DESIGN E ANTROPOLOGIA EM DIÁLOGO: PAINEL SEMÂNTICO COMO MÉTODO SENSÍVEL DE PESQUISA NA AMAZÔNIA OCIDENTAL

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-14  
Título do Trabalho
DESIGN E ANTROPOLOGIA EM DIÁLOGO: PAINEL SEMÂNTICO COMO MÉTODO SENSÍVEL DE PESQUISA NA AMAZÔNIA OCIDENTAL
Autores
  • ANALIA OLIVEIRA CORDEIRO
  • Mônica Cristina de Moura
  • Joedy Bamonte
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Método
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1284209-design-e-antropologia-em-dialogo--painel-semantico-como-metodo-sensivel-de-pesquisa-na-amazonia-ocidental
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Design situado; Antropologia; Amazônia; Painel semântico.
Resumo
Este resumo expandido apresenta uma pesquisa que articula design e antropologia por meio do uso do painel semântico como dispositivo de escuta situada no território amazônico. A investigação foi desenvolvida entre Porto Velho e a comunidade ribeirinha de Nazaré, em Rondônia, Amazônia Ocidental, com o objetivo de compreender como um painel visual sensível, reinterpretado como prática situada, pode operar não apenas como ferramenta organizacional do processo criativo, mas como superfície de invenção e mediação simbólica, articulando afetos, memórias e repertórios culturais. Essa abordagem amplia a compreensão usual do painel como recurso técnico de projeto, deslocando-o para o campo da etnografia visual e da escuta sensível, em que o artefato deixa de ser suporte passivo para se constituir em meio ativo de produção de sentido. Ao deslocar o foco do objeto final para o processo, evidencia-se que o painel pode se tornar um espaço relacional, capaz de condensar múltiplas vozes, temporalidades e formas de sensibilidade que atravessam o território. O trabalho se inscreve na perspectiva do design situado e sensível ao território, considerando o fazer projetual como linguagem relacional e poética, capaz de valorizar modos de vida e práticas locais. Mais do que propor um método, busca-se afirmar uma ética do cuidado e da implicação, em que o gesto projetual emerge do diálogo com o lugar e seus habitantes. Nesse sentido, o design não é tratado como disciplina neutra ou universal, mas como prática que se contamina pela cultura, pela oralidade e pelos imaginários locais, assumindo caráter híbrido e processual. Autores como Beccari (2016), Cardoso (2016) e Escobar (2016) oferecem referenciais para compreender o design como linguagem simbólica e prática ontológica, atenta à escuta e à complexidade dos contextos. Escobar, por exemplo, convoca a pensar o design como prática comprometida com mundos plurais, em contraposição às epistemologias universalistas e coloniais, enquanto Beccari explora o caráter metafórico e narrativo do design como linguagem. Em diálogo, Hall (2006) e Canclini (2013) compreendem a identidade cultural como processo em constante negociação, tensionado entre tradições, modernidades e hibridismos. Essa perspectiva permite entender a identidade beradeira não como essência cristalizada, mas como prática social viva, que se reinventa no cotidiano das margens do rio Madeira. Já Loureiro (2001) propõe a noção de imaginário amazônico, em que natureza e cultura se entrelaçam em uma poética territorial, e onde os símbolos da floresta, do rio e das práticas ribeirinhas constituem matrizes de significação e resistência. Esse imaginário, tecido por narrativas míticas e experiências concretas, opera como chave interpretativa para compreender a materialidade amazônica, pois nela se condensam tanto os saberes tradicionais quanto as estratégias de reinvenção contemporânea. Esses aportes permitem pensar o design não como prática técnica e neutra, mas como modo de estar no mundo em interação com contextos e saberes locais, ressignificando objetos e processos a partir da densidade simbólica do território. Metodologicamente, a pesquisa é qualitativa e autoetnográfica (Pontes, 2019), tomando a experiência da pesquisadora como fonte legítima de conhecimento. Isso significa que a trajetória pessoal e afetiva da pesquisadora não é apagada em nome de uma suposta neutralidade científica, mas mobilizada como lente e ferramenta de aproximação. Caminhar, observar, recolher e compor foram entendidos não como etapas técnicas, mas como gestos de implicação com o território, em um movimento em que corpo e ambiente se afetam mutuamente. Trata-se de reconhecer que a própria presença no campo produz conhecimento, e que a vivência encarnada da pesquisadora é também um dispositivo de escuta, atravessado por memórias, percepções e relações de confiança estabelecidas com os moradores. Essa escolha metodológica reforça o vínculo entre design e antropologia, ao aproximar práticas de campo da criação projetual, e sustenta uma postura de escuta ampliada em que o desenho de objetos é inseparável da escuta de histórias, atmosferas e memórias. Essa perspectiva se articula ao pensamento processual de Salles (2011), que concebe a criação como sistema aberto e inacabado, constantemente atravessado pelo erro, pelo acaso e pela variação. Cada gesto, nesse sentido, gera novas possibilidades e prolonga o processo criativo em redes de significação. Também dialoga com a reflexão de Sennett (2009), que enfatiza a inteligência incorporada nos gestos e no saber-fazer artesanal, mostrando como a prática manual carrega dimensões cognitivas e sociais. Ao trazer Sennett para o contexto amazônico, valoriza-se o labor cotidiano das costureiras, artesãs e agricultoras da comunidade, reconhecendo nelas não apenas habilidades técnicas, mas repertórios complexos de conhecimento e criatividade. Esse reconhecimento reforça que o saber-fazer local não deve ser visto como etapa rudimentar do design, mas como campo legítimo de experimentação estética e tecnológica, no qual o gesto manual e a prática comunitária se tornam motores de inovação. O percurso metodológico desenvolveu-se em três movimentos interdependentes. O primeiro consistiu na coleta situada de repertórios materiais e simbólicos, incluindo fotografias de comidas típicas, fragmentos de palha, pigmentos naturais, croquis e desenhos botânicos. Essa etapa foi compreendida como gesto de escuta visual e tátil, na qual elementos banais do cotidiano se tornaram potenciais gatilhos de invenção. A comida, por exemplo, revelou-se vetor de memória coletiva, condensando práticas de cultivo, preparo e partilha que traduzem modos de vida e vínculos comunitários. O ato de recolher e catalogar esses fragmentos não foi neutro, mas carregado de afeto e cuidado, pois implicava reconhecer nos objetos simples uma densidade cultural que frequentemente escapa às narrativas oficiais sobre a Amazônia. O segundo movimento correspondeu à construção do painel semântico, elaborado em camadas de colagens e fragmentos, como prática de recombinação simbólica não linear. Diferentemente de uma simples organização de referências, o painel operou como campo experimental em que imagens, texturas e cores se sobrepunham em arranjos provisórios, ativando conexões inesperadas. Cada colagem não apenas representava, mas também transformava os elementos coletados, criando associações entre corpo, matéria e paisagem. Esse gesto evidenciou o caráter performativo do painel, que não é apenas instrumento de síntese, mas espaço de invenção. A sobreposição de camadas foi interpretada como metáfora da própria cultura amazônica, marcada por encontros, conflitos e recombinações que geram novas formas de expressão. O terceiro movimento compreendeu desdobramentos gráficos e prototipagens exploratórias, em que croquis e ensaios visuais testaram combinações de formas e texturas inspiradas no território. A prototipagem, aqui, não teve como objetivo imediato a produção de objetos finais, mas funcionou como extensão do próprio painel, permitindo que fragmentos simbólicos se traduzissem em possibilidades formais. Durante esse processo, a experimentação com papel, fibras e pigmentos aproximou o gesto da colagem ao gesto artesanal, dissolvendo fronteiras entre pesquisa, arte e design. Essa etapa também revelou a importância da experimentação efêmera e provisória, pois muitos protótipos não sobreviveram fisicamente, mas permaneceram como registros de um processo de invenção coletiva. Durante a montagem do painel emergiram núcleos simbólicos que orientaram a percepção: corpo, comida e frutos; flora; e natureza e imaginação. Esses núcleos funcionam como cartografias sensíveis, capazes de recombinar fragmentos da vida cotidiana e construir narrativas visuais do território. O núcleo do corpo, por