FAZER, NARRAR E IMAGINAR: ENTRELAÇAMENTOS DE NARRATIVAS EM CORRESPONDÊNCIAS COM UMA COMUNIDADE DE ARTESÃS DE FIBRA DE BURITI

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-28  
Título do Trabalho
FAZER, NARRAR E IMAGINAR: ENTRELAÇAMENTOS DE NARRATIVAS EM CORRESPONDÊNCIAS COM UMA COMUNIDADE DE ARTESÃS DE FIBRA DE BURITI
Autores
  • Luiza Gomes Duarte de Farias
  • Raquel Noronha
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Artesanía y Economía Solidaria
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298457-fazer-narrar-e-imaginar--entrelacamentos-de-narrativas-em-correspondencias-com-uma-comunidade-de-artesas-de-fib
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Designantropologia, Correspondências, Narrativas, Práticas artesanais
Resumo
Sob a égide da modernidade, as práticas de design e da ciência foram historicamente reproduzidas com base em um paradigma positivista. A neutralidade, a racionalização, a universalidade e a produção de hierarquias entre cultura-natureza, design-artesanato e mente-corpo, são parâmetros que continuam a engendrar seus modos de conhecer o mundo. Como narrativa hegemônica, a modernidade se respaldou na imposição de modelos de desenvolvimento tecnológico-industrial para modernização de territórios tidos como “subdesenvolvidos” e “atrasados”. No contexto latino-americano, especificamente, isto se deu através da exportação de conceitos, métodos e práticas de design oriundas do Norte Global, sobrepondo-se estrategicamente sobre um amplo conjunto de conhecimentos, fazeres e visões de mundo de mundos localizadas (Escobar, 2016). Visando romper com as reminiscências de um pensamento de design “para” o outro – como almejado pelo ideário moderno - em direção a um design “com” e “pelo” o outro, estudos e práticas entre design e antropologia têm trazido contribuições valiosas a respeito da dimensão ontológica e cosmológica do design. Segundo esta perspectiva, toda forma de design é concebida a partir de certas visões de mundo e estas, em contrapartida, agem de volta sobre nós, reproduzindo modos de ser, saber e fazer (Noronha, 2018; Izidio, Farias e Noronha, 2023) Isto significa dizer que comunidades detêm de suas formas particulares de fazer design e estas prefiguram o modo como entendem sua própria realidade, sendo um sistema de investigação e aprendizagem sobre si própria. No contexto da produção artesanal, o fazer criativo é um processo constituído cosmológica e ontologicamente, pois perpassa as várias dimensões da vida das artesãs, como trabalho, relação com a natureza, política, comunidade, educação, memória e intergeracionalidade. Saber de um modo é também narrar a partir de dado ponto de vista, pois narrativa e conhecimento são dimensões indissociáveis (Mendoza Garcia, 2004). Para Clifford (2016) e Perin (2021), a escrita etnográfica é a criação de ficções situadas, que não apenas representam, mas inventam histórias a partir de enquadramentos parciais. Assim, considero que o ato de contar e investigar a situacionalidade das narrativas do saber-fazer artesanal é uma posição contra generalizações e tipificações culturais sobre as formas hegemônicas de fazer design. Construir narrativas a partir do cotidiano contesta discursos que ocultam e fixam fenômenos sociais, como as práticas de design, em visões homogeneizadas (Abu-Lughod, 1993). Portanto, neste resumo expandido, reflito sobre como a narrativa é um modo situado de corresponder com os seres e coisas em práticas de designantropologia, fazendo emergir e potencializando em campo a reflexividade entre conhecimentos, criatividades e temporalidades. Como caso de análise, apresento as experiências de pesquisa com uma comunidade de artesãs de fibra de buriti (Mauritia flexuosa) do Maranhão, estado localizado no Nordeste do Brasil. As narrativas analisadas foram produzidas com base em dois movimentos diferentes. Primeiro, no processo de contação de histórias, que diz respeito ao modo como as mestras artesãs contam sobre seu saber-fazer, ao longo da vivência do processo produtivo, da participação em seus cotidianos e da encenação de um circuito turístico pelo território. Segundo, na ação de criação de narrativas, que se refere aos atos de materialização e imaginação dessas narrativas por parte de aprendizes durante as oficinas do Nós de fibra, uma experiência de educação artesanal para as gerações mais jovens promovida pelas próprias artesãs. Como abordagem de pesquisa, aciono as práticas de correspondência, que aludem à relação em que os seres e as coisas respondem