DESIGN E AS RELAÇÕES ANTROPOLÓGICAS DO ARTESANATO COM ESPÉCIES VEGETAIS NA AMÉRICA LATINA

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-16  
Título do Trabalho
DESIGN E AS RELAÇÕES ANTROPOLÓGICAS DO ARTESANATO COM ESPÉCIES VEGETAIS NA AMÉRICA LATINA
Autores
  • Nadja Maria Mourão
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Artesanía y Economía Solidaria
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1287601-design-e-as-relacoes-antropologicas-do-artesanato-com-especies-vegetais-na-america-latina
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Design, Artesanato, Espécies Vegetais, América Latina.
Resumo
O artesanato latino-americano, em especial aquele produzido a partir de fibras e outros insumos das espécies vegetais locais, representa não apenas uma prática produtiva, mas um campo simbólico de grande relevância. As técnicas empregadas carregam consigo dimensões históricas, espirituais e sociais, configurando-se como expressão da relação entre humanos e natureza. Para além da materialidade dos objetos, há um diálogo constante entre práticas culturais e sistemas ecológicos. Nesse sentido, o design, compreendido como campo interdisciplinar que articula estética, função e inovação, pode atuar como mediador entre tradições artesanais e demandas contemporâneas de sustentabilidade. Contudo, esse diálogo só se torna fecundo quando reconhece as especificidades epistemológicas das comunidades envolvidas (Canclini, 1997; Escobar, 2016). De acordo com Vidal (2017), a atuação do design no campo do artesanato deve priorizar o fortalecimento de sua essência, compreendida como pertencimento e identidade cultural. Essa dimensão constitui parte fundamental da cadeia produtiva artesanal, cuja finalidade é assegurar condições de sustentabilidade para comunidades e territórios. Sob uma perspectiva antropológica, o artesanato não se restringe a um produto material, mas configura-se como expressão simbólica de vínculos sociais, cosmologias locais e modos de habitar o mundo (Geertz, 1989). Nesse sentido, os recursos materiais e os procedimentos técnicos empregados na cocriação de artefatos no âmbito do design artesanal transformam-se em marcas distintivas de um lugar, de uma forma de pensamento e de um tempo histórico específico, revelando as interações entre natureza, cultura e sociedade. Na mesma direção, Soto (2006) ressalta a relevância da continuidade do artesanato, enfatizando sua capacidade de adaptação mediante processos de inovação que conciliam referências tradicionais com demandas contemporâneas de produtos e serviços. A partir de um olhar antropológico, essa permanência é compreendida não apenas como manutenção de técnicas, mas como salvaguarda de identidades coletivas e de saberes ancestrais (Ingold, 2012). Tal articulação promove a valorização das práticas artesanais no contexto atual, permitindo que elas se renovem sem perder sua essência, ao mesmo tempo em que reafirma a importância da diversidade cultural como patrimônio imaterial fundamental para o bem-estar social e para a preservação dos ecossistemas. Dessa forma, o presente artigo busca refletir sobre as relações antropológicas entre design e artesanato com materiais das espécies vegetais dos biomas na América Latina, propondo um olhar crítico e decolonial. Destaca-se que, muito antes da colonização espanhola e portuguesa, os povos que habitavam o continente das américas possuíam culturas específicas, entre lutas e conquistas, formando suas histórias, uma extensa diversidade, como maias, astecas, incas, toltecas, conforme Quijano (2003). Os incas, calchaquíes, tzotziles, olmecas, maias, guaranis, tupis, entre outros, são alguns exemplos que os colonizadores unificaram, denominando-os índios, uma palavra que não existia na região (Mariuzzo, 2023). Na atualidade, as noções de raça e etnia são analisadas como construções socioculturais e históricas. Dessa forma, a identidade indígena não é uma categoria fixa, mas varia de acordo com os contextos temporais e os agentes envolvidos em sua definição ou discriminação gerados durante o período de colonização da América Latina, conforme a CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, (2015). Perspectivas que enfatizam diferenças baseadas na cor da pele ou em características biológicas tendem a naturalizar a existência dos povos indígenas. Em contraste, a definição étnica ressalta elementos como a língua, as práticas culturais e as referências históricas que os próprios grupos utilizam para afirmar sua ancestralidade e identidade (Longhini, 2013). Deste modo, para além das fronteiras territoriais, os trabalhos artesanais na América Latina constituem práticas enraizadas na história e na cultura de diferentes comunidades. Entre os povos indígenas e tradicionais, técnicas como a cerâmica, a tecelagem e a cestaria com fibras vegetais representam não apenas expressões estéticas e funcionais, mas também formas de transmissão intergeracional de conhecimentos e de preservação da memória coletiva (Geertz, 1989; Ingold, 2012). O artesanato com insumos vegetais locais, em particular, evidencia uma relação intrínseca entre materialidade e natureza, na medida