PERSPECTIVAS DA ANTROPOLOGIA DO DESIGN PARA MULHERES AUTISTAS: CONEXÕES ENTRE BRASIL E AMÉRICA LATINA

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-37  
Título do Trabalho
PERSPECTIVAS DA ANTROPOLOGIA DO DESIGN PARA MULHERES AUTISTAS: CONEXÕES ENTRE BRASIL E AMÉRICA LATINA
Autores
  • MELISSA MARCILIO BATISTA
  • Annibal Gouvêa Franco
  • Rosemary do Bom Conselho Sales
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Género y Cuerpo
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298991-perspectivas-da-antropologia-do-design-para-mulheres-autistas--conexoes-entre-brasil-e-america-latina
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Mulheres autistas, Design Inclusivo, Antropologia do Design, Neurodiversidade, Justiça Social.
Resumo
Resumo: Este estudo investiga as perspectivas da Antropologia do Design aplicadas às experiências de mulheres autistas na América Latina, com foco no Brasil. Parte-se do reconhecimento da invisibilidade feminina no campo do autismo, marcada por critérios diagnósticos historicamente masculinos. Isso resulta em diagnósticos tardios e soluções projetuais pouco responsivas às especificidades sensoriais e sociais. Para analisar essas lacunas, foi aplicado um questionário digital a 32 participantes que atenderam ao critério de inclusão - diagnóstico formal de Transtorno do Espectro Autista. Os resultados mostram que existe uma perceptível exclusão de mulheres autistas nas práticas de design, e que existe uma demanda por uma maior participação nos processos criativos. A análise dos resultados também destaca barreiras sensoriais e de comunicação em ambientes, produtos, serviços, moda e interação visual. O estudo também propõe diretrizes de Design Inclusivo situadas no contexto Latino-Americano, reconhecendo tais diferenças como referência legítima de projeto. Resumo Expandido: Nessa pesquisa investigou-se os princípios da Antropologia do Design aplicados as experiências de mulheres autistas na América Latina, destacando o cenário brasileiro. O estudo articula referenciais da antropologia e do consumo com resultados empíricos, partindo do reconhecimento de que a invisibilidade feminina no campo do autismo permanece um desafio central refletindo na produção de soluções materiais pouco responsivas. Estudos como o de Lai et al. (2015) demonstram que critérios diagnósticos foram historicamente elaborados a partir de padrões masculinos, o que contribui para lacunas de reconhecimento clínico e para a sub-representação de mulheres em pesquisas. Hull et al. (2017a) acrescentam que tais diferenças se manifestam em aspectos comportamentais e cognitivos pouco contemplados pelas práticas institucionais, resultando em respostas insuficientes às demandas femininas. Bargiela, Stewart e Mandy (2016) aprofundam essa discussão ao evidenciar que o diagnóstico em mulheres, quando ocorre, é frequentemente tardio, impactando diretamente sua autonomia. Além disso, o uso de estratégias de camuflagem social, como mostra Hull et al. (2017b), tende a dificultar ainda mais o reconhecimento clínico em situações cotidianas. Diante dessas lacunas, este estudo compreende o design não apenas como técnica ou função, mas como prática cultural e política capaz de materializar valores e relações de poder. Geertz (2008) entende a cultura como um sistema de significados, enquanto Douglas e Isherwood (1996) destacam o papel dos bens de consumo na construção de identidades sociais. Sob essa perspectiva, Escobar (2018) defende a necessidade de abordagens situadas, capazes de reconhecer a pluralidade dos modos de habitar o mundo. Batista e Franco (2025) argumentam que o design inclusivo deve incorporar a experiência cotidiana de mulheres autistas como referência legítima de projeto, revelando sensibilidades e modos de percepção invisibilizados por práticas universalistas. Essas contribuições evidenciam que pensar o design a partir da antropologia permite deslocar paradigmas normativos e tornar visíveis experiências situadas que atravessam a vida cotidiana de mulheres autistas. Na presente pesquisa se desenvolveu um questionário no âmbito do curso de Especialização em Transtorno do Espectro Autista (TEA), tendo como enfoque questões dirigidas a mulheres autistas sobre suas experiências cotidianas e suas perspectivas críticas relacionadas ao design. Metodologicamente, buscou-se mapear tendências e comparar domínios do design por meio de um questionário online composto por 47 questões múltipla escolha em escala Likert de cinco pontos (de “discordo totalmente” à “concordo totalmente”) e comentários livres. As perguntas foram direcionadas exclusivamente a mulheres autistas adultas com diagnóstico formal, estabelecido como critério de inclusão da pesquisa. O formulário permaneceu disponível na plataforma Google Forms por 20 dias, foi aplicado a 32 mulheres, permitindo que as participantes respondessem em seu próprio tempo. O questionário foi estruturado em blocos, contemplando dados sociodemográficos e perguntas foram organizadas em domínios que dialogam com diferentes campos do design: Design Gráfico (comunicação visual, legibilidade e sobrecarga informacional), Design de Produtos (materiais, texturas, sinais sonoros e lógica de uso), Design de Serviços (clareza textual, previsibilidade de etapas e canais de atendimento), Design de Ambientes (iluminação, ruído, cheiros e áreas de pausa) e Design de Moda (tecidos, costuras, modelagem, provadores e informações para compra). Além desses domínios, o questionário incluiu questões relacionadas à inclusão e à autonomia, possibilitando mapear como as experiências das participantes se articulam com o design em sua vida cotidiana. Como resultado do questionário percebe-se que maioria das mulheres receberam o diagnóstico de TEA na vida adulta (84,3%), enquanto 9,4% foram diagnosticadas na adolescência e 6,3% na infância. Em relação à faixa etária, a maior concentração de respostas situou-se entre 25 e 34 anos (34,4%) e 35 e 44 anos (34,4%), seguidas por 18 a 24 anos (18,8%), 45 a 54 anos (9,4%) e 55 anos ou mais (3,1%). As respostas de múltipla escolha foram sistematizadas em gráficos e tabelas gerados pela própria ferramenta e analisadas por meio de procedimentos descritivos, enquanto a questão aberta foi examinada com base em análise de conteúdo, possibilitando complementar os dados quantitativos com narrativas qualitativas. O perfil educacional evidenciou um nível de escolaridade elevado entre as participantes. Apenas 3,1% possuíam ensino fundamental incompleto e 12,5% ensino médio completo, enquanto 21,9% estavam cursando graduação. A maioria já havia concluído o ensino superior ou avançado em sua formação: 25% possuíam graduação completa, 25% pós-graduação lato sensu, 9,4% mestrado e 3,1% pós-doutorado. Esses dados revelam que mais de 60% da amostra apresentava formação de nível superior ou pós-graduação, configurando um recorte altamente qualificado e relevante para a interpretação dos resultados da pesquisa. Na seção de Inclusão e Autonomia, composta por questões em escala Likert destacaram-se dois resultados centrais. Na afirmação “sinto que o design leva em conta a realidade de mulheres autistas, promovendo inclusão e autonomia”, 62,5% das participantes discordaram totalmente e 18,8% permaneceram neutras, o que evidencia uma percepção predominante de exclusão. Em contraste, na afirmação “gostaria de mais participação de pessoas autistas em processos de design”, 84,4% assinalaram concordar totalmente, demonstrando uma demanda clara por coparticipação e escuta ativa nos processos criativos. Nos comentários livres convidou as participantes a comentarem como o design poderia facilitar seu cotidiano. Foram registradas, críticas relacionadas a barreiras sensoriais e comunicacionais, bem como sugestões de melhoria. Foram mencionados incômodos com roupas desconfortáveis, tecidos rígidos e costuras que comprometem a autonomia, além da sobrecarga visual causada por publicidade excessiva, sinalizações pouco claras e limitações de acessibilidade em aplicativos digitais. As sugestões incluíram o desenvolvimento de vestuário sensorialmente confortável, ambientes visuais menos agressivos, uso de cores suaves e redução de brilho, melhorias na legibilidade de placas e maior previsibilidade nos serviços, além da disponibilização de informações acessíveis no comércio eletrônico. Esses resultados, de natureza quantitativa e qualitativa, revelam a urgência de práticas de design mais inclusivas, capazes de incorporar a experiência cotidiana de mulheres autistas como referência legítima para processos projetuais. Esses elementos reforçam que as lacunas no campo do design não são apenas técnicas, mas também simbólicas e culturais, o que exige um redesenho fundamentado nas experiências vividas como fonte legítima de conhecimento. Nesse sentido, a antropologia contribui com a noção de cultura como sistema de significados, em que práticas e representações estruturam identidades coletivas (Geertz, 2008). No âmbito do consumo, os bens materiais podem ser compreendidos como suportes de pertencimento e diferenciação social, revelando sua dimensão política na organização da vida cotidiana (Douglas; Isherwood, 1996). Essa perspectiva se conecta às discussões sobre Design Universal, cuja proposta consiste em desenvolver produtos e ambientes compreensíveis e utilizáveis pelo maior número possível de pessoas, eliminando barreiras e ampliando a acessibilidade (CEUD, 2025). Entretanto, como indicam Franco, Batista e Rabelo (2025), tal abordagem tende a priorizar soluções generalistas, que embora inclusivas em certo nível, podem não contemplar especificidades relacionadas ao gênero e à neurodiversidade. É nesse ponto que o Design Inclusivo se apresenta como uma alternativa mais responsiva, pois, ao invés de buscar uma padronização universal, valoriza situações concretas e diversificadas, reconhecendo diferenças como parâmetro legítimo de projeto (Batista; Franco, 2025). Essa distinção é relevante para pesquisas voltadas a mulheres autistas, uma vez que o reconhecimento de sensibilidades particulares permite avançar em diretrizes situadas, culturalmente contextualizadas e atentas às interseccionalidades. O caráter exploratório da investigação assumiu limites reconhecidos, tratados como motores de aprimoramento em etapas futuras, tais como o tamanho reduzido da amostra inicial, o possível viés associado ao nível de escolaridade das participantes e a coleta realizada de forma exclusivamente online. Como desdobramento da pesquisa, será desenvolvido um Mestrado em Design, em que se prevê o uso de entrevistas semiestruturadas, observações situadas e grupos focais, além da ampliação do escopo amostral. Isso possibilitará uma triangulação de dados capaz de trazer maior clareza para a consolidação de novas diretrizes a serem desenvolvidas durante o mestrado. Propõe-se um conjunto de princípios norteadores das práticas projetuais, culturalmente situadas no contexto Latino-Americano. Entre elas, destaca-se a participação efetiva das mulheres autistas desde as fases iniciais do projeto, incluindo a definição de problemas, formulação de soluções, testes de acessibilidade e etapas de uso. As diretrizes buscam responder aos cinco domínios investigados no questionário. No campo do Design Gráfico, recomenda-se maior legibilidade, hierarquia informacional e previsibilidade nas comunicações. Já em relação ao Design de Serviços, destaca-se a necessidade de protocolos claros, fluxos previsíveis e canais assíncronos acessíveis. Para o Design de Produtos e o de Moda, a atenção a texturas, materiais e regulagens capazes de acomodar diferentes perfis e oferecer conforto sensorial mostra-se fundamental. Quanto ao Design de Ambientes, sugere-se considerar condições ajustáveis de luz, som, cheiro e temperatura, além da criação de áreas de pausa ou refúgio. Esses princípios derivam da convergência entre dados empíricos e debate teórico, reconhecendo que práticas de design inclusivo não devem apenas corrigir diferenças, mas incorporá-las como referência legítima de projeto. Nesse sentido, Escobar (2018) argumenta que a superação de paradigmas universalistas requer abordagens decoloniais, situadas no Sul Global, capazes de valorizar modos de vida invisibilizados por perspectivas hegemônicas e de afirmar o design como prática cultural vinculada à justiça social. Percebe-se, portanto, que a transformação desejada não reside apenas em ajustar objetos ou interfaces, mas em reorganizar relações e métodos, reconhecendo que o design, entendido como prática cultural, precisa ouvir, traduzir e devolver artefatos e serviços, necessidades e sentidos que emergem dos próprios coletivos envolvidos. Dessa forma, acredita-se que os próximos passos desta pesquisa possam romper limites, fortalecendo os debates latino-americanos sobre a interface entre Design e Antropologia, oferecendo subsídios éticos e metodológicos para que futuras investigações e práticas projetuais incorporem as vozes e necessidades de mulheres autistas na produção de espacialidades mais inclusivas. 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Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

BATISTA, MELISSA MARCILIO; FRANCO, Annibal Gouvêa; SALES, Rosemary do Bom Conselho. PERSPECTIVAS DA ANTROPOLOGIA DO DESIGN PARA MULHERES AUTISTAS: CONEXÕES ENTRE BRASIL E AMÉRICA LATINA.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298991-PERSPECTIVAS-DA-ANTROPOLOGIA-DO-DESIGN-PARA-MULHERES-AUTISTAS--CONEXOES-ENTRE-BRASIL-E-AMERICA-LATINA. Acesso em: 22/05/2026

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