ENSAIO PARA PENSAR OUTRAS TEMPORALIDADES

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-26  
Título do Trabalho
ENSAIO PARA PENSAR OUTRAS TEMPORALIDADES
Autores
  • Satsumi Murakami Rocha da Costa
  • Raíssa Joanna Vítola Albuquerque
  • Dani Dacorso
  • Anna Clara Miranda
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Contribuiciones Teóricas
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298812-ensaio-para-pensar-outras-temporalidades
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Temporalidad, Ralentización, Resistencia, Confluencia
Resumo
No livro “24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono”, Jonathan Crary (2016) aponta a existência de um tempo relacionado à renúncia de tarefas de longo prazo e à continuidade, sendo caracterizado pela ausência de contrastes e interrupções. O autor atrela essa temporalidade a um sistema de constante autorregulação, onde a necessidade de acumulação individual faz com que o indivíduo consuma cada vez mais e de forma supérflua, tornando-se objeto de suas próprias demandas consumistas. Tal modelo, propõe um desempenho maquinal e ininterrupto, ligado a valores de eficácia e produtividade que desconsideram o fator humano envolvido em seu processo. Para além de objetos, é entendido aqui um modelo relacionado ao consumo e produção de informações cada vez mais aceleradas. As ferramentas de inteligência artificial exemplificam de forma radical a aceleração do tempo no capitalismo contemporâneo. Algoritmos capazes de produzir textos, imagens e tomar decisões em segundos condensam processos que antes demoravam horas ou dias, reforçando maquinicamente a lógica 24/7 de produtividade e disponibilidade contínua descrita por Crary (2016). Paul Virilio (1996) chamou de dromologia a lógica da velocidade que reconfigura a experiência do espaço e do tempo, instaurando uma realidade em que o instante se sobrepõe à duração. Essa lógica reverbera hoje justamente nos sistemas de redes neurais e deep learning conhecidos como inteligência artificial, que estreitaram drasticamente a temporalidade e mudaram a maneira de lidar com o tempo através das máquinas. Essa aceleração contínua não resulta em ganho de liberdade – pelo contrário, gera um sentimento de descompasso permanente (Rosa, 2019); quanto mais rápido avançamos, mais distante parece a possibilidade de experiência plena. Essa aceleração, nesse sentido, é também uma forma de alienação temporal e o tempo se torna, nesse cenário, menos uma experiência vivida e mais um recurso de predição e controle. Yuk Hui (2020) lembra, no entanto, que não se trata apenas de aumentar a velocidade, mas de instaurar formas técnicas que definem como o mundo pode ser habitado. O tempo algorítmico do deep learning não é simplesmente rápido, mas estruturado em função da previsibilidade e da captura do possível. Mbembe (2020) chama atenção para a atualização das hierarquias coloniais nesse regime: o que antes recai sobre terras e corpos expande-se agora para dados e fluxos digitais. A aceleração algorítmica, portanto, não é neutra: ela exemplifica a radicalização de um tempo moldado pela eficiência. Em contraponto, diversos movimentos sociais e políticos buscam pensar em termos de outras temporalidades, seja por meio de formas contraculturais produzidas como desvio da cultura hegemônica – como o exemplo do slow culture e das práticas undergrounds – ou da afirmação de outras temporalidades e culturas apagadas pela narrativa eurocêntrica (Arrebola, 2024). Nesse sentido, o presente texto pretende refletir sobre outras formas de pensar o tempo em diálogo com pesquisas do Laboratório de Design e Antropologia do Programa de Pós-graduação em Design da Escola Superior de Desenho Industrial (LaDA - PPDESDI|UERJ), articulando o tempo à inteligência artificial e aceleração algorítmica, práticas somáticas e dança butoh, processos criativos e confluências multiculturais, buscando atuações mais abertas e formas de resistência à aceleração. No que diz respeito aos processos criativos, existe uma tendência na atualidade de tratá-los como um conjunto de fórmulas sólidas, replicáveis e facilmente comercializáveis. Cabe destacar, no entanto, que os processos de criação aqui abordados aproximam-se do sentido de uma necessidade existencial humana (Ostrower, 1983). Ostrower (1983) entende a criação como forma de perceber e transformar o mundo, onde cada gesto, ao modificar a matéria com a qual interage, abre novas possibilidades de entendimento e desdobramentos para seu criador. O processo criativo, nesse sentido, configura um constante diálogo com os materiais que nos cercam. De forma semelhante à dialética colocada por Ostrower (1983) como parte do processo de criação, Ingold (2020) apresenta a “arte da pesquisa” como um canal que responde e segue os fluxos da matéria, de forma que pensamos por meio dos materiais e estes, por sua vez, também pensam em nós. A partir desta noção, o autor apresenta a ideia de “correspondência” como uma relação com o mundo que, ao invés de buscar descrevê-lo, preocupa-se em estar aberta e responder a ele. Como processo, a criação se dá qual forma de estabelecer relações e recombinar