em que a extração e o manejo sustentável das fibras reforçam a identidade cultural e a cosmovisão dos povos originários, que concebem o ambiente como parte indissociável de sua existência social e espiritual (De la Cadena, 2018; Escobar, 2016). De acordo com Geertz (1989) compreende o design como parte das teias de significados que constituem as culturas. Ao trabalhar com fibras vegetais como o buriti, a palha de milho, o bambu e o tucum, comunidades latino-americanas reafirmam seu vínculo com a natureza e constroem práticas identitárias. Nesse sentido, Ingold (2012) propõe a ideia de fazer como conhecimento incorporado, destacando que o aprendizado artesanal se dá pela experiência sensorial e pelo gesto. Para caracterizar o conceito de design autônomo, Escobar (2016) enfatiza que cada sociedade deve elaborar seu próprio design, levando em conta suas especificidades locais e os valores presentes em seu território. Essa perspectiva nos convida a repensar os papéis sociais dos designers, pois, segundo o autor, todo ato de design possui uma dimensão ontológica, configurando modos de existir e de interagir com o mundo. Reforça-se a necessidade de pensar o design latino-americano a partir de suas especificidades históricas, afastando-se de modelos eurocêntricos. Escobar (2016) e Quijano (2005) chamam atenção para a importância da decolonialidade, ou seja, para a superação de epistemologias coloniais que subalternizam o conhecimento indígena e popular. No caso do artesanato com insumos das espécies vegetais locais, isso significa reconhecer que a relação com a floresta e com os ciclos naturais não é apenas recurso econômico, mas parte de uma cosmologia em que o humano está em simbiose com o não humano. Esta é uma pesquisa qualitativa de caráter bibliográfico e exploratório, apoiada em autores dos campos da antropologia, sociologia e design. Foram analisados estudos de caso sobre comunidades artesãs nos Andes peruanos, na Amazônia brasileira e no Chile. As fontes incluem artigos acadêmicos, relatórios de projetos de extensão e registros etnográficos. Em análises, o estudo revela-se como um processo em que design e cultura se entrelaçam. Nos Andes peruanos, a tecelagem com materiais vegetais ultrapassa a dimensão da subsistência, configurando-se como prática espiritual e cultural profundamente vinculada à cosmovisão andina. Trata-se de um fazer que expressa valores de reciprocidade e gratidão para com a Pachamama - Mãe Terra (De la Cadena, 2015). Essa divindade está presente em outras culturas da América Latina, principalmente nos Andes, em países como Bolívia, Equador, Chile e partes da Argentina - que compartilham as raízes culturais, inclusive das relações com a Pachamama. Mas, em Cusco, no Peru, há um dia dedicado a Pachamama, com eventos populares. No caso de Chinchero, a produção têxtil permanece essencialmente artesanal. As artesãs empregam a lã de alpacas, que é tingida com pigmentos obtidos a partir de cascas de árvores, folhas, flores, minerais e até insetos, reafirmando um legado técnico e simbólico transmitido entre gerações. Muitos dos símbolos usados nos tecidos representam animais sagrados dos Andes, como alhama, o condor e o puma, ou elementos da natureza, como as montanhas e os rios. Esse processo evidencia o papel da tecelagem como patrimônio imaterial, em que a materialidade do objeto revela tanto a identidade coletiva quanto o diálogo constante entre natureza e cultura (Arnold; Espejo, 2013). Na Amazônia brasileira, o uso de fibras e sementes, como o tucum (Astrocaryum vulgare) e o buriti (Mauritia flexuosa), revela a complexidade das relações entre conhecimento tradicional, sustentabilidade ambiental e inserção em mercados contemporâneos. O tucum, por exemplo, possui um forte valor simbólico entre povos indígenas e comunidades ribeirinhas, sendo utilizado na confecção de anéis e colares que representam alianças comunitárias, resistência cultural e identidade étnica. As sementes beneficiadas da palmeira Janira (Phytelephas macrocarpa) são consideradas o “marfim da Amazonia”. As sementes da Janira são grandes e claras como marfim, utilizadas para produção de pequenas esculturas de diversos modelos de biojoias, utilizando a coloração local – produtos de comunidades amazonenses. Conhecido como a “árvore da vida, o buriti (Mauritia flexuosa) em diversas regiões amazônicas, possui múltiplas utilidades: suas fibras são empregadas na produção de cestarias, redes, cordas e biojoias, enquanto seus frutos são utilizados na alimentação e em práticas medicinais (Mourão, 2011). O trabalho artesanal com o buriti preserva técnicas tradicionais de extração e beneficiamento das fibras, que envolvem um manejo cuidadoso para não comprometer a vitalidade da planta, estabelecendo um equilíbrio entre uso econômico e conservação ambiental (Homma, 2014). Acrescenta-se, inclusive, que além dos povos indígenas, o linho da palmeira do buriti é utilizado em técnica de crochê em comunidades do Maranhão (principalmente em Barriguinhas), do Ceará, da Bahia e do noroeste de Minas Gerais. O linho, retirado do topo das folhas do buritizeiro, desfiando, beneficiado com cores diversas, torna-se