NO SUBMUNDO DA CIDADE: IDENTIDADE E DESIGN NA SUBCULTURA UNDERGROUND EM BELO HORIZONTE (MG, BRASIL)

Publicado em 13/03/2026 - ISBN: 978-65-272-2216-3

DOI
10.29327/1767853.1-34  
Título do Trabalho
NO SUBMUNDO DA CIDADE: IDENTIDADE E DESIGN NA SUBCULTURA UNDERGROUND EM BELO HORIZONTE (MG, BRASIL)
Autores
  • Rafaela Büttner
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Contribuiciones Teóricas
Data de Publicação
13/03/2026
País da Publicação
Brasil | Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1275613-no-submundo-da-cidade--identidade-e-design-na-subcultura-underground-em-belo-horizonte-(mg-brasil)
ISBN
978-65-272-2216-3
Palavras-Chave
Underground, Design, Identidade, Subcultura.
Resumo
A pesquisa intitulada “No submundo da cidade: identidade e design na subcultura underground em Belo Horizonte” é fruto e resultado de uma dissertação de mestrado, que tem como objetivo investigar como as práticas de duas importantes subculturas urbanas – o heavy metal e o hip-hop – articulam identidade, consumo, apropriação dos espaços e design na capital mineira. Tal investigação parte do reconhecimento de que o design, para além de sua função projetual, constitui-se como um processo social capaz de mediar representações, criar vínculos coletivos e expressar visualmente as dinâmicas culturais. Nesse sentido, o estudo insere-se no campo das interseções entre design e antropologia, entendendo as subculturas como fenômenos sociais e comunicacionais que produzem sentidos, configuram territórios e instauram formas próprias de resistência simbólica. A fundamentação teórica da pesquisa buscou compreender a identidade como fenômeno múltiplo e processual. Stuart Hall (2002) orienta parte do debate ao destacar que, na contemporaneidade, as identidades não podem mais ser concebidas como fixas ou estáveis, mas sim como fragmentadas e em constante transformação, refletindo a multiplicidade de pertenças vividas pelos sujeitos. A juventude, em particular, aparece como espaço privilegiado dessa experimentação, sendo tratada por autores como Dayrell (2003) e Peralva (1997) não apenas como fase de transição, mas como condição social dotada de práticas, representações e símbolos próprios. Nessa perspectiva, a pesquisa analisa como jovens ligados ao hip-hop e ao heavy metal em Belo Horizonte constroem suas formas de pertencimento coletivo, utilizando a música, a estética e a ocupação dos espaços urbanos como suportes identitários. O design é compreendido como mediador dessas práticas. Victor Papanek (1971) já apontava a necessidade de pensar o design como prática voltada ao mundo real, enquanto autores contemporâneos como Cardoso (2011) e Escorel (2000) reforçam sua dimensão cultural e política. No caso das tribos urbanas underground, o design manifesta-se em múltiplos suportes: desde a indumentária marcada por camisetas de bandas, patches e acessórios, até os cartazes de shows, flyers, álbuns, grafites e estéticas visuais que circulam nos espaços da cidade. Esses elementos funcionam como sistemas semióticos que não apenas comunicam pertencimento, mas também criam fronteiras simbólicas diante do mainstream e da cultura de massas. A análise parte do reconhecimento de que o underground constitui um movimento de oposição ao consumo massificado, configurando redes de produção e circulação independentes (Cardoso Filho; Janotti Jr., 2006). Ao longo da história, o underground consolidou-se como espaço de resistência às formas hegemônicas de produção cultural, estabelecendo canais alternativos que privilegiam a autenticidade, a subversão e a valorização das margens sociais. No Brasil, o heavy metal encontrou terreno fértil em Belo Horizonte a partir dos anos 1980, transformando a cidade em referência internacional do gênero, enquanto o hip-hop consolidou-se nos espaços públicos desde a década de 1990, promovendo batalhas de MCs, grafites e eventos comunitários. A pesquisa adotou abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada em procedimentos de análise documental, observação teórica e elaboração de matrizes morfológicas como ferramenta de sistematização visual. O uso das matrizes permitiu identificar padrões estéticos, iconográficos e comunicacionais presentes nas subculturas underground, organizando elementos como indumentária, grafite, logotipos, cartazes e ambientações de espaços urbanos. A coleta de dados foi realizada a partir de materiais gráficos, registros visuais e análise de referências bibliográficas, priorizando fontes que abordam a juventude, a contracultura e o design como prática social. Essa triangulação metodológica buscou garantir rigor analítico, possibilitando compreender as conexões entre linguagem visual, práticas culturais e territorialidade. Ao articular teoria e análise empírica, a pesquisa procurou evitar reducionismos, reconhecendo a complexidade das subculturas estudadas e suas múltiplas formas de resistência. A análise dos resultados aponta que as práticas culturais do hip-hop e do heavy metal em Belo Horizonte transcendem a dimensão musical, constituindo-se como formas de apropriação simbólica da cidade. O hip-hop, amplamente presente nos espaços públicos, projeta sua força contestatória ao denunciar desigualdades sociais e raciais, enquanto o heavy metal constrói territórios de resistência através de shows, encontros e redes de apoio comunitário. Ambos os movimentos operam no campo da automarginalidade, reafirmando sua posição contra as convenções sociais dominantes e reivindicando espaços de visibilidade para suas expressões. A relação entre identidade e espaço urbano é central na pesquisa. Inspirando-se em Lefebvre (1991), que propõe a tríade do espaço percebido, concebido e vivido, o estudo interpreta as práticas das subculturas underground como modos de produção do espaço. Os territórios de encontro, os eventos e as apropriações simbólicas transformam a paisagem urbana de Belo Horizonte, ressignificando ruas, praças, viadutos e casas de show. O design, nesse contexto, opera como mediação que conecta as práticas estéticas à experiência espacial, conferindo visibilidade e coesão simbólica às tribos urbanas. As tribos urbanas, conceito central para compreender a pesquisa, são definidas como agrupamentos sociais que compartilham estilos de vida, gostos musicais, práticas culturais e formas de sociabilidade específicas. No contexto contemporâneo, as tribos representam espaços de resistência simbólica, permitindo que indivíduos expressem sua singularidade ao mesmo tempo em que reforçam vínculos coletivos. A literatura sobre juventude e subculturas, como os trabalhos de Peralva (1997), Dayrell (2003) e Freire Filho (2005), evidencia como esses grupos influenciam ativamente os processos de contestação social e de construção identitária. Para além da ideia reducionista de juventude como transitoriedade, essas perspectivas reconhecem os jovens como agentes sociais ativos, capazes de intervir na paisagem cultural e política de seu tempo. A música, nesse processo, emerge como cerno do estudo para agregação social. Desde os anos 1960, estilos musicais têm funcionado como catalisadores de identidades coletivas e motores de mobilização. No Brasil, movimentos como o punk, o rap e o heavy metal configuraram-se não apenas como gêneros musicais, mas como espaços de produção cultural e política. A pesquisa observa como, em Belo Horizonte, a música cumpre função semelhante, estabelecendo territórios simbólicos onde jovens encontram reconhecimento, pertencimento e possibilidade de expressão. O hip-hop, com seus desdobramentos em rap, grafite, dança e moda, e o heavy metal, com suas sonoridades agressivas e estética soturna, constituem universos culturais que produzem identidades coletivas, códigos de comunicação e sistemas de significação próprios. A gênese do underground, remete aos movimentos contraculturais da década de 1960, que propuseram a “grande recusa” ao consumismo e às convenções sociais. Filósofos como Marcuse (1967) e pensadores ligados à contracultura norte-americana defenderam a automarginalidade como estratégia de resistência, incentivando práticas que rejeitavam a integração ao sistema capitalista. Essa perspectiva, ao chegar ao Brasil, dialogou com contextos locais de exclusão social e política, inspirando movimentos que utilizavam a música, a arte e o design como ferramentas de contestação. O heavy metal brasileiro, em particular, encontrou na cidade de Belo Horizonte um terreno fértil para o florescimento de um cenário influente. Desde os anos 1980, a capital mineira ganhou notoriedade internacional como berço de bandas que marcaram o gênero, consolidando um circuito próprio de produção musical, eventos e formas de sociabilidade. Esse processo foi acompanhado pela construção de uma identidade coletiva dos metalheads, baseada na valorização da autenticidade, na resistência a estigmas sociais e na manutenção de práticas culturais independentes. A pesquisa evidencia que, em Belo Horizonte, o metal assumiu papel não apenas estético e sonoro, mas também territorial, criando pontos