A FOME COMO MANIFESTAÇÃO DA NECROPOLÍTICA EM QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA

Publicado em 06/07/2026 - ISBN: 978-65-272-2556-0

Título do Trabalho
A FOME COMO MANIFESTAÇÃO DA NECROPOLÍTICA EM QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA
Autores
  • Aline de Souza Barreto
  • Cássio Roberto Borges da Silva
Modalidade
Resumo expandido
Área temática
Ciências humanas
Data de Publicação
06/07/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/i-conagac-congresso-nacional-agregando-conhecimento-697414/1587659-a-fome-como-manifestacao-da-necropolitica-em-quarto-de-despejo--diario-de-uma-favelada
ISBN
978-65-272-2556-0
Palavras-Chave
Carolina Maria de Jesus; Quarto de despejo; necropolítica; fome; Achille Mbembe.
Resumo
A FOME COMO MANIFESTAÇÃO DA NECROPOLÍTICA EM QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA (1) Aline de Souza Barreto PPGCEL - UESB e-mail: alinesbarreto@gmail.com Orientador: Cássio Roberto Borges da Silva PPGCEL/UESB e-mail: cassioroberto.borges@uesb.edu.br Resumo Este resumo expandido tem como objetivo analisar a relação que se estabelece entre a fome, elemento onipresente na obra Quarto de Despejo: diário de uma favelada ([1960] 2020), de Carolina Maria de Jesus, e o conceito de necropolítica, apresentado no ensaio “Necropolítica” ([2003] 2016) por Achille Mbembe, em diálogo com a noção de biopoder desenvolvida por Michel Foucault na obra Em Defesa da Sociedade ([1976] 2005). A metodologia adotada na pesquisa é bibliográfica e qualitativa, com procedimento analítico-interpretativo. Por vezes, encarada como um fenômeno natural ou como um destino inevitável para a população marginalizada da favela, descrita na obra de Carolina de Jesus, a fome se revela como dispositivo de controle e extermínio silencioso, na medida em que expõe populações marginalizadas a condições precarizadas de vida e, assim, ao risco de morte. A partir do diálogo com o referencial teórico adotado, os resultados apontam para a fome como tecnologia do necropoder que resulta de uma lógica histórica, racial e política de produção e administração da miséria no Brasil. Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Quarto de despejo; necropolítica; fome; Achille Mbembe. Introdução A escritora Carolina Maria de Jesus registrou, entre os anos de 1955 e 1960, a experiência vivida por ela e seus três filhos na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, em São Paulo. O livro intitulado Quarto de Despejo: diário de uma favelada foi publicado em 1960, sob a direção do jornalista Audálio Dantas, e se tornou uma obra singular no campo literário brasileiro, articulando de forma contundente escrita autobiográfica, denúncia social e reflexão política. A fome é uma presença constante da obra, ela aparece setenta vezes no texto, e sua recorrência não é casual. Essa condição humana é personificada na narrativa e tem até cor: “Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.” (Jesus, 2020, p. 47). Neste estudo, analisamos em que medida a fome, narrada em Quarto de Despejo, pode ser compreendida como um dispositivo da necropolítica, e não como uma fatalidade natural ou individual. A pesquisa se justifica pela necessidade de superar leituras que naturalizam a fome e a pobreza como destino de grupos marginalizados, tratando esse problema como resultado de escolhas históricas, sociais e políticas. Sob essa ótica, pretendemos analisar a fome como mecanismo de operacionalização do necropoder na sociedade brasileira, articulando a experiência narrada por Carolina de Jesus ao conceito de necropolítica de Achille Mbembe, utilizando, ademais, outros referenciais teóricos como Michel Foucault, Frantz Fanon, Giorgio Agamben e Josué de Castro. Fundamentação Teórica No ensaio “Necropolítica” (2016), Achille Mbembe parte das noções foucaultianas de biopoder para propor uma radicalização: se para Michel Foucault (2005) o Estado moderno faz viver e deixa morrer, Mbembe propõe que o necropoder confere ao soberano o direito de matar. Nesse sentido, a "expressão máxima da soberania", segundo o autor, reside no poder de "ditar quem pode viver e quem deve morrer" (Mbembe, 2016, p. 123). Para Mbembe, essa lógica, longe de ser uma excepcionalidade contemporânea, remonta ao período do colonialismo e da escravidão, experiências que constituíram o laboratório originário das formas modernas de desumanização e extermínio. Nesse sentido, o critério que orienta a seleção entre quem vive e quem morre no interior da população é o racismo, ou, mais propriamente, o que Foucault havia chamado de “racismo de Estado”: Um racismo que uma sociedade vai exercer sobre ela mesma, sobre os seus próprios elementos, sobre os seus próprios produtos; um racismo interno, o da purificação permanente, que será uma das dimensões fundamentais da normalização social (Foucault, 2005, p. 73). Em seu ensaio, Mbembe demonstra que a pessoa escravizada é reduzida a uma