APRENDER NO PLURIVERSO: REFLEXÕES SOBRE SABERES COMPARTILHADOS EM DISCIPLINA DE DESIGN ANTROPOLOGIA

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-5  
Título do Trabalho
APRENDER NO PLURIVERSO: REFLEXÕES SOBRE SABERES COMPARTILHADOS EM DISCIPLINA DE DESIGN ANTROPOLOGIA
Autores
  • Elígia Filgueiras de Freitas
  • Maria Cristina Ibarra
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Contribuiciones Teóricas
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1297956-aprender-no-pluriverso--reflexoes-sobre-saberes-compartilhados-em-disciplina-de-design-antropologia
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Ensino, Design Antropologia, Decolonial, Pluriverso.
Resumo
Neste artigo, propomos a discussão acerca dos caminhos do design no cenário contemporâneo a partir de uma perspectiva que articula práticas participativas, reflexões decoloniais e abordagens relacionais. Partindo da premissa de que o design não é apenas uma técnica ou produção de objetos, mas um processo cultural, político e relacional, exploramos como diferentes textos acadêmicos e ensaios lidos durante a disciplina de Design e Questões Contemporâneas, ofertada pelo <omitido para revisão cega>, ministrada por <omitido para revisão cega> permitem pensar o design como ferramenta de correspondência com o mundo, de intervenção nos contextos sociais e de cocriação com comunidades. Diferentemente de cursos que priorizam apenas a transmissão de conteúdos técnicos, a disciplina estimulou a experimentação, a reflexão crítica e o engajamento direto com contextos sociais, culturais e latino-americanos. Sendo estruturada por meio de seminários em grupo, centrados em leituras-chave que abordam desde a antropologia em tempo real até intervenções de design participativo, co-criação, design relacional e decolonialidade. Essa abordagem incentivou os estudantes a participar ativamente na construção do conhecimento, promovendo uma experiência de ensino situada e colaborativa. A proposta de produção de um artefato individual, combinada com discussões teóricas, permitiu que os saberes abordados fossem incorporados em práticas concretas, evidenciando o potencial do design como ferramenta de diálogo, sensibilidade e intervenção ética. Inspirados pelas reflexões de Caroline Gatt e Tim Ingold (2014) sobre correspondência e antropologia relacional, do Manifesto DAIM (Brandt et al, 2020) sobre experimentação em design, e das perspectivas de Arturo Escobar (2018) sobre design relacional, o artigo explora como práticas para sentipensar o design podem contribuir para mundos pluriversais, éticos e interdependentes a partir das discussões em sala de aula. A pesquisa dialoga ainda com os princípios da investigação-ação participativa de Orlando Fals Borda (1987), articulando teoria, prática e transformação social. Este trabalho tem como objetivo narrar e analisar a experiência de aprender design orientado para uma transição pluriversal. A partir das leituras, atividades coletivas e individuais desenvolvidas na disciplina, busca-se sistematizar práticas que rompem com paradigmas eurocêntricos e antropocêntricos, ressaltando seus processos e implicações éticas e sociais. A disciplina fundamentou-se em uma intersecção de teorias que articulam design, antropologia, participação e estudos decoloniais, estabelecendo uma abordagem crítica, relacional e situada. Partindo da compreensão de que o design vai além da técnica e da produção de objetos, explorou-se seu potencial como prática cultural, política e ontológica, capaz de corresponder, dialogar e cocriar com contextos e comunidades. A antropologia em tempo real proposta por Caroline Gatt e Tim Ingold (2013) contribui com a ideia de que a pesquisa não se limita a observar fenômenos sociais e culturais, mas se engaja ativamente em processos de correspondência com o mundo. Essa perspectiva rompe o dualismo entre sujeito e objeto, destacando que o conhecimento emerge da interação, da atenção cuidadosa e da reciprocidade. Entrelaçada com o design, essa abordagem convida a compreender projetos não como produtos finais, mas como processos vivos que respondem e se transformam em diálogo com pessoas, territórios e contextos. Nesse mesmo horizonte processual e situado, o design participativo foi trabalhado a partir das contribuições de Eva Brandt, Thomas Binder e Elizabeth Sanders (2012), que defendem a centralidade do telling, making e enacting. Essa tríade propõe a integração de narrativas pessoais e coletivas, materializações de ideias em objetos e encenações de futuros possíveis, promovendo experiências imersivas, colaborativas e críticas. O Manifesto DAIM (Halse et al., 2010) reforça que intervenções de design não são métodos lineares de solução de problemas, mas estratégias abertas e especulativas que exploram hipóteses e cenários, transformando a prática em espaço de experimentação e aprendizado coletivo. As reflexões de Escobar, Ostrawa e Sharma (2024) sobre design relacional e pluriversal nos deslocam a perceber os processos de vida, reconhecendo a busca pela interdependência radical entre seres humanos, mais-que-humanos, comunidades e ecossistemas. Essa abordagem propõe que o design seja pensado como prática ontológica, capaz de apoiar transições pluriversais, isto é, a coexistência de múltiplas ontologias e modos de vida sem hierarquia, pela construção de um mundo onde caibam muitos mundos. Escobar destaca ainda a importância das “zonas de contato pluriversais”, espaços de conflito, negociação e diálogo entre cosmovisões distintas, nos quais o design pode atuar como mediador ético e relacional. A perspectiva decolonial, fundamentada em Winschiers-Theophilus et. al (2025) e outros, denuncia a colonialidade do poder, do saber e do ser, apontando a necessidade de rupturas epistêmicas e ontológicas. No campo do design, essa crítica se manifesta em diferentes frentes, de acordo com movimentos históricos: na vertente anticolonial, que enfatiza práticas de resistência e libertação, conectando o design a pedagogias críticas e a movimentos de emancipação no Sul Global; na perspectiva pós-colonial, que problematiza representações, subalternidade e a construção de espaços híbridos de convivência epistemológica; na dimensão decolonial, que propõe rupturas frente ao projeto moderno-colonial, valorizando saberes locais e práticas de sentipensar <omitido para revisão cega> e corazonar (Arias, 2010); e, por fim, na abordagem pluriversal, reconhece a coexistência de múltiplos mundos e ontologias, fomentando um design transcultural, mais-que-humano e comprometido com redes de cuidado, respeito e experimentação. Nesse ponto, a disciplina e pesquisa militante e engajada dialoga com a investigação-ação participativa (IAP) e o sentipensar de Orlando Fals Borda (Fals Borda, Rahman, 1991), que defende a produção de conhecimento em coautoria com comunidades locais, integrando memória, afetos e lutas sociais. A noção de sentipensar, desenvolvida a partir de Fals Borda e retomada por <omitido para revisão cega>, para a teoria e prática do design propõe a integração entre sentimento e pensamento, razão e emoção, teoria e prática. Levada ao design, essa perspectiva orienta a construção de processos colaborativos, éticos e sensíveis, reafirmando que o design não é neutro, mas um ato situado de engajamento político, social e cultural. Assim, a fundamentação teórica da disciplina se assenta em um conjunto de perspectivas que reposicionam o design como prática relacional, decolonial e pluriversal. O diálogo entre antropologia, participação, decolonialidade e ética do cuidado evidencia que o design contemporâneo não deve apenas resolver problemas, mas criar oportunidades de transformação, reflexão crítica e construção coletiva de futuros possíveis. Ao longo da disciplina, que tinha como proposta o desenvolvimento de um artefato a partir das afetações geradas pelos encontros, fui me deixando atravessar pelas leituras, discussões e experimentações coletivas. Cada aula, conduzida e orientada pela professora mobilizava-nos a refletir não apenas sobre o design como campo de estudo, mas também sobre nossos percurso como pesquisadores(as) e designers. Na minha graduação, havia aprendido uma forma mais clássica de se fazer design digital, centrada em processos técnicos, mercadológicos e lineares. Entretanto, a vivência nesta disciplina provocou um amadurecimento da minha percepção, abrindo espaço para compreender o design como prática cultural, relacional e situada, atravessada por dimensões éticas, políticas e decoloniais. Antes de me aprofundar nas leituras e debates, cheguei a pensar em desenvolver, como artefato, uma série de postagens para o Instagram, em formato de carrosséis informativos. Contudo, à medida que nos engajávamos coletivamente nos deslocamentos teóricos propostos em sala, essa ideia me parecia limitada, presa a um modelo acelerado e produtivista de comunicação. Passei a sentir que precisava criar algo que fosse capaz de traduzir mais fielmente a experiência da disciplina, mas ainda não sabia exatamente o quê. Nesse processo, meu lugar de fala e minha trajetória também pesaram: sendo uma sertaneja cearense morando em Recife, muitas vezes me sentia distante de casa e atravessada pelas exigências da vida