DESIGN, GÊNERO E SEXUALIDADE: PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E MICROPROTESTO COMO FERRAMENTA CONTRANORMATIVA

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-17  
Título do Trabalho
DESIGN, GÊNERO E SEXUALIDADE: PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E MICROPROTESTO COMO FERRAMENTA CONTRANORMATIVA
Autores
  • Guilherme Cardoso Contini
  • Fernanda Henriques
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Género y Cuerpo
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298013-design-genero-e-sexualidade--perspectiva-antropologica-e-microprotesto-como-ferramenta-contranormativa
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Design e antropologia. Estudos de gênero e sexualidade. Microprotesto. Contranormatividade.
Resumo
Esta pesquisa analisa a intersecção entre os estudos de gênero, sexualidade e Design, a medida em que busca ressignificar um olhar antropológico indispensável aos profissionais criativos. A construção teórica abarcou a relação estabelecida entre o campo do Design e da Antropologia a partir dos questionamentos sobre a interface com os corpos, a contranormatividade e a contrassexualidade. Foi constatado que o Design utilizou dos microprotestos como ferramenta de ação, além de promover intersecções com ferramentas antropológicas, pensando através da ótica da antropologia no processo de pesquisa e projeto. RESUMEN AMPLIADO Ao analisar os estudos de gênero e sexualidade, conclui-se que eles já são muito desenvolvidos em campos como a Antropologia e a Psicologia, por exemplo. Mas quando se atenta a essa conexão na perspectiva do Design e dos campos criativos (como a Arquitetura, a Comunicação e as Artes), percebe-se uma aproximação recente com esses estudos, o que deixa evidente a oportunidade de se aprofundar teórica e metodologicamente. Conforme analisado por Dijon de Moraes (1999), a pós-modernidade trouxe o pluralismo, uma certa abertura para novos posicionamentos e posturas, assim como a tolerância para posições de divergência. Segundo Rafael Cardoso, foi na época pós-moderna que deixou de existir “a pretensão de encontrar uma única forma correta de fazer as coisas, uma única solução que resolva todos os problemas, uma única narrativa que amarre todas as pontas (Cardoso, 2000, p.208). Nesse mesmo período o Design passou a desenvolver uma aproximação maior com a Antropologia e com as Ciências Sociais para, de uma vez por todas, tentar anteceder algumas necessidades reais dos usuários de qualquer projeto da área. Tal aproximação fez com que o campo se atentasse às discussões sobre classe, gênero e raça por meio de linguagens e princípios considerados universais (Moura, 2021). Chegou-se à conclusão de que não existe mais apenas um jeito certo e ideal de fazer e projetar as coisas. Os designers conseguem trazer certa sensibilização aos projetos a fim de desenvolver um “olhar antropológico” necessário ao Design, sem dependência do projeto que está sendo executado ou do objeto pesquisado. O Design pode sim atuar sob a perspectiva de gênero e sexualidade com as respectivas ressignificações. Isso torna efetiva a aproximação do “olhar antropológico” mencionado aqui. Além dele, um certo “pensar antropológico” pode resultar em diversos questionamentos sobre a própria realidade, chamada de “antropologia do cotidiano” (Rodrigues, 2005, p. 1), sobre um Design que é centrado no ser humano. Dessa forma o designer torna-se colaborador do futuro social ao invés de somente cidadão. Ele torna-se um “agente construtor cultural” (Rodrigues, 2005, p. 3). O processo de mudança atitudinal por parte do designer pode ser tanto promissor quanto problemático, baseado em três distinções que a relação Antropologia e Design adotou: incorporar ao Design as percepções antropológicas, como exemplo a prática etnográfica; levar à Antropologia os ideais do Design, como exemplo o Design Participativo ; aplicar a teoria social crítica junto à prática do Design e do desenvolvimento de projetos (Escobar, 2018, p. 54). Em relação à “Antropologia do Design”, Arturo Escobar pontuou que ela envolve “o uso de conceitos e métodos antropológicos no design; as posições variam desde o design aplicado (orientado pelo mercado) até o design ativista (socialmente consciente)” (Escobar, 2018, p.54, tradução nossa) . Uma considerável parcela da literatura sobre Antropologia do Design busca defender a incorporação de princípios antropológicos na prática dos designers, baseado no argumento que isso traria relevâncias e oportunidades profissionais. A pesquisadora Zoy Anastassakis (2013) identifica a Antropologia operacionalizada pelos processos de Design como uma área que deve se utilizar da experimentação e do improviso. Dessa forma, aproximar os dois campos de pesquisa não significa que “se esteja pretendendo, ali, formar antropólogos, nem tampouco instrumentar estudantes de Design com ‘métodos’ e ‘ferramentas’ retirados da Antropologia” (Anastassakis, 2013, p. 184). O que essa aproximação busca criar é um cenário de conformidade em relação à atuação das duas áreas simultaneamente, de forma transdisciplinar, desenvolvendo novos conhecimentos que se aproximem das questões que dizem respeito a todas e todos. Seguindo nesse processo de intersecção entre Antropologia e Design, alguns marcadores de identidade como raça, classe, gênero e colonialidade são indispensáveis no processo de decolonizar o Design (Escobar, 2018, p.58). Tais aspectos costumam ser adotados por pesquisadores que atuam por meio do ativismo, comumente em conexão com a comunidade, utilizando-se do Design voltado ao social, às diferenças da sociedade. Em relação aos microprotestos, Cutler, Gothe & Crosby avaliaram: “[...] o escopo do nosso estudo toma o “micro” como ponto de partida. Nós focamos no tipo de ativismo que ganha forma em momentos de design cuidadoso; esses são momentos em que designers se movem politicamente, em vez de necessariamente estarem dentro de movimentos políticos. Esses microprotestos respondem às necessidades da comunidade por meio do design mais do que articulam um amplo movimento de ativismo em design. Como tal, os impactos desses microprotestos frequentemente passam despercebidos fora das comunidades nas quais ocorrem. Nós propomos, e testamos neste ensaio, um modo de análise para microprotestos em design que toma o ativismo em design como ponto de partida, mas presta mais atenção à comunidade e à tradução do que aos designers e ao seu alcance global (Cutler; Gothe & Crosby, 2018, parágrafo 2). Discutindo sobre um Design que é crítico e aliado dessas demandas sociais, chega-se à conclusão de que o processo de escuta é fundamental (Cutler; Gothe; Crosby, 2018, parágrafo 10), inclusive aos microprotestos. Os microprotestos no Design podem se conectar com “mobilização contínua de atores e redes em processos de experimentação coletiva” (Cutler; Gothe; Crosby, 2018, parágrafo 4, tradução minha) , originando novos espaços de protesto e discussão. Dessa forma, a atuação do Design é subjetiva, micropolítica e conectada aos aspectos dos sujeitos (Portinari; Nogueira, 2016, p. 43). Como forma de validação dessa posição do designer quanto pesquisador e projetista antropológico, vale ressaltar que um dos legados que o modernismo deixou, foi um Design universal e “neutro” (Moura, 2021), reforçando uma identidade de base heteronormativa. Isso resultou, consequentemente, em um pós-modernismo resistente, tentando de forma veemente fazer surgirem projetos ativistas e transgressoras, ainda que, ironicamente, retomam características modernistas (Francisco, 2022). Quando considerou esse cenário do Design, indo do modernismo ao pós-modernismo, a pesquisadora Susana João Francisco considerou que esses projetos realmente transgressores e ativistas foram pautados em uma série de pensamentos subversivos e críticos, relacionados ao papel político e social do Design. Francisco (2022, p. 71) mencionou que quando se cria um produto de Design, o designer questiona-se sobre como se dará a relação entre o humano, o corpo e a mente do humano com o seu design” e suas características. Ao analisar a interface humano-objeto, deve-se perpassar a antropologia do Design, citada anteriormente, no que diz respeito à interação corpo-objeto. É indispensável atentar-se ao que concebeu Paul Preciado em seu livro “Manifesto Contrassexual”. Preciado observou esse viés estratégico