de encontro, casas de show e espaços alternativos que se tornaram referências para a cena underground. O hip-hop, por sua vez, expandiu-se pelos espaços públicos da cidade, especialmente praças, viadutos e ruas, onde manifestações como batalhas de rima e grafites transformaram a paisagem urbana. O Viaduto Santa Tereza, por exemplo, consolidou-se como território simbólico do movimento, abrigando encontros semanais de MCs e artistas que reivindicam a cidade como espaço de criação e resistência. Essa dimensão territorial reforça a ideia de Lefebvre (1991) sobre a produção social do espaço, em que práticas coletivas resignificam lugares, transformando-os em símbolos de identidade e resistência. Tanto o heavy metal quanto o hip-hop compartilham, portanto, uma estratégia de automarginalidade, ou seja, assumem conscientemente a posição de estarem à margem da sociedade dominante. Essa prática não se limita à estética ou à música, mas se expressa em formas de vestir, de consumir e de ocupar a cidade. Camisetas de bandas, coletes, grafites e logotipos funcionam como signos de pertencimento que reforçam fronteiras simbólicas e comunicam a identidade do grupo. Nesse sentido, o design é central, pois atua como mediador visual que materializa os valores da subcultura. A pesquisa observa também que, apesar de sua posição marginal, essas subculturas possuem forte capacidade de organização e de produção cultural. O metal, por exemplo, criou redes de apoio entre bandas, produtores e público, sustentando uma cena local vibrante que, mesmo sem apoio das grandes mídias, mantém sua relevância. O hip-hop, por sua vez, desenvolveu práticas de formação política e social, abordando questões como desigualdade racial, exclusão e violência urbana. Em ambos os casos, o design se faz presente não apenas como estética, mas como linguagem política e social que comunica valores de resistência e contestação. Essa análise evidencia que as subculturas underground em Belo Horizonte não podem ser compreendidas apenas como fenômenos musicais ou estéticos, mas como movimentos sociais complexos que articulam identidade, consumo, territorialidade e design. Elas contribuem para repensar a cidade como espaço vivo, em constante disputa simbólica, onde diferentes grupos reivindicam visibilidade, reconhecimento e direito à expressão. Chegando à conclusão da pesquisa para elencar os resultados obtidos a partir do olhar propriamente sobre as identidades e pertencimentos estudados, o foco recai sobre o design enquanto fator de identificação dentro das subculturas underground. O ponto de partida é a compreensão de que o design não pode ser reduzido a uma dimensão funcional ou estética, mas deve ser analisado como linguagem social que organiza símbolos, materializa valores e cria códigos compartilhados. Nesse sentido, as expressões visuais do hip-hop e do heavy metal em Belo Horizonte são interpretadas como manifestações do design que fortalecem identidades coletivas e demarcam fronteiras simbólicas diante da cultura dominante. Nesta etapa, a metodologia empregada para compreender essa dimensão incluiu a elaboração de matrizes morfológicas, inspiradas no método de Zwicky (1948) e adaptadas ao campo do design por Pereira (2014). Essas matrizes permitiram sistematizar os elementos visuais das subculturas, analisando vestuário, acessórios, materiais gráficos e ambientações de espaços. No caso do heavy metal, destacam-se as camisetas com logotipos de bandas, os patches costurados em coletes, o uso de couro e metais como signos de resistência e agressividade. No hip-hop, a moda urbana é marcada por bonés, tênis, correntes, camisetas largas e grafites estilizados, todos funcionando como signos de pertencimento e afirmação identitária. Os materiais gráficos também revelaram forte influência nos resultados da pesquisa, já que flyers, cartazes, capas de álbuns e logotipos de bandas ou coletivos de hip-hop constituem exemplos claros da função comunicacional do design. Esses elementos não apenas divulgam eventos e produções, mas também comunicam valores estéticos e ideológicos. A escolha tipográfica, as cores, os símbolos e as composições visuais carregam significados que reforçam a identidade coletiva e estabelecem diálogos com tradições visuais internacionais, ao mesmo tempo em que incorporam elementos locais. O grafite, por exemplo, além de ser expressão artística, configura-se como linguagem urbana que transforma o espaço público em suporte comunicacional, dando visibilidade às vozes marginalizadas. A