contemporânea, marcada pelo excesso de tempo diante das telas. Curiosamente, era ao ir para as aulas, ouvir, ler e discutir coletivamente que eu encontrava força e inspiração para continuar pesquisando e criando no mestrado. Esses momentos me afastavam do consumo automático das redes e me faziam querer desenhar, escrever, pintar, experimentar — deixar fluir os aprendizados de forma sensível e manual. Percebemos também que esse movimento não era apenas individual: havia (e há) uma crescente busca, sobretudo nas redes, por práticas que resgatam atividades manuais como forma de resistência ao vício das telas e à lógica da produtividade ininterrupta. Encontramos referência nesse fenômeno em exemplos como palavras-cruzadas, crochê, tricô, pintura, leitura, ilustrações e produtos artesanais que circulam em plataformas digitais e projetos criativos (Carvalho, 2025). Movidas por essa vontade de desacelerar e de resgatar a manualidade no processo criativo,decidi então desenvolver um livrinho de atividades para designers, que unisse práticas lúdicas e reflexivas ao conteúdo teórico discutido em sala. Esse minilivro tornou-se meu artefato e, mais do que um produto, foi um processo de tradução sensível do percurso da disciplina. Nele, tem atividades como caça-palavras sobre termos ligados ao design relacional, palavras-cruzadas abordando conceitos de antropologia em tempo real, desenhos para colorir representando autores, cenas da sala de aula e elementos decoloniais, além de exercícios de reflexão guiada. A proposta era incentivar não apenas o aprendizado, mas também a introspecção, a imaginação e o diálogo entre teoria e prática. O processo de desenvolvimento se deu em etapas interligadas: organização das leituras e resumos dos textos, elaboração dos desenhos, experimentações gráficas e diagramação. Cada decisão visual e estrutural do livrinho foi atravessada pelo princípio do sentipensar — integrando intuição, emoção e lógica. Dessa forma, o artefato passou a refletir a própria proposta da disciplina: aprender design como prática de atenção, presença, diálogo e co-criação. O minilivro “brincando com o design” emergiu como um artefato que materializa a integração entre teoria, prática e sensibilidade. Mais do que um produto finalizado, ele funcionou como espaço aberto de experimentação e diálogo, permitindo que conceitos complexos fossem explorados de forma acessível e lúdica. Ao longo da sua criação, <omitido para revisão cega>, percebi que ele sintetizava não apenas os conteúdos da disciplina, mas também os deslocamentos e afetos que atravessaram meu processo de aprendizagem. Entre os principais resultados da experiência, destacamos a possibilidade de traduzir leituras densas e debates teóricos em exercícios tangíveis, promovendo tanto o engajamento cognitivo quanto afetivo. O artefato possibilitou momentos de atenção, pausa e presença, funcionando como convite à desaceleração e à manualidade em meio ao excesso de telas. Ele também integrou teoria e prática de modo orgânico, consolidando aprendizados por meio da ação — ao desenhar, colorir, escrever e interagir com as atividades, a própria prática se tornava uma forma de reflexão. Além disso, o minilivro dialogou diretamente com epistemologias decoloniais, já que a proposta de atividades lúdicas e corporificadas rompeu com o paradigma eurocêntrico de transmissão racionalista do conhecimento, abrindo espaço para o sentipensar e para a imaginação pluriversal. Esse processo revelou que o design não é apenas ferramenta de representação ou resolução de problemas, mas um meio de gerar experiências, provocações, diálogos e transformações. A disciplina nos engajou em um percurso para repensar o papel dos designers e reconhecer deslocamentos importantes, tornando-se o que reconhecemos como as principais lições aprendidas em sala de aula. A reconfiguração da prática, na qual designers deixam de ser executores(as) de soluções pré-definidas e passam a atuar como participantes ativos(as) em contextos sociais complexos. O foco se desloca de produtos acabados para processos vivos, colaborativos e situados, atentos às emergências do mundo real. Na disciplina e no artefato, percebemos como o aprendizado se torna mais significativo quando envolve participação ativa, prática reflexiva e engajamento coletivo. A co-criação permite integrar saberes locais e experiências de vida, fortalecendo diálogos entre diferentes epistemologias. A necessidade da crítica ao paradigma moderno-colonial, fundamental para o design na busca por um pluriverso nos leva a reconhecer os limites do produtivismo e das referências eurocêntricas