matéria prima nas mãos de crocheteiras (Oliveira, Mourão, Castro, 2020). A produção artesanal com esses insumos vegetais evidencia a adaptabilidade dos saberes locais. Ao mesmo tempo em que dialogam com demandas contemporâneas - como a valorização de produtos sustentáveis, a estética ecológica e o consumo ético, esses artefatos mantêm vínculos profundos com a memória cultural e os sistemas de crenças das comunidades produtoras (Carneiro da Cunha, 2009). Assim, o design, quando aliado a esse repertório de conhecimentos, não apenas amplia a inserção dos produtos em circuitos de comércio justo e mercados criativos, mas também fortalece a continuidade de práticas ancestrais que reafirmam identidades coletivas e cosmologias amazônicas. No Chile, o artesanato com fibras vegetais revela uma profunda interconexão entre ecologia, cultura e identidade coletiva, constituindo um campo específico de análise para a antropologia. No norte, comunidades aymara utilizam a totora (Schoenoplectus californicus) para a confecção de esteiras, cestos e embarcações tradicionais, enquanto no sul, no arquipélago de Chiloé, fibras como quina (Aextoxicon punctatum) e ciperáceas nativas são transformadas em cestos, cordas e utensílios domésticos, refletindo formas específicas de organização comunitária e de adaptação às condições insulares (Bengoa, 2000; Serrano, 2014). O artesanato chileno preserva saberes locais e fortalece a identidade comunitária, promovendo ao mesmo tempo o uso sustentável dos recursos naturais. Apesar das diferenças ecológicas e técnicas entre essas regiões, observa-se um conjunto de princípios comuns: a valorização das práticas tradicionais como patrimônio cultural, a preservação ambiental por meio de manejo consciente das fibras vegetais e a adaptação às demandas contemporâneas sem comprometer a identidade simbólica das comunidades. Do ponto de vista antropológico, essas práticas não podem ser compreendidas apenas como técnicas utilitárias, mas como expressões de um sistema simbólico mais amplo, que articula memória, território e identidade. Conforme aponta Lévi-Strauss (1989), o artesanato traduz uma “ciência do concreto”, em que os materiais do meio ambiente são reelaborados culturalmente, adquirindo sentidos sociais que ultrapassam sua função prática. Nesse sentido, o artesanato com fibras vegetais no Chile evidencia uma racionalidade ecológica que preserva recursos naturais por meio de técnicas de manejo consciente, ao mesmo tempo em que fortalece laços comunitários e garante a continuidade dos saberes tradicionais. Apesar das diferenças regionais, observam-se princípios comuns que consolidam o artesanato como patrimônio cultural imaterial: a valorização das práticas ancestrais, a preservação ambiental e a capacidade de adaptação frente às demandas contemporâneas. Assim, as relações humanas com o território devem ser analisadas de uma forma ampla, pois há elementos que se interagem em um fluxo contínuo, que se estruturam na dimensão socioambiental. Conforme Santos (2015, p. 47), “o território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi”. O artesanato com insumos vegetais, nesses contextos, estabelece um elo entre cultura, natureza e mercado, oferecendo oportunidades para o design sustentável e para a promoção de produtos que integram tradição, estética e consciência ecológica. Do ponto de vista antropológico, a prática artesanal se insere em uma rede de significados que reafirma identidades coletivas (Geertz, 1989). Design e Antropologia são campos de conhecimento que caminham juntos, abrindo fendas e rupturas nas abordagens tradicionais de ambos, uma vez que, em conjunto, potencializam as críticas à colonialidade (Noronha, 2024). Entretanto, a apropriação inadequada pelo mercado global pode levar à descaracterização cultural, exigindo uma ética de cocriação e respeito (Escobar, 2016). Em consideração, as práticas artesanais com materiais naturais na América Latina devem ser compreendidas como práticas culturais, ecológicas e políticas. O design, ao se aproximar dessas práticas, precisa adotar uma postura dialógica e decolonial, reconhecendo saberes tradicionais como legítimos e indispensáveis para a construção de novos futuros. A articulação entre Antropologia e Design amplia as possibilidades de compreender o artesanato não apenas como produção material, mas como expressão simbólica de mundos em constante resistência e reinvenção. Nesse contexto, o artesanato com fibras vegetais emerge como campo fértil para o debate interdisciplinar entre design, antropologia e sustentabilidade, apontando para a necessidade de fomentar novas perspectivas de pesquisa e de valorização das práticas culturais que contribuem para a preservação ambiental e para a afirmação identitária das comunidades.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

MOURÃO, Nadja Maria. DESIGN E AS RELAÇÕES ANTROPOLÓGICAS DO ARTESANATO COM ESPÉCIES VEGETAIS NA AMÉRICA LATINA.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1287601-DESIGN-E-AS-RELACOES-ANTROPOLOGICAS-DO-ARTESANATO-COM-ESPECIES-VEGETAIS-NA-AMERICA-LATINA. Acesso em: 22/05/2026

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