condição de "morte em vida", seu corpo é mantido biologicamente vivo, mas destituído de direitos e de humanidade. A vida escravizada representa, portanto, a forma inaugural do necropoder, que se atualiza em diferentes configurações históricas e encontra continuidade no espaço da favela brasileira. Para complementar essa análise, recorre-se ao conceito de "vida nua" de Giorgio Agamben (2007), que designa a vida reduzida à sua dimensão puramente biológica, desprovida de garantias e permanentemente exposta à violência. Frantz Fanon (1968), por sua vez, contribui com a análise do processo de “desumanização” do colono, tendo em vista que o relato de Carolina de Jesus dialoga com a herança colonial, marcada pela fome e violência. Por fim, a dimensão econômica da fome recebe embasamento em Castro (1984) que afirma que as causas fundamentais da fome no Brasil são predominantemente socioculturais, não geográficas. Metodologia Esta pesquisa é de abordagem qualitativa e de natureza bibliográfica. O corpus é constituído pela obra Quarto de Despejo: diário de uma favelada (2020), de Carolina Maria de Jesus. O procedimento de análise consiste na seleção de trechos da obra, identificando recorrências temáticas especialmente relacionadas à fome, e submetendo-as a uma interpretação à luz do referencial teórico adotado. Resultados e Discussão A análise de Quarto de Despejo revela que a narrativa de Carolina Maria de Jesus não se limita à experiência individual da autora, expondo o abandono e a marginalização de parte significativa da população. A favela do Canindé aparece, nesse contexto, como um território de exceção, onde uma população racializada é privada de condições básicas de existência: água potável, saneamento básico, habitação digna, alimentação etc. Essa privação, como demonstra Mbembe, não é acidental, ela é o resultado de um processo histórico, social e político que implica a "sabotagem orquestrada e sistemática da rede de infraestrutura social e urbana" (Mbembe, 2016, p. 137), mecanismo pelo qual o necropoder constitui zonas de abandono e impossibilita a vida daqueles que são considerados inimigos sociais. Na obra analisada, são inúmeros os trechos que denunciam as privações e as péssimas condições de vida que resultam “na falência do sistema de sobrevivência” (2016, p. 17) das pessoas no ambiente inóspito da favela. Nesse ínterim, é emblemática a forma escolhida por Carolina de Jesus para começar e terminar o seu relato autobiográfico: “15 de julho de 1955 [...] Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: — Vai buscar agua mamãe!” (Jesus, 2020, p. 19); “1 de janeiro de 1960: Levantei as 5 horas e fui carregar agua.” (2020, p. 176). A escolha narrativa de Carolina de Jesus de abrir e encerrar seu diário com o mesmo gesto não é casual. Entre julho de 1955 e janeiro de 1960, cinco anos se passaram sem que as condições de vida no Canindé apresentassem qualquer melhora. Esse paralelismo funciona como uma denúncia conclusiva: o tempo passou, nada foi feito para mudar a realidade daquelas pessoas e a luta pela sobrevivência permaneceu idêntica. A cidade colonial descrita por Fanon (1968) encontra ressonância na favela narrada por Carolina de Jesus: A cidade do povo colonizado (...) é um lugar de má fama, povoado por homens de má reputação. Lá eles nascem, pouco importa onde ou como; morrem lá, não importa onde ou como. É um mundo sem espaço; os homens vivem uns sobre os outros. A cidade do colonizado é uma cidade com fome, fome de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma vila agachada, com uma cidade sobre seus joelhos. (Fanon, 1968, p. 28-29). O maior elo entre os dois textos é a fome que protagoniza boa parte da narrativa de Quarto de despejo. É ela que organiza os dias e orienta as ações de Carolina de Jesus, sempre em busca de alimentos para a sobrevivência de sua família: [...] Achei um cará no lixo, uma batata doce e uma batata solsa. Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro. Pensei: para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes eletricos. [...] Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. (Jesus, 2020, p. 44). A fome incide diretamente sobre o corpo de Carolina que narra tontura, fraqueza e distorções sensoriais: “Comecei sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino, marcou-me para passar fome. [...] via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo [...]” (Jesus, 2020, p. 47). O “amarelo” da fome não é apenas uma imagem poética, mas o registro de um estado em que as capacidades sensoriais e cognitivas se encontram deterioradas, reduzindo a vida a um funcionamento mínimo, orientado apenas pela preservação biológica. A fome em Quarto de Despejo opera, portanto, como dispositivo do necropoder, promovendo mortes lentas, silenciosas e socialmente toleradas, uma matança invisível, como nos diz Mbembe (2016). Os relatos de insegurança alimentar são sempre seguidos de denúncