia, mas um movimento que me permite também revelar minha genealogia e minha trajetória acadêmica, quem é a pesquisadora neste processo. Para isto, Lorde assinala “a necessidade de ensinarmos a partir da vivência, de falarmos as verdades nas quais acreditamos e as quais conhecemos, para além daquilo que compreendemos. Porque somente assim podemos sobreviver, participando de um processo de vida criativo e contínuo, que é o crescimento”. (Lorde, 2023, p.54-55). Afirmar as verdades que acreditamos e conhecemos é um processo possível para autorrecuperação. A produção de Collins (2000) oferece contribuições significativas de para compreender este conceito, entendido como um processo pelo qual sujeitos historicamente marginalizados, em especial as mulheres negras, reconstroem suas identidades e saberes a partir de suas próprias experiências e trajetórias. Em Black Feminist Thought (1990), Collins enfatiza a importância da experiência vivida como fundamento epistemológico legítimo, articulando uma crítica às formas hegemônicas de conhecimento que excluem ou subalternizam vozes dissidentes. Nesse processo, a autorrecuperação se manifesta como uma prática política e epistemológica, que busca não apenas contestar a desumanização imposta por sistemas interseccionais de opressão — como o racismo, o sexismo e o classismo, mas também afirmar outras formas de conhecer e existir. Ao reivindicar a coletividade, o diálogo e a ética do cuidado como pilares de uma epistemologia feminista negra, Collins propõe um modelo de produção de conhecimento comprometido com a transformação social e com a valorização das narrativas e saberes vindos das margens. Em processos de designantropologia insurgentes, o registro a partir da auto narração implicada no processo, de uma escrita em diálogo com copesquisadores e com quem lê, podem contribuir para outras formas de fazer, ensinar, aprender — ou desaprender design em processo de autorrecuperação, aliadas a uma pedagogia crítica e a uma academia da qual também participem outras vozes.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

PORTELA, Imaíra. ENFEITIÇAR A LÍNGUA, RECUPERAR A VOZ: ESCRITAS INSURGENTES EM DESIGNANTROPOLOGIA.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1299163-ENFEITICAR-A-LINGUA-RECUPERAR-A-VOZ--ESCRITAS-INSURGENTES-EM-DESIGNANTROPOLOGIA. Acesso em: 22/05/2026

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