entre si continuamente ao longo das experiências (Gatt e Ingold, 2013). No campo do design, as correspondências ampliam os alcances da observação participante, exigindo que a pesquisadora assuma uma postura atencional diante do vivido em campo e reivindicando a intersubjetividade entre saberes e práticas locais e formais na construção do conhecimento (Izidio, Farias e Noronha 2022). Ademais, foram produzidas coisas de design, materialidades abertas e inacabadas que buscaram elicitar o diálogo, a narração e a antecipação de futuros nos processos coletivos (Binder et al., 2011). Particularmente, foram utilizadas diversas técnicas e ferramentas que atuaram como coisas de design, como sondas, construção de cenários, encenação, diário de pesquisa, além dos próprios materiais do território, como a fibra de buriti. Na ação de contar sobre seu saber-fazer, as artesãs enunciam como suas linhas de vida correspondem com as linhas de todos os outros seres e coisas. A partir dos dois métodos de análise elencados, foi possível perceber como a construção de narrativas explicitam significados organizados intencionalmente na forma de palavras, gestos e desenhos. Isso traz à tona o fato de que essas narrativas são produzidas a partir de escolhas do que elas consideram significativo e situam as artesãs em espaços de relação com a alteridade de suas práticas (Noronha, 2020). Diante dos problemas cotidianos, como a precarização do trabalho e a devastação ambiental, a continuidade do saber-fazer tradicional é uma preocupação constantemente pronunciada. Nesse sentido, a intergeracionalidade está no modo como as artesãs prolongam as mesmas linhas que foram tecidas por suas antecessoras. Narrar sobre o que fazem é como narrar sobre si mesmas, pois existe uma indissociabilidade entre o fenômeno social do artesanato e suas próprias histórias de vida. Desse modo, o saber-fazer envolve uma outra forma de lidar com a criatividade, que se tece a partir da intersubjetividade entre os seres e as coisas, por meio da oralidade e da incorporação prática. Essas questões podem ser exemplificadas em dois processos locais. Primeiramente, a interdependência entre produção e os processos orgânicos do buriti, considerando que deve haver uma correspondência entre a coleta da matéria-prima (o olho de buriti ) e os ciclos de reposição da palmeira. Se o período de regeneração não for respeitado, a palmeira pode vir a falecer. Em suas narrativas, as artesãs explicitam seus gestos de cuidado, buscando sustentar o entrelaçamento entre vidas do qual dependem. Em segundo lugar, há uma diferença por vezes implícita na aparência final dos artefatos elaborados. Mesmo que tenham utilizado o mesmo material e os mesmos pontos de crochê, a aparência final nunca é semelhante, tendo em vista que algumas artesãs produzem pontos maiores e mais abertos, enquanto outras fazem pontos menores e mais “apertados”. Essa distinção evidencia o caráter intersubjetivo, reflexivo e alegórico da prática artesanal. Segundo Pajaczkowska (2015), a técnica do crochê é uma alegoria da reflexividade, uma vez que o gesto de entrelaçar o fio e dar nós de maneira repetitiva guarda um significado simbólico que se assemelha ao próprio movimento da memória: orientar-se ao passado e, ao mesmo tempo, atualizar-se no tempo presente. Para ela, “quando um movimento progressivo para a frente inclui um movimento para trás dentro dele, há um espaço e tempo de pensamento reflexivo.” (p.86, tradução nossa). Além disso, a dimensão coletiva do saber-fazer emerge como uma forma de mobilização comunitária, gerando tomada de consciência, autovalorização e incidindo contra as desigualdades de gênero. No exercício de contação de histórias e partilha do saber-fazer, há a produção de um espaço que permite a imaginação antecipatória de seus planos e aspirações para o futuro. Antecipar o futuro, nesse sentido, emerge da fricção entre a imaginação e as circunstâncias materiais do cotidiano (Ingold, 2013), potencializando o esforço da comunidade em responder às preocupações em torno da continuidade do saber-fazer. Estar em correspondência com suas práticas criativas também permitiu aprender modos de como fluir com as relações e os materiais do território. A promoção das oficinas artesanais no Nós de fibra foi uma iniciativa das próprias artesãs, que viram na educação das novas gerações um caminho possível para garantir a continuidade e a renovação da tradição. Já o circuito turístico, ainda que elaborado em um processo colaborativo, surgiu como um desejo coletivo das