POR UMA ABORDAGEM MAIS INCLUSIVA DO DESIGN INCLUSIVO

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-38  
Título do Trabalho
POR UMA ABORDAGEM MAIS INCLUSIVA DO DESIGN INCLUSIVO
Autores
  • Isabella de Souza Sierra
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Participación
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1296190-por-uma-abordagem-mais-inclusiva-do-design-inclusivo
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Design inclusivo, Teoria Crip, Interseccionalidade, Design Justice
Resumo
Este trabalho apresenta uma reflexão crítica e possibilidades futuras para o design inclusivo, articulando suas origens, desenvolvimentos teóricos e práticas, bem como a incorporação desse campo no Programa de Pós-Graduação em Design da [oculto], a partir de um panorama dos trabalhos realizados nos últimos dez anos. O Design Inclusivo, inicialmente associado às décadas de 1970 e 1980 e vinculado a abordagens como o Design Universal (Universal Design) nos Estados Unidos, buscava atender ao maior número possível de pessoas, independentemente de suas capacidades físicas, sensoriais ou cognitivas (Persson et al., 2015). Historicamente, a ênfase do design inclusivo é direcionada principalmente às pessoas com deficiência, entendidas como o público prioritário para a superação de barreiras físicas e comunicacionais. Essa ênfase foi fundamental para o avanço de políticas de acessibilidade e para a produção de Tecnologia Assistiva, promovendo maior autonomia e participação social. Apesar de fundamentais, essas propostas muitas vezes tratam os usuários como um grupo homogêneo, sem considerar identidades, subjetividades e sistemas de opressão que atravessam as pessoas. Paralelamente, movimentos sociais liderados por pessoas com deficiência questionaram a centralidade do modelo médico e propuseram uma compreensão mais ampla das barreiras sociais e ambientais que limitam a participação plena, dando origem aos Disability Studies, que reconheceram as pessoas com deficiência como protagonistas de suas próprias experiências e reivindicaram que a inclusão deveria ser compreendida como responsabilidade da sociedade (Goodley, 2017; Oliver, 1990). A partir desse contexto, o design inclusivo pode passar ser compreendido não apenas como prática projetual, mas como uma abordagem ética e política que valoriza a diversidade e promove equidade no acesso a produtos, serviços e ambientes (Clarkson et al., 2013; Steinfeld; Maisel, 2012). Ainda que inicialmente tenha-se concentrado nas pessoas com deficiência, sugere-se que esse campo pode ser expandido para incluir a pluralidade de corpos, identidades e contextos, deslocando o olhar da assistência técnica para a participação ativa dos sujeitos na criação de soluções (Costanza-Chock, 2020; Pullin; Higginbotham, 2010; Haraway, 1995). Essa mudança implica reconhecer que as pessoas são atravessadas por múltiplos sistemas de opressão e que o design pode contribuir para transformações sociais ao integrar subjetividades, saberes localizados e experiências interseccionais (Crenshaw, 1991; Haraway, 1988). Nesse sentido, pergunta-se se o Programa de Pós-Graduação em Design da [oculto] tem consolidado o design inclusivo como área de pesquisa e prática, articulando teoria e aplicação em projetos acadêmicos e pedagógicos. Para mapear esse percurso, foram analisados 192 trabalhos defendidos entre 2015 e 2025, categorizados segundo marcadores sociais como gênero, raça, classe, deficiência e idade, além da presença ou não de práticas contextualizadas e participativas. Assim, os títulos dos trabalhos desses últimos 10 anos foram categorizados conforme sua abordagem declarada de gênero, raça, classe social, habilidade (ou deficiência), idade, outros processos de nomeação da diferença e, por fim, quanto ao envolvimento direto de usuários finais no projeto. Dos 192 trabalhos, 54 (32,1%) declararam explicitamente marcador de opressão que se distancia do padrão heteronormativo, branco, sem deficiência e de classe média alta, perfil que frequentemente é tomado como referência universal no design de produtos (Garland-Thomson, 2011; Haraway, 1989). Ainda, apenas 12 (6,2%) trabalhos abordaram a interseccionalidade considerando até duas categorias sociais da diferença. Esses resultados apontam para a importância de dedicar maior atenção aos marcadores de opressão e aos fatores que incluem ou excluem as pessoas abordadas nos trabalhos. Bem como para a explicitação desse público nos títulos e descrições das pesquisas. Em relação ao gênero, 10 trabalhos (5,2%) discutiram esse marcador. Destes, todos, exceto um, focaram em mulheres; e um abordou a questão do gênero neutro como ponto de discussão no desenvolvimento de produtos. Quatro desses trabalhos (2%) apresentaram recortes interseccionais envolvendo, especialmente, raça, mulheres gordas e mães. Cabe destacar que os trabalhos que focalizaram mulheres e questões de gênero foram todos produzidos a partir de 2019, o que evidencia uma atualização ainda muito recente da agenda de pesquisa em relação a debates de gênero (Butler, 1990; Crenshaw, 1991), sem contemplar, inclusive, discussões sobre sexualidade. Sobre raça, apenas um dos 192 