ANALISAR E FABULAR: PRÁTICAS SITUADAS NA CONFLUÊNCIA ENTRE DESIGN E ANTROPOLOGIA

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-1  
Título do Trabalho
ANALISAR E FABULAR: PRÁTICAS SITUADAS NA CONFLUÊNCIA ENTRE DESIGN E ANTROPOLOGIA
Autores
  • Ísis Helena Daou Robalinho de Azevedo
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Participación
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1295327-analisar-e-fabular--praticas-situadas-na-confluencia-entre-design-e-antropologia
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Bandeira Nacional. Análise Relacional. Design e Antropologia. Fabulação Especulativa.
Resumo
Resumo Esta pesquisa analisa um conjunto de imagens que mobilizam e transformam a bandeira nacional brasileira entre 2013 e 2023. O interesse não está apenas nos usos técnicos ou gráficos do símbolo, mas nas disputas, afetos e fabulações que ele desencadeia. A partir de uma análise relacional, apoiada em Gatt e Ingold (2013), Haraway (1995, 2023) e Stengers (2023), proponho uma abordagem situada e responsiva, em que o método se constrói no próprio contato com as imagens. A investigação envolveu tanto a coleta em redes sociais e ruas quanto a experimentação com ficções especulativas, escritas a partir de parte do material. Nesse percurso, o design e a antropologia se encontram na prática de acompanhar imagens em sua pluralidade, reconhecendo sua dimensão política, crítica e imaginativa. Palavras-chaves: Bandeira Nacional. Análise Relacional. Design e Antropologia. Fabulação Especulativa. Resumen Esta investigación analiza un conjunto de imágenes que movilizan y transforman la bandera nacional brasileña entre 2013 y 2023. El interés no reside solo en los usos técnicos o gráficos del símbolo, sino en las disputas, afectos y fabulaciones que desencadena. A partir de un análisis relacional, inspirado en Gatt e Ingold (2013), Haraway (1995, 2023) y Stengers (2023), propongo un enfoque situado y responsivo, en el que el método se construye en el propio contacto con las imágenes. La investigación incluyó tanto la recopilación de materiales en redes sociales y espacios urbanos como la experimentación con ficciones especulativas, escritas a partir de parte del archivo. En este recorrido, el diseño y la antropología se encuentran en la práctica de acompañar imágenes en su pluralidad, reconociendo su dimensión política, crítica e imaginativa. Palabras clave: Bandera Nacional. Análisis Relacional. Diseño y Antropología. Fabulación Especulativa. Abstract This research examines a set of images that mobilize and transform the Brazilian national flag between 2013 and 2023. The focus is not only on the technical or graphic aspects of the symbol, but on the disputes, affects, and fabulations it generates. Through a relational analysis inspired by Gatt and Ingold (2013), Haraway (1995, 2023), and Stengers (2023), I propose a situated and responsive approach, where the method is built through direct engagement with images. The investigation combined the collection of materials from social networks and urban spaces with the experiment of writing speculative fictions inspired by part of the archive. In this process, design and anthropology converge in the practice of following images in their plurality, recognizing their political, critical, and imaginative dimensions. Keywords: National Flag. Relational Analysis. Design and Anthropoly. Speculative Fabulation. Esta pesquisa parte da observação de um conjunto de imagens que mobilizam e transformam a bandeira nacional brasileira ao longo da última década. Entre 2013 e 2023, acompanhei versões alteradas desse símbolo nacional que circularam em ruas, exposições e, sobretudo, nas redes sociais digitais. Reuni um acervo de 338 imagens, mas mais do que chegar a números ou classificações fixas, o que me interessou foi perceber como esse repertório visual expressa disputas, afetos e imaginários que atravessam o Brasil contemporâneo. A bandeira, longe de ser apenas um artefato gráfico, tornou-se um campo de disputa: apropriada, sequestrada, criticada e reinventada, tornou-se imagem de dissenso estético, sempre instável e aberta a múltiplos sentidos. O caminho metodológico que adotei não foi o de aplicar um protocolo rígido, mas o de acompanhar as imagens e me deixar afetar por elas. Apoiei-me