artesãs, enunciado em uma visita de um projeto anterior do NIDA. A encenação de como o percurso turístico aconteceria futuramente possibilitou sintonizar a fluidez das ideias e sonhos das artesãs às condições materiais da comunidade. Durante o trabalho de campo, a tarefa da equipe de pesquisadores em que estive incluída, foi a de captar e materializar os processos de antecipação de futuros presentes nas formas de narrar e de praticar seus saberes. Ademais, esse exercício de correspondência compreendeu os movimentos de familiarização com seus mundos, experimentando, por exemplo, os processos de tingimento e o aprendizado sensorial da técnica artesanal. Novamente, a percepção do crochê como uma alegoria da reflexividade transformou-se em um artificio para reflexão sobre o próprio processo investigativo, tendo em vista a oscilação contínua entre o ponto de partida e as experiências vividas em campo, que delineia o aparecimento incessante de novas questões. Em relação ao processo de criação de narrativas, foram produzidas coisas de design durante as oficinas do Nós de fibra com o objetivo de provocar a tradução das narrativas orais em formas materiais. Sem que houvesse um planejamento prévio de como se desenrolariam em campo, as coisas tiveram o propósito de evidenciar as percepções implícitas ao processo de aprendizado das aprendizes. A cocriação das cartas para o futuro, especificamente, criou condições para a significação e fabulação de realidades possíveis em torno do conhecimento artesanal, mesclando representações de cenas cotidianas e a invenção de cenários desejáveis. Além disso, a escrita do diário de campo favoreceu a reflexividade da pesquisa, uma vez que pude refletir sobre as experiências vividas, entendendo, sobretudo, como a vivência do fazer artesanal pôde produzir a realidade pesquisada e, ao mesmo tempo, afetar a própria pesquisa (Peréz-Bustos e Piraquive, 2015). Nele, exercitei o trabalho da atenção ao modo como as vidas das artesãs, das aprendizes e do buriti se entrelaçam, reconhecendo que essas relações não são estáticas, mas vulneráveis às contingências das transformações históricas (Tsing, 2022). No entanto, as narrativas colhidas e construídas ao longo da pesquisa não são imunes às encruzilhadas epistemológicas que elaboram disputas entre sentidos em torno do artesanato. Narrativas são produzidas a partir de retóricas que determinam regimes do que deve ou não ser reconhecido (Noronha, 2020). No que diz respeito ao saber-fazer com a fibra de buriti, esse fato se evidencia nas mudanças no uso das matérias-primas e das técnicas empregadas, mas também se encontra no modo como o fenômeno é continuamente ressignificado, o que se observa no reconhecimento da prática como um conhecimento tradicional, resultando em uma maior valorização no contexto nacional. O conhecimento tradicional possui permeabilidade histórica, isto é, cada geração imprime os sentidos do tempo presente. Por outro lado, essas transformações trazem à tona as contradições que subjazem ao discurso naturalizado sobre a produção artesanal, frequentemente atrelado ao artesanato como símbolo de autenticidade e “empoderamento” feminino. Nesse sentido, o processo de correspondências em campo pôde tornar explícitas as narrativas menores sobre práticas femininas inviabilizadas e precárias, mas que sustentam a vida das artesãs, apesar das pressões e cooptações do modelo de produção capitalista (Pérez-Bustos, 2016). Em síntese, a pesquisa sobre e por meio de narrativas situadas em torno do saber-fazer desafia as visões racionalistas e homogeneizantes do design, dando vazão a como a enunciação de narrativas situadas atravessa a relação com as alteridades, afetando e transformando os processos criativos em campo. Ao sintonizar nossa atenção às outras formas de conhecimento e visões de mundo, encontramos pistas sobre os alcances da construção de designs outros (Gutiérrez-Borrero, 2020), que instituem perspectivas alternativas sobre a produção criativa, a relação com os materiais, o fazer coletivo e a imaginação de futuros.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

FARIAS, Luiza Gomes Duarte de; NORONHA, Raquel. FAZER, NARRAR E IMAGINAR: ENTRELAÇAMENTOS DE NARRATIVAS EM CORRESPONDÊNCIAS COM UMA COMUNIDADE DE ARTESÃS DE FIBRA DE BURITI.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298457-FAZER-NARRAR-E-IMAGINAR--ENTRELACAMENTOS-DE-NARRATIVAS-EM-CORRESPONDENCIAS-COM-UMA-COMUNIDADE-DE-ARTESAS-DE-FIB. Acesso em: 22/05/2026

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