análise evidencia que o design, nesse contexto, age como um mediador simbólico, articulando os diferentes aspectos que constituem a vida das subculturas underground. Ele traduz em imagens, objetos e ambientes os valores de autenticidade, resistência, contestação e pertencimento que caracterizam tanto o heavy metal quanto o hip-hop. Mais do que decorar ou estilizar, o design atua como catalisador social, reforçando vínculos comunitários e consolidando práticas de resistência cultural. Um aspecto relevante identificado pela pesquisa é o modo como o design contribui para a territorialização dessas práticas. Ao criar identidades visuais consistentes, os grupos conseguem marcar espaços urbanos como seus territórios simbólicos. Casas de show decoradas com iconografia metalhead, praças repletas de grafites ligados ao hip-hop e até mesmo o vestuário coletivo nos eventos funcionam como dispositivos de territorialização que afirmam a presença das subculturas na cidade. Nessa perspectiva, o design participa ativamente da produção do espaço urbano, tornando visíveis sujeitos e coletivos que historicamente foram marginalizados. Assim, os resultados indicam que tanto o heavy metal quanto o hip-hop compartilham a lógica da automarginalidade e do “faça você mesmo”, desenvolvendo práticas de autoprodução que dispensam a lógica do mercado cultural hegemônico. Essa postura fortalece a autonomia e a autenticidade dos grupos, ao mesmo tempo em que os coloca em constante confronto com as normas sociais dominantes. O design, nesse processo, é ferramenta essencial de visibilidade, permitindo que essas vozes marginais sejam reconhecidas e fortalecendo a coesão simbólica dos coletivos. Como uma consideração final, o estudo das subculturas underground em Belo Horizonte permite compreender o design como prática social profundamente enraizada em processos de identidade e territorialidade. O hip-hop e o heavy metal, ao produzirem seus próprios signos, estéticas e linguagens visuais, evidenciam como o design é apropriado para expressar resistências, construir sociabilidades e ressignificar espaços urbanos. A contribuição da pesquisa ao campo do design e da antropologia está em demonstrar que a análise das culturas urbanas marginalizadas revela dinâmicas criativas que não se restringem ao âmbito estético, mas envolvem modos de vida, redes de solidariedade e disputas simbólicas. Em um contexto latino-americano marcado por desigualdades sociais e pela invisibilização de determinados grupos, investigar essas práticas contribui para ampliar a compreensão do papel do design na mediação cultural e na produção de identidades coletivas. Outro ponto relevante da conclusão é a identificação dos desafios que emergem nesse campo de pesquisa. Entre eles, destaca-se a necessidade de metodologias que deem conta da complexidade das práticas urbanas e culturais, integrando dimensões visuais, sonoras, espaciais e sociais. O uso das matrizes morfológicas mostrou-se eficiente como ferramenta analítica, mas a autora reconhece que futuros estudos podem ampliar essa abordagem, incorporando etnografias presenciais e colaborações mais intensas com os próprios sujeitos das subculturas. Por fim, a dissertação reafirma que o underground, em suas múltiplas expressões, é campo fértil para pensar a relação entre design, identidade e cidade. As práticas do hip-hop e do heavy metal em Belo Horizonte não apenas produzem estética e música, mas revelam formas de apropriação simbólica que questionam a lógica excludente da cidade e propõem novas formas de viver e significar o espaço urbano. Nesse sentido, a pesquisa contribui para compreender o design como prática situada, capaz de dar visibilidade a vozes marginalizadas e de reforçar o potencial criativo e contestatório das culturas urbanas latino-americanas.
Título do Evento
I Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Cidade do Evento
São Luís
Título dos Anais do Evento
Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI

Como citar

BÜTTNER, Rafaela. NO SUBMUNDO DA CIDADE: IDENTIDADE E DESIGN NA SUBCULTURA UNDERGROUND EM BELO HORIZONTE (MG, BRASIL).. In: Cuaderno de Resúmenes del Encuentro de Antropología y Diseño en América Latina. Anais...São Luís(MA) ENES-Morelia / UNAM, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-encuentro-diseno-y-antropologia-america-latina/1275613-NO-SUBMUNDO-DA-CIDADE--IDENTIDADE-E-DESIGN-NA-SUBCULTURA-UNDERGROUND-EM-BELO-HORIZONTE-(MG-BRASIL). Acesso em: 15/05/2026

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