DESIGNANTROPOLOGIA E AS NARRATIVAS DAS MULHERES DO PROJETO FLORES DO MORRO

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-18  
Título do Trabalho
DESIGNANTROPOLOGIA E AS NARRATIVAS DAS MULHERES DO PROJETO FLORES DO MORRO
Autores
  • Tatiana Castro
  • Raquel Noronha
  • Kátia Andrea Carvalhaes Pego
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Género y Cuerpo
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1296765-designantropologia-e-as-narrativas-das-mulheres-do-projeto-flores-do-morro
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Designantropologia. Narrativa. Autonomia. Artesanato.
Resumo
Resumo Pensadores contemporâneos do design concordam que esse campo do saber pode colaborar na diminuição das crises ambientais, econômicas e sociais. Tal como, aderindo a abordagens que potencializam as subjetividades e narrativas das comunidades. Nesse sentido, esse resumo propõe reflexão metodológica sobre pesquisa realizada ao longo das aulas de costura em região de vulnerabilidade social, com o objetivo de investigar a contribuição de projetos mediados pelo design para a autonomia das mulheres participantes. O percurso em campo foi realizado sob as perspectivas em Designantropologia (DA) (Noronha, 2023), das práticas de "Correspondências" (Ingold, 2011; 2018) e do método "Histórias de vida" (Nogueira et al., 2017), em que as participantes trabalharam relatos do cotidiano e memórias por meio dos artesanatos que produziram. A pesquisa demonstrou o potencial do DA para a superação da vulnerabilidade pela narrativa e por meio do design. Palavras-chaves: Designantropologia. Narrativa. Autonomia. Artesanato. Resumen Los pensadores contemporáneos del diseño coinciden en que este campo del conocimiento puede ayudar a mitigar las crisis ambientales, económicas y sociales, adoptando enfoques que empoderan las subjetividades y narrativas de las comunidades. En este sentido, este resumen propone una reflexión metodológica sobre la investigación realizada durante las clases de costura en una región socialmente vulnerable, con el objetivo de investigar la contribución de los proyectos mediados por el diseño a la autonomía de las mujeres participantes. El trabajo de campo se realizó desde las perspectivas de la antropología del diseño (AD) (Noronha, 2023), las prácticas de "Correspondencias" (Ingold, 2011; 2018) y el método "Historias de Vida" (Nogueira et al., 2017), en el que las participantes desarrollaron narrativas y recuerdos cotidianos a través de las artesanías que produjeron. La investigación demostró el potencial de la AD para superar la vulnerabilidad mediante la narrativa a través del diseño. Palabras clave: Antropología del Diseño. Diseño Participativo. Autonomía. Artesanía. Abstract Contemporary design thinkers agree that this field of knowledge can help mitigate environmental, economic, and social crises, adopting approaches that empower communities' subjectivities and narratives. In this sense, this summary proposes a methodological reflection on research conducted during sewing classes in a socially vulnerable region, to investigate the contribution of design-mediated projects to the autonomy of the participating women. The fieldwork was conducted from the perspectives of Design anthropology (DA) (Noronha, 2023), "Correspondences" practices (Ingold, 2011; 2018), and the "Life Stories" method (Nogueira et al., 2017), in which participants developed daily narratives and memories through the crafts they produced. The research demonstrated the potential of DA to overcome vulnerability through narrative and through design. Keywords: Designanthropology. Participatory Design. Autonomy. Craftsmanship. Resumo expandido Projetos mediados pelo design e atuantes juntamente às comunidades periféricas urbanas, têm o intuito de colaborar, sobretudo com a independência financeira desses grupos. Certamente uma das habilidades do design, entretanto, de acordo com Manzini (2019) e Bonsiepe (1978) o design pode ultrapassar estas habilidades tradicionais por ser capaz de apresentar soluções inovadoras mediante as atuais crises ambientais, econômicas e sociais e de conectar as pessoas com os territórios em que elas vivem, reatando a confiança, as trocas e os diálogos entre elas. Nesta perspectiva, os profissionais de design devem atuar diretamente na tentativa de descolonização deste campo - ao requerer uma prática socialmente construída COM, PARA e PELAS pessoas, mediada pelos espaços, lugares, mensagens e elementos do cotidiano – capaz de trazer maneiras particulares de ser, conhecer e fazer. É um grande desafio para os designers pensar sobre autonomia permitindo que os pluriversos existam e se manifestem (Escobar, 2016), pois o modus operandi ainda está vinculado aos padrões dominantes, tanto em termos de narrativa quanto ao