da figura do designer se aproximando da antropologia sob a ótica da relação dos objetos com um corpo que é político. Um corpo que é espaço de resistência à opressão potencial, um espaço biopolítico. O Manifesto Contrassexual destaca as “zonas esquecidas” pelas análises o corpo como lugar de opressão e resistência (Bourcier, 2014, p. 13). Ou seja, um designer que projeta algo para o corpo e para o prazer, não deveria pensa apenas no ideal estético, mas deveria considerar as estigmatizações existentes sobre os corpos, a fim de compreender as práticas relacionadas aos objetos. Conforme Preciado: A ressignificação contrassexual do corpo passa a vigorar com a introdução gradual de determinadas políticas contrassexuais: primeiro, com a universalização das práticas estigmatizadas como abjetas no âmbito do heterocentrismo. Segundo, será necessário colocar em movimento equipes de pesquisa contrassexuais high-tech, de maneira que se possa encontrar e propor novas formas de sensibilidade e de afeto (Preciado, 2014, p. 36). Aliado ao discurso sobre corpos existe uma teoria pontuada por Judith Butler sobre o conceito de “não violência”. Conforme a pesquisadora, alguns chamam de “violência” atos discursivos ofensivos, outros contestam e dizem que não se pode afirmar que a linguagem por si só é violenta (Butler, 2021, p. 19). Ao apresentar-se um cenário mundial como campo de violência, a atuação da não-violência se dá ao “encontrar formas de viver e agir nesse mundo, de tal maneira que a violência seja controlada ou reduzida” (Butler, 2021, p. 25). E em conexão com a fala anterior sobre os corpos, para Butler, o corpo “pode ser vetor dessa inversão, da mesma forma que o discurso, as práticas coletivas, as infraestruturas e as instituições” (Butler, 2021, p. 25). Por fim, conclui-se que essa aproximação entre Design e Antropologia é indispensável e necessária. Diante de uma realidade onde cabe ao designer ser “mediador simbólico entre o presente e o futuro” (Rodrigues, 2005, p. 9), a relação entre a Antropologia e o Design se estreita ainda mais. No caso deste resumo expandido, analisou-se de forma teórica a relação estabelecida entre o campo do Design e os corpos, o Design e os microprotestos, e o Design em intersecção com ferramentas antropológicas, pensando através da ótica da antropologia no processo de pesquisa e projeto. A prática contranormativa da área reforça o quanto o “pensar antropológico” é estratégia crescente, inclusive no contexto citado da contrassexualidade. REFERÊNCIAS ANASTASSAKIS, Zoy. Laboratório de Design e Antropologia: preâmbulos teóricos e práticos. Arcos Design, Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, p. 178–193, 2013. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/arcosdesign/article/view/10004/7879. Acesso em: 4 set. 2025. BOURCIER, Marie-Hélène. Prefácio. In: PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: Editora N-1 edições, 2014. BUTLER, Judith. A força da não violência: um vínculo ético-político [The Force of Nonviolence: An Ethico-Political Bind]. Traduzido por Heci Regina Candiani. 1ª Ed. São Paulo: Bontempo, 2021. CARDOSO, Rafael. Uma introduc¸a~o a` histo´ria do design. 1. ed. São Paulo: Edgar Blucher, 2000 CUTLER, Ella; GOTHE, Jacqueline; CROSBY, Alexandra. Design Microprotests. M/C Journal, [S. l.], v. 21, n. 3, 2018. DOI: 10.5204/mcj.1421. Disponível em: https://journal.media-culture.org.au/index.php/mcjournal/article/view/1421. Acesso em: 18 ago. 2025. ESCOBAR, Arturo. 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Antropologia e Design: o olhar antropológico do designer. 2005. 13p. Disponível em: https://pdfcoffee.com/o-olhar-antropologico-do-designer1-pdf-free.html . Acesso em: 19 mar. 2025.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

CONTINI, Guilherme Cardoso; HENRIQUES, Fernanda. DESIGN, GÊNERO E SEXUALIDADE: PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E MICROPROTESTO COMO FERRAMENTA CONTRANORMATIVA.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1298013-DESIGN-GENERO-E-SEXUALIDADE--PERSPECTIVA-ANTROPOLOGICA-E-MICROPROTESTO-COMO-FERRAMENTA-CONTRANORMATIVA. Acesso em: 22/05/2026

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