ideias de maneiras diferentes da apresentada inicialmente, podendo ser percebida como forma de criar conexões (Kent; Stewart, 2023). No entanto Kent e Stewart entendem também que nem sempre estas conexões encontram-se aparentes, sendo necessário deixar que as questões decantem e sejam permeadas pela rotina diária. Longe de uma forma quantificável, os processos de criação como abordados aqui necessitam de atenção e entrega, extravasando o acúmulo de informações e, assim, aproximando-se do que Bondía (2002) apresenta como saber advindo da experiência. Assim, é necessário parar e desacelerar para que as coisas nos toquem e aconteçam e, dessa forma, seja estabelecida uma perspectiva de transformação real da própria subjetividade e do mundo que nos cerca. Pensando nesse sentido, é interessante falar sobre a dança butoh como um desses movimentos que repensam o tempo. Nascida como manifestação contracultural no Japão após a Segunda Guerra Mundial, a dança butoh é uma prática artística e somática que faz uso de uma experiência temporal não linear em seus processos de criação. Em lugar de uma lógica coreográfica tradicional em uma sucessão regular de instantes, essa prática trabalha com uma dilatação ou suspensão do tempo para que o movimento possa emergir, a partir do encontro do corpo com o espaço. Kazuo Ohno – um dos precursores do butoh – orientava seus alunos a sentirem o espaço que se abre entre um gesto e outro (Ohno,2016). Esse espaço é identificado como Ma (?) – princípio intrínseco nas manifestações culturais japonesas – e se refere um intervalo entre quaisquer elementos, sejam eles físicos, temporais ou emocionais (Okano, 2007). Funcionando como um operador cognitivo, Ma viabiliza uma forma de comunicação baseada mais nos meios perceptivos do que na lógica conceitual (Okano, 2007). Nesse processo, a dança acontece a partir do fluxo de imagens, sensações e memórias que emergem da escuta e de um estado de presença do corpo, que não se limita ao instante, contendo o passado (memórias) e abrindo-se para o porvir, em diálogo com o conceito de presente espesso de Merleau Ponty: o tempo não como uma linha, mas como uma rede de intencionalidades (Ponty, 1945). Pensando na América Latina, cabe citar “A terra dá, a terra quer”, onde Santos (2023) propõe neologismos do ponto de vista da decolonialidade, numa declarada guerra de denominações com as palavras da cultura hegemônica, fazendo um convite a ressignificá-las e reconhecendo a existência de outras cosmopercepções. Ele argumenta que algumas palavras germinam mais do que outras, destacando a força da “confluência”. Como no encontro de rios afluentes, as confluências de culturas, mesmo que divergentes, podem ter suas correntezas aproximadas, onde uma, ao juntar-se com outra não perde sua subjetividade e passa a ser também a outra. Trata-se de uma outra percepção do tempo que, num emaranhamento em coriolis, apresenta a fundamental percepção do tempo quilombola e de povos originários, da circularidade em contraponto ao tempo linear colonialista. São múltiplos os exemplos dos tempos em ciclo na Pindoraméfrica, como a existência que vai além da percepção individual de nascimento, vida e morte, começando pela geração avó, seguindo pela geração mãe e recomeçando na geração filha. Ampliando mais, como já nos disseram tantas culturas por meio de outras palavras, somos netos das estrelas (Alves-Brito, 2021), que em seus ciclos diversos criaram e seguem recombinando os materiais que nos compõem e a todos os mundos à nossa volta. Se confluirmos mais um pouco, podemos imaginar uma associação do tempo linear com o tempo em ciclo, chegando numa espiral. Esse tempo proposto por Martins (2021) não é uniforme, por ser urdido em conjunções das diversas e diferentes culturas africanas com culturas da diáspora e da ancestralidade. Ao longo de seu percurso, a espiral do tempo por vezes é dilatada, outras tensionada, ou contraída e a seguir descontraída, ou mesmo revertida… São diversas as possibilidades de temporalidades, formas de entender e viver os mundos, podendo dançar juntas em circularidade espiralar, para então talvez e se assim nos permitirmos, fazer as pazes com Gaia (Haraway, 2023). Mesmo que de forma breve, buscamos, ao longo do presente resumo, percorrer questões e atravessamento presentes em quatro pesquisas em desenvolvimento no LaDA (PPDESDI | UERJ), entendendo que, cada uma à sua maneira, entrava em conflito com a ideia de um tempo utilitário e acelerado, conforme nos é ditado pelo sistema capitalista. Nesse sentido, mais que apresentar uma conclusão, almejamos vislumbrar e refletir sobre formas de resistir, ralentar e alongar o tempo, buscando brechas para pensar tempos que sincronizem com nossas questões de pesquisa e de vida, entendendo a extensão inegável existente entre ambas. 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Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

COSTA, Satsumi Murakami Rocha da et al.. ENSAIO PARA PENSAR OUTRAS TEMPORALIDADES.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298812-ENSAIO-PARA-PENSAR-OUTRAS-TEMPORALIDADES. Acesso em: 22/05/2026

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