pensamento, totalmente desvinculados dos saberes tradicionais (Noronha, 2018). O foco na reconstrução de subjetividades fortalece as comunidades, desenvolvendo sua capacidade de se tornarem agentes de mudança e colaborando para a ruptura do pensamento colonial-opressor (Escobar, 2016; Fry, 2018; Latour, 2020). De acordo com Izídio, Farias e Noronha (2022), entre pesquisadores e artesãs esse processo só se concretiza - livres da cooptação do modus operandi dominante - no encontro das diferenças, onde acontece uma transformação genuína nas pessoas envolvidas. Alinhado com estas questões, este texto é um relato de experiência sobre prática realizada pelas autoras, juntamente com um grupo de mulheres que compõem o Projeto (nome oculto), situado no aglomerado (nome oculto), na cidade (nome oculto). Durante o período de três anos, a primeira autora conduziu aulas de costura que, além do ensino da técnica, tinham como objetivo compreender o reconhecimento da autonomia por meio das participantes do projeto. Buscamos, por meio deste resumo, refletir metodologicamente sobre esta prática localmente situada, realizada juntamente com mulheres a partir de 50 anos de idade, em sua maioria autodeclaradas negras, moradoras de uma região vulnerável socialmente, provedoras da renda familiar e, na maior parte dos casos, atuavam sozinhas, sem marido e com filhos. As aulas de costura tiveram planejamento prévio, mas como eram pautadas no fazer e nas respostas obtidas pelas intersubjetividades, a atenção, cuidado e escuta possibilitaram a percepção do que emergia nas experiências e na construção coletiva. Caroline Gatt e Tim Ingold (2013) descrevem como educação da atenção a disponibilidade de escuta e abertura para experiência do outro, que torna possível aprender e se transformar. Este pensamento e ação propicia a criação de um espaço onde a observação participante se transforma em uma prática de correspondência, ao permitir que os processos fluam espontaneamente, distantes das amarras e métodos controlados, acatando a improvisação, a criação de novos cenários e a cocriação de alternativas possíveis para o presente e para o futuro (Halse, 2010). Portanto, este percurso teve como base as práticas de correspondências em Designantropologia (Noronha, 2023), em que a pesquisadora afetou e foi afetada pelas relações, pelo ambiente, pelas histórias de vida das artesãs, suas necessidades concretas, seus desejos e medos. Ao conversar umas com as outras e com a pesquisadora durante as aulas, por este ser ainda um momento de socialização para as mulheres, elas discorriam sobre a comunidade e sobre suas histórias de vida, narravam e rememoravam suas experiências, como parte do contar histórias. Suas narrativas descreveram um modo de explanação pessoal (de seus saberes, influências, inspirações, determinações) em seu tempo e espaço vividos. Segundo Farias e Noronha (2024, p. 104), "[...] o design pode contribuir na construção e contação das histórias plasmadas no fazer artesanal, promovendo o reconhecimento de saberes tácitos e a preservação de heranças histórico-culturais". Portanto, estes diálogos tornaram-se dispositivos para a pesquisa, para os temas bordados e para as pinturas realizadas após as peças costuradas. Além de ornamentar, estes fazeres portam o potencial para a promoção da autonomia feminina, tanto no âmbito econômico, como na denúncia das relações de gênero e resistência política (Allucci, 2019), por trazerem questões estratégicas sobre a identidade, o território e as memórias das mulheres. As histórias narradas pelas mulheres frequentemente estavam ligadas às histórias do (nome oculto). Assim, a representação do território pelos olhos e percepção das mulheres estiveram presentes durante todo o percurso do fazer artesanal, enfatizando o engajamento no mundo, para compreender a vida e suas interações como uma rede sendo tecida (Ingold, 2012). Esta configuração permite que as comunidades pratiquem design nelas mesmas e ao fazerem isso, criam um sistema de aprendizado sobre si, criando também formas próprias de viver (Escobar, 2016). Em várias peças produzidas pelas mulheres (sacolas, almofadas, bolsas, estandartes), foram representadas suas casas, seus jardins, construções antigas ou atuais do morro, assim como paisagens deste território. Em um destes trabalhos idealizado coletivamente, as mulheres realizaram bordados sobre fotografias antigas do (nome oculto) e de seus moradores, impressas digitalmente em tecidos. Os poucos registros do território encontrados foram obtidos no Acervo Público da cidade de (nome oculto). As mulheres e os moradores conhecidos não tinham estas imagens. No momento em que as imagens foram apresentadas às mulheres, demonstraram bastante surpresa. Passaram algum tempo observando em silêncio e em seguida eufóricas, começaram