exemplo, ativou memórias de danças, festas e gestos cotidianos de trabalho; o da comida e frutos evidenciou a centralidade da mandioca, do peixe e do tucumã na cultura alimentar; já o da flora e da imaginação evocou figuras híbridas entre mito e realidade, como seres encantados da floresta. Esses núcleos não foram impostos pela pesquisadora, mas emergiram da própria dinâmica do material, revelando a potência da prática de escuta sensível em deixar-se surpreender pelas imagens e fragmentos coletados. Entre os experimentos, destacou-se um protótipo em papel inspirado nas cores e formas do tucumã, que exemplificou a potência da prática como tradução visual de vínculos culturais. Esse protótipo, ainda que efêmero e frágil, mostrou como o design pode se aproximar da lógica da colheita e da sazonalidade, incorporando ritmos e temporalidades próprios da Amazônia. O gesto experimental revelou também como a materialidade pode ser tratada não apenas como recurso físico, mas como veículo de narrativas e afetos. Nesse sentido, cada protótipo deixou de ser mero ensaio formal para se tornar dispositivo narrativo, capaz de condensar histórias e memórias em sua própria materialidade. Os resultados evidenciam que o painel semântico, concebido como artefato sensível e epistêmico, contribui para a ativação de narrativas territoriais e amplia o escopo metodológico do design e da antropologia visual. Ao se constituir como espaço de mediação, ele permite integrar elementos díspares — do croqui ao pigmento, da fotografia ao fragmento vegetal — em composições que expandem a percepção do território. Sua principal contribuição está em deslocar o painel semântico de uma função meramente instrumental para um gesto situado e relacional, fortalecendo epistemologias decoloniais e práticas criativas latino-americanas. Assim, o painel torna-se também uma forma de resistência epistemológica, pois reivindica a legitimidade de modos de conhecer que não cabem nas categorias tradicionais de ciência. Entre os desafios identificados, ressalta-se a necessidade de legitimar metodologias poéticas e sensíveis no campo acadêmico, que muitas vezes privilegia métricas de objetividade em detrimento de práticas relacionais. Outro desafio refere-se ao descompasso entre os tempos comunitários e institucionais: enquanto a pesquisa acadêmica exige prazos rígidos, as comunidades operam em ritmos próprios, marcados por ciclos da natureza e por formas coletivas de decisão. Reconhecer e negociar esses tempos torna-se parte constitutiva da prática metodológica, demandando abertura e flexibilidade. Esse aspecto reforça que pesquisar na Amazônia não é apenas aplicar métodos, mas aprender a conviver com tempos outros, respeitando pausas, silêncios e negociações que fazem parte da vida comunitária. Conclui-se que o painel semântico é uma ferramenta que, se apropriada como dispositivo de escuta, oferece um caminho para projetar não sobre o território, mas com o território, integrando corpo, matéria e imaginário em uma mesma superfície simbólica. Ao articular design e antropologia, essa prática evidencia a potência criativa das comunidades amazônicas e aponta para a construção de epistemologias enraizadas, capazes de desafiar paradigmas dominantes e inspirar outros contextos latino-americanos. Mais do que resultado de uma pesquisa específica, o painel semântico figura aqui como proposta metodológica que pode ser mobilizada em diferentes cenários, sempre que se buscar uma escuta que valorize vínculos culturais, saberes locais e modos de vida invisibilizados. Dessa forma, o trabalho contribui não apenas para o campo do design, mas também para o debate mais amplo sobre metodologias de pesquisa no Sul Global, oferecendo subsídios para práticas que desejam articular criação, território e imaginação de maneira ética e situada.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

CORDEIRO, ANALIA OLIVEIRA; MOURA, Mônica Cristina de; BAMONTE, Joedy. DESIGN E ANTROPOLOGIA EM DIÁLOGO: PAINEL SEMÂNTICO COMO MÉTODO SENSÍVEL DE PESQUISA NA AMAZÔNIA OCIDENTAL.. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1284209-DESIGN-E-ANTROPOLOGIA-EM-DIALOGO--PAINEL-SEMANTICO-COMO-METODO-SENSIVEL-DE-PESQUISA-NA-AMAZONIA-OCIDENTAL. Acesso em: 22/05/2026

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