trabalhos tratou especificamente de um grupo não branco. Esse fator é preocupante e pode ser parcialmente compreendido a partir do processo histórico de colonização que moldou a população brasileira. No entanto, ainda não há uma discussão clara no programa acerca das identidades não brancas, nem sobre como abordar esses temas nas pesquisas. Chama a atenção que a etnia considerada nesse único trabalho foi a amarela, ou asiática, em contraste com a expressiva proporção da população preta e indígena na sociedade brasileira. Esse dado evidencia também a falta de representatividade dessas populações dentro da própria pós-graduação (da Silva; Takeiti, 2021). Em relação à classe social, apenas quatro trabalhos (2%) discutiram este marcador, todos relacionados a populações de baixa renda, grupos marginalizados ou projetos sociais. Nenhum deles apresentou uma consideração interseccional do público. O marcador social mais recorrente, como esperado, foi a deficiência, presente em 32 trabalhos (16,1%). Como já discutido por autores como Hamraie (2017) e Pullin (2009), o design inclusivo é frequentemente associado apenas a pessoas com deficiência, o que se reflete nas pesquisas do programa. Dentre esses trabalhos, a maioria abordou pessoas cegas (12). Também foram identificados estudos sobre deficiência motora (3), surdez (2) e autismo (2). Outros seis trabalhos trataram de doenças, enquanto cinco discutiram a deficiência de forma genérica, com foco em acessibilidade e Tecnologia Assistiva. Considerando a interseccionalidade nos trabalhos voltados à deficiência, sete trabalhos incluíram recortes envolvendo pessoas idosas ou crianças. Apenas dois consideraram o desenvolvimento em parceria com pessoas com deficiência, o que revela uma lacuna importante, já que práticas participativas são fundamentais para a inclusão (Sanders; Stappers, 2008; DiSalvo et al., 2012). No que diz respeito à idade, 16 trabalhos (8%) abordaram esse marcador: 12 sobre crianças e quatro sobre pessoas idosas. Todos, exceto um, associaram a idade à deficiência. O único trabalho que não seguiu esse padrão investigou o letramento digital de pessoas idosas. Por fim, 22 (11,4%) trabalhos discutiram processos de desenvolvimento junto aos usuários, empregando metodologias como design colaborativo (8), design centrado no usuário (6), cocriação (5) e codesign (2). Observa-se que esses elementos estão presentes, mas ainda tratados com pouca profundidade e com mais da metade desses trabalhos (13) associados com públicos não localizados (nomeadamente adultos heteronormativos brancos sem deficiência de classe média). Há poucas análises interseccionais, o que indica a importância de considerar que as pessoas vivem atravessadas por múltiplos marcadores sociais (Crenshaw, 1991; Ahmed, 2012). Ampliar essas perspectivas pode enriquecer o campo e tornar as práticas de design mais inclusivas e contextualizadas. A partir do mapeamento apresentado, se debruça sobre a seguinte questão: como a abordagem do design inclusivo pode ser estendida, aprofundada e atualizada à luz dos desafios contemporâneos? Para além da consolidação de práticas projetuais voltadas à acessibilidade, propõe-se uma reflexão crítica sobre os referenciais teóricos que sustentam essa abordagem, apontando para a necessidade de constante revisão e ampliação de suas bases conceituais. A expansão do design inclusivo passa, portanto, pela incorporação de teorias e campos do conhecimento que problematizam as estruturas de exclusão e as relações de poder que atravessam os corpos, as identidades e os modos de viver. Nesse sentido, se propõe o diálogo com cinco abordagens fundamentais: os Disability Studies, a teoria Crip, a teoria Queer, os estudos interseccionais e o Design Justice. Ao integrar esses referenciais, busca-se ampliar a compreensão de inclusão, reconhecendo as múltiplas formas de exclusão e opressão que se entrelaçam em contextos sociais diversos. Os Disability Studies surgiram como um campo interdisciplinar que desloca a compreensão da deficiência do âmbito puramente biomédico para o contexto social, cultural e político. Essa abordagem entende que a deficiência não é apenas uma característica individual, mas um produto das barreiras impostas por uma sociedade que não contempla a diversidade humana (Goodley, 2017; Hamraie, 2017; Oliver, 1990). Nos Disability Studies, há um forte protagonismo de pessoas com deficiência, que reivindicam o direito de narrar suas próprias experiências e participar ativamente da construção de saberes. Os estudos interseccionais, fundamentados inicialmente pelos feminismos negros e por autoras como Kimberlé Crenshaw, propõem uma análise das interações entre diferentes marcadores sociais, como raça, classe, gênero, deficiência, sexualidade, idade, entre outros. A Interseccionalidade reconhece que as formas de opressão não atuam isoladamente, mas se entrelaçam e produzem desigualdades específicas (Crenshaw, 1991; Butler, 1990). No design inclusivo, essa abordagem permite uma escuta mais atenta às experiências múltiplas e complexas dos usuários e projetistas pesquisadores, promovendo soluções mais contextualizadas e socialmente sensíveis. Já a Teoria Queer e mais recentemente a Teoria Cuir desafia as normatividades de gênero e sexualidade, propondo uma leitura crítica das estruturas que impõem modelos binários e excludentes. Oferece ferramentas conceituais para desestabilizar ideias fixas de identidade, funcionalidade e valor social (Rea; Amancio, 2018; Carponi Neto, 2015). No design inclusivo, essa perspectiva ajuda a refletir sobre como normas de gênero, aparência, comportamento e desejo também moldam o que é considerado um “usuário padrão” e, consequentemente, influenciam decisões projetuais. A teoria Crip, por sua vez, emerge dos Estudos da Deficiência, como uma crítica radical aos padrões normativos de corpo, funcionalidade e produtividade. Inspirada na teoria Queer, a perspectiva Crip propõe uma desnaturalização das ideias de normalidade e celebra a diferença como potência criativa (Mcruer, 2021; Mery Karlsson; Rydström, 2023). O termo “crip” ressignifica uma gíria pejorativa para se afirmar como identidade política, abrindo espaço para corpos e formas de vida que não se encaixam nas normas capacitistas. No contexto do design, essa teoria convida a pensar soluções que não apenas acomodam a diferença, mas que a tomem como ponto de partida para imaginar outros futuros possíveis. Já a abordagem do Design Justice (justiça no design) explora como o design pode ser conduzido por comunidades marginalizadas, de modo a desconstruir desigualdades estruturais e promover a libertação coletiva e a sobrevivência ecológica. O design justice é uma prática que busca explicitamente desafiar, em vez de reproduzir, desigualdades estruturais. Essa abordagem surge de uma comunidade crescente de designers em diferentes áreas que trabalham em estreita colaboração com movimentos sociais e organizações comunitárias em diversas partes do mundo (Costanza-Chock, 2020). Ao integrar essas abordagens ao campo do design inclusivo, amplia-se a compreensão do que significa projetar para a inclusão. Mais do que adaptar produtos para atender a requisitos técnicos de acessibilidade, trata-se de promover uma prática de pesquisa e projetual crítica, reflexiva e comprometida com a transformação social. Essa ampliação teórica oferece caminhos para que o design se torne uma ferramenta mais eficaz na promoção da justiça, da equidade e do respeito à pluralidade das existências humanas. O percurso apresentado neste trabalho evidencia a relevância do design inclusivo como campo de reflexão e prática comprometido com a promoção de equidade, acessibilidade e justiça social. Ao revisitar a trajetória de uma década do programa de pós-graduação em Design da [oculto], foi possível observar como os conceitos ampliados de inclusão vêm sendo apropriados e transformados por meio de projetos, pesquisas e ações pedagógicas. Esses movimentos caminham para a inclusão de pessoas atravessadas por sistemas de opressão, destacando-se, em especial, as pessoas com deficiência, que têm sido com maior frequência integradas às pesquisas. No entanto, também se torna urgente expandir esse entendimento, incorporando perspectivas que abordem a inclusão de forma mais ampla, crítica e interseccional. Nesse sentido, os diálogos com os Estudos da Deficiência, a Teoria Crip, a Teoria Queer, os Estudos Interseccionais e o Design Justice, oferecem contribuições valiosas para repensar quem são os sujeitos do design, quais vozes têm sido ouvidas e quais experiências têm sido consideradas legítimas nos processos de criação. O design inclusivo, entendido como um sistema ético, político e projetual, não se limita à eliminação de barreiras físicas, mas propõe a transformação das próprias estruturas que produzem exclusão. Ao tomar como ponto de partida a diversidade de corpos, vivências e identidades, o design se reconfigura como um campo potencialmente transformador, capaz de imaginar futuros mais plurais, solidários e sensíveis à complexidade da vida humana. As possibilidades de expansão dessa abordagem, tanto em termos teóricos quanto práticos, apontam para a importância de revisitar constantemente os fundamentos do design, questionando normas e abrindo espaço para a escuta de saberes localizados e experiências marginalizadas. Por fim, defende-se a importância de promover uma articulação mais intensa entre esses campos teóricos e o fazer projetual, visando o fortalecimento de práticas de design que sejam, de fato, transformadoras. Com isso, o design deixa de ser apenas uma resposta técnica a demandas sociais e passa a ser um instrumento ativo na construção de um mundo mais inclusivo, onde todos possam habitar, participar e criar com dignidade. Ao olhar para o que foi feito e ao projetar o que ainda pode ser construído, reafirma-se o papel da universidade e da formação acadêmica como espaços de invenção coletiva, crítica e comprometida com os valores da inclusão, da equidade e da transformação social.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

SIERRA, Isabella de Souza. POR UMA ABORDAGEM MAIS INCLUSIVA DO DESIGN INCLUSIVO.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1296190-POR-UMA-ABORDAGEM-MAIS-INCLUSIVA-DO-DESIGN-INCLUSIVO. Acesso em: 22/05/2026

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