a sondar entre elas, onde estavam localizadas exatamente aquelas paisagens, construções, ruas e quem eram as pessoas retratadas. Manifestaram contentamento ao constatar uma mudança significativa no lugar em que viviam. Cláudia disse repetidas vezes: "Nossa favela era feia demais, gente! Melhorou demais!" Nesse momento todas se uniram por meio das histórias e narrativas que contavam sobre as imagens. Ingold (2015) descreve essa forma de pensamento como conhecimento narrativo, segundo ele, nesses momentos em que o conhecimento é gerado, em um processo contínuo de aprendizagem que se dá pela experiência e pela atenção direcionada aos elementos do mundo, que são então organizados e comunicados como narrativas. As participantes decidiram o que seria bordado em cada uma das fotografias impressas, quais seriam as interferências, os novos elementos, os outros cenários criados, as outras realidades para as pessoas e para as paisagens ali representadas, no sentido de compreender o real e inventar o visionário (Halse, 2010). Os grupos constroem e compartilham lembranças com base em interações sociais, culturais, institucionais; portanto, estas novas interpretações e elementos das interações entre elas traziam atualização da história e das memórias coletivas. Conforme Noronha e Abreu (2021), "[...] o artefato e o processo artesanal tornam-se rastros tangíveis de histórias, que se externam e se tornam explícitas por meio de sua contação: o modo em que os seus praticantes valoram e comunicam sobre suas tradições e sua ancestralidade" (Farias; Noronha, 2024, p. 105). Assim, as mulheres decidiram representar nos bordados objetos que povoavam seus universos lúdicos e de desejo. Bordaram a bicicleta tão sonhada por Terezinha em um dos quadros. Em outro, uma pipa na mão das crianças que estavam na laje de uma casa. Tininha sugeriu bordar uma roupa de bailarina em outra criança e um jogo de amarelinha no chão de um conjunto de prédios recém-construídos no momento da fotografia. Enquanto as mulheres construíram estes objetos, relataram satisfação por se sentirem capazes de realizar algo que antes era inimaginável por elas. Em alguns casos, inclusive, confessaram que essa descrença já havia sido confirmada anteriormente por pessoas próximas. Lívia, por exemplo, em um dos encontros confidenciou: "Minha mãe falou que eu nunca ia aprender a costurar e na primeira aula com você, já fiz uma capa de almofada". Assim, por meio desse processo, ao contar suas histórias, as mulheres tinham a oportunidade de ressignificá-las (Bosi, 2003; Nogueira et al., 2017). Ao narrarem essas histórias, as mulheres estavam rememorando suas experiências e compartilhando de maneira verbal, como parte do contar histórias, assim como acontece nas tradições orais. As mulheres eram como avós contando histórias para as crianças. Elas são parte da ancestralidade de um povo e de um lugar, por isso ao narrar, elas passam a viver um processo complexo no qual se relacionam, interagem, se integram socioculturalmente, num movimento integrador dos tempos históricos: o passado serve como fonte de energia para o presente e para o futuro, e vice-versa. Ainda em diversos momentos, novas percepções foram apontadas por elas, relacionadas à maior autonomia nas tomadas de decisões e escolhas. A pesquisa demonstrou o potencial do DA para para superação da vulnerabilidade da narrativa pelo design que "mundifica" o mundo (Ingold, 2012) e como a correspondência na relação com as mulheres pode abrir possibilidades pesquisas em design e para a atuação de diversas abordagens no âmbito do design politicamente engajado, em direção à um comprometimento com as pessoas e com os processos para além dos produtos, em um percurso progressivo de conscientização e de reconstrução das subjetividades, corpos, natureza e dos territórios. Referências ALLUCCI, Renata Rendelucci. Una aguja, una lámpara, un telar. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 3, 2019, p. 1-14. BONSIEPE, G. Teoría y práctica del diseño industrial: elementos para una manualística crítica. Editorial Gustavo Gili. Barcelona. 1978. p. 254. BOSI, E. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. ESCOBAR, A. Autonomía y diseño: la realización de lo comunal. Colômbia: Sello Editorial, 2016. FARIAS, L. 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Strategic Design Research Journal, São Leopoldo: Unisinos, v. 11, n. 2, 2018.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

CASTRO, Tatiana; NORONHA, Raquel; PEGO, Kátia Andrea Carvalhaes. DESIGNANTROPOLOGIA E AS NARRATIVAS DAS MULHERES DO PROJETO FLORES DO MORRO.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1296765-DESIGNANTROPOLOGIA-E-AS-NARRATIVAS-DAS-MULHERES-DO-PROJETO-FLORES-DO-MORRO. Acesso em: 22/05/2026

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