tradicionais abre espaço para práticas que valorizam a interdependência, a diversidade e a coexistência de mundos múltiplos. Possibilitando, assim, enxergar o design como ferramenta de transformação social: inspirada por Fals Borda, aprendemos como fazer um design como prática ética e política, capaz de apoiar processos de resistência e libertação. Assim, entendemos em sala de aula o valor da integração entre pensamento e sentimento e o princípio do sentipensar que esteve presente em todo o processo. Essa integração nos ajudou a compreender o design não apenas como raciocínio projetual, mas como prática ética, afetiva e responsiva. Os resultados desta experiência vão além do artefato em si: dizem respeito ao deslocamento teórico dado aos alunos e as alunas, como pesquisadores e designers. A criação do minilivro foi, simultaneamente, exercício de síntese e prática de transformação — uma forma de incorporar no fazer os aprendizados da disciplina e, ao mesmo tempo, projetar futuros possíveis a partir de uma postura mais sensível, crítica e decolonial. A disciplina demonstrou, de maneira clara e consistente, a potência de um ensino situado, crítico e decolonial no campo do design. Ao articular teoria, prática e experimentação, o percurso formativo abriu espaço para que os(as) estudantes reconhecessem o design não apenas como uma técnica instrumental ou como produção de artefatos estéticos e utilitários, mas como uma prática cultural, política e relacional. O processo de criação do minilivro, enquanto artefato sensível, foi essencial para mim, em meu processo de aprendizagem. Ao longo dessa experiência, percebi que o design pode se constituir como ferramenta de diálogo, espaço de experimentação e campo de intervenção ética, deslocando o foco da produtividade acelerada e linear para práticas mais conscientes, reflexivas e situadas. O artefato produzido materializa princípios centrais cultivados ao longo da disciplina: a correspondência com o mundo, inspirada em Gatt e Ingold; a prática do sentipensar, retomada de Fals Borda (1987 apud Rappaport, 2020) e <omitido para revisão cega>; a reflexão crítica sobre pluriverso e decolonialidade, conforme proposto por Escobar, Ostrawa e Sharma (2024); e a criação de espaços de aprendizagem colaborativa e experiencial. Ao propor pausas, atenção ao corpo, exercícios lúdicos e momentos de introspecção, o minilivro funcionou como gesto consciente de desaceleração e cuidado, desafiando a lógica eurocêntrica e produtivista ainda dominante em grande parte das práticas de design. O estudo dos textos que fundamentaram a disciplina reforçou que o design contemporâneo precisa superar dicotomias clássicas — sujeito/objeto, razão/emoção, teoria/prática — que marcaram fortemente o pensamento moderno-colonial. O design se apresenta, a partir dessas perspectivas, como prática situacional e relacional, capaz de engajar comunidades, territórios e ecossistemas em processos de co-criação e aprendizagem mútua. Essa visão reposiciona o designer, que deixa de ser mero solucionador de problemas para tornar-se participante ativo em redes de cuidado, mediação e transformação. As abordagens discutidas — antropologia em tempo real , design participativo, intervenções experimentais e reflexões decoloniais — convergem na defesa de um design ético e crítico, comprometido com a sensibilidade, a memória histórica e o pluralismo ontológico. Nesse horizonte, o design deixa de ser apenas a produção de objetos funcionais e passa a ser compreendido como prática de transformação social, política e cultural. Isso implica desafiar hegemonias epistêmicas, valorizar saberes locais e fomentar modos de vida pluriversais, reconhecendo que o mundo é composto por múltiplas ontologias que coexistem e se entrelaçam. Assim, pode-se afirmar que os textos estudados e a experiência vivida oferecem bases teóricas, metodológicas e éticas para repensar o design como prática de diálogo, transformação e pluralidade. O design contemporâneo, quando entendido a partir dessa chave, torna-se capaz de imaginar, experimentar e apoiar a construção de futuros diversos, interdependentes e comprometidos com a vida em todas as suas dimensões.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

FREITAS, Elígia Filgueiras de; IBARRA, Maria Cristina. APRENDER NO PLURIVERSO: REFLEXÕES SOBRE SABERES COMPARTILHADOS EM DISCIPLINA DE DESIGN ANTROPOLOGIA.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1297956-APRENDER-NO-PLURIVERSO--REFLEXOES-SOBRE-SABERES-COMPARTILHADOS-EM-DISCIPLINA-DE-DESIGN-ANTROPOLOGIA. Acesso em: 22/05/2026

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