na noção de pesquisa como prática de correspondência (Gatt e Ingold, 2013), nos saberes situados (Haraway, 1995, 2023) e na defesa de uma ciência lenta (Stengers, 2023). Isso significou cultivar um tempo de convivência com as imagens: observá-las repetidamente, aproximá-las em grupos, reorganizá-las, dar nomes provisórios e testar leituras. A análise relacional, como chamei esse procedimento, não buscou um significado único ou definitivo, mas o movimento constante de estabelecer relações — entre imagens, entre imagens e contexto, entre imagens e pesquisadora. O método se fez na prática, na fazer a partir dos encontros, e implicou reconhecer que observar é também se implicar, corresponder, tornar-se parte do que se estuda. Nesse sentido, a coleta não foi apenas um meio para chegar a resultados, mas uma prática de pesquisa em si. Inspirada pela metáfora da cesta da ficção (Le Guin, 1989), pensei a coleta como gesto de reunir fragmentos dispersos, muitas vezes marginais, e lhes dar espaço para contar histórias que escapam às narrativas oficiais. Ao olhar para essas imagens, percebi que elas não apenas falam do passado recente do país, mas também projetam futuros possíveis. A análise, então, não se restringiu a classificar as imagens, mas a acompanhar como elas abrem brechas para crítica, afirmação ou fabulação. A conjuntura brasileira deu espessura a esse material. A partir das manifestações de 2013, símbolos nacionais foram retomados nas ruas, inicialmente em chave de contestação popular (Sousa e Braga, 2021; Santos Júnior, 2019). Poucos anos depois, o mesmo verde e amarelo passou a sinalizar um campo conservador, marcado por discursos de ódio e práticas autoritárias (Pinto, 2019; Saratt da Silva, 2021). Durante o governo Bolsonaro, a bandeira se associou fortemente à extrema direita, e pendurá-la numa janela era muitas vezes lido como declaração de voto. Mas nesse mesmo período, uma multiplicidade de vozes passou a responder a essa apropriação, produzindo imagens críticas, paródicas, poéticas. A bandeira virou campo de disputa simbólica: ora rejeitada, ora defendida, ora reimaginada. No exercício da análise relacional, percebi três movimentos principais. O primeiro foi o das imagens de denúncia e repúdio, que ironizam a bandeira ao associá-la a problemas como destruição ambiental, corrupção ou necropolítica. O segundo foi o das imagens de defesa e afirmação, que tentam resgatar o símbolo em nome de causas coletivas, eleições ou valores de resistência. E o terceiro, talvez o mais instigante, foi o das imagens que se abrem para fabulações especulativas: trabalhos que não apenas criticam ou defendem, mas sugerem outros modos de vida, convidando a imaginar futuros alternativos. Essas fabulações foram incorporadas como parte do próprio método de pesquisa. Neste terceiro grupo, ao invés de apenas descrever as imagens, experimentei escrever narrativas a partir delas, criando histórias que oscilam entre o real e o imaginado. Trata-se do que Haraway (2023) chama de fabulação especulativa: narrativas que não pretendem prever o futuro, mas ampliar nossa capacidade de imaginar, em fricção com o presente. Escrever essas ficções foi uma forma de corresponder às imagens, de me deixar conduzir por elas para territórios que não estavam dados de antemão. Nesse movimento, o design se cruzou com a antropologia não como fronteiras fixas, mas como práticas que compartilham a atenção à vida coletiva, às materialidades e às possibilidades de recomposição. É nesse ponto que percebo aderência com a noção de confluência, proposta por Antônio Bispo dos Santos (2023). Ainda que não tenha orientado metodologicamente a pesquisa desde o início, considero que o termo traduz bem a postura praticada aqui: não se trata de um simples cruzamento disciplinar, mas de um fluxo conjunto, um fazer-com. Para Bispo dos Santos, confluência é a energia que move para o compartilhamento, o reconhecimento e o respeito, em contraste com as lógicas coloniais de separação e excepcionalismo. Essa ideia ressoa com a prática de acompanhar imagens em sua pluralidade, analisando e fabular com elas, numa pesquisa que se constrói no caminhar junto. Esse atravessamento entre design e antropologia é, para mim, o ponto mais rico desta pesquisa. O design, entendido para além de um campo profissional ou mercadológico, aparece como prática de composição, capaz de dar forma a disputas e imaginários. A antropologia, por sua vez, contribui com uma atitude de escuta e de abertura para o que emerge do campo, lembrando que pesquisar é corresponder. Ao unir essas perspectivas, a análise relacional se torna não apenas um método para estudar imagens, mas uma proposta de pesquisa situada, ética e criativa, que reconhece a parcialidade da visão e a potência de se implicar com o que se observa. No percurso, também se tornaram visíveis as tensões próprias do design ativismo, especialmente no ambiente digital. A hashtag #designativista no Instagram foi uma das principais fontes de coleta, reunindo milhares de postagens. Esse material mostra tanto a força do engajamento visual quanto certos limites, como a homogeneização estética ou a predominância de imagens voltadas mais à denúncia do que à imaginação de futuros. Ainda assim, essa produção revela o potencial de circulação e de ampliação da consciência política que imagens digitais carregam, sobretudo quando entendidas não apenas como peças de comunicação, mas como parte da construção de subjetividades coletivas. Ao final da pesquisa, o que fica não é apenas um panorama sobre usos da bandeira, mas a experiência de conviver com imagens e deixar que elas transformem a forma de pesquisar. Essa convivência prolongada, em contraste com a fugacidade típica das redes sociais, permitiu observar nuances, repetições e variações que escapam ao olhar rápido. Reunir, nomear, reorganizar e fabular com as imagens se tornou uma forma de aprender com elas, mais do que sobre elas. A experiência também revelou limitações: a leitura apresentada é fruto da minha perspectiva individual, sem diálogo sistemático com criadores ou com públicos que interagiram com as imagens. Outros olhares certamente trariam interpretações diferentes, e futuras investigações poderiam se abrir a práticas coletivas, oficinas de especulação ou pesquisas sobre recepção digital. Ainda assim, o exercício mostrou que é possível pensar o design como prática de pesquisa crítica e imaginativa, em diálogo estreito com a antropologia, atenta aos modos como as imagens participam da vida social. Concluir esta pesquisa foi também reconhecer que o design, entendido como prática de recomposição, nos ajuda a enxergar o que já existe, mas muitas vezes passa despercebido. A bandeira, nesse sentido, não é apenas um símbolo nacional, mas uma imagem de disputa e de invenção, onde cabem críticas, defesas e sonhos. Observar sua trajetória recente no Brasil foi uma forma de refletir sobre como as imagens participam da constituição do comum, e sobre como podemos praticar outras formas de imaginar, resistir e projetar futuros. Referências (omitido para revisão cega) GATT, Caroline; INGOLD, Tim. From Description to correspondence: Anthropology in real time. In: GUNN, Wendy; OTTO, Ton; SMITH, Rachel Charlotte (eds). Design Anthropology: theory and practice. London; New York: Bloomsbury, 2013. p. 242-274. HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41, 1995. HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. São Paulo: n-1 edições, 2023. LE GUIN, Ursula K. A ficção como cesta: uma teoria. Tradução: Priscilla Mello; Revisão: Ellen Araujo; Marcio Goldman. The Carrier Bag Theory of Fiction [1986]. In: ______. Dancing at the Edge of the World – Thoughts on Words, Women, Places. New York: Grove Press, 1989. PINTO, Céli Regina Jardim. A trajetória discursiva das manifestações de rua no Brasil (2013-2015). In: SOLANO, Esther; ROCHA, Camila (orgs.). As direitas nas redes e nas ruas: a crise política no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2019. p. 15-53. SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/ PISEAGRAMA, 2023a. SANTOS JÚNIOR, Marcelo Alves dos. 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Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
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Como citar

AZEVEDO, Ísis Helena Daou Robalinho de. ANALISAR E FABULAR: PRÁTICAS SITUADAS NA CONFLUÊNCIA ENTRE DESIGN E ANTROPOLOGIA.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1295327-ANALISAR-E-FABULAR--PRATICAS-SITUADAS-NA-CONFLUENCIA-ENTRE-DESIGN-E-ANTROPOLOGIA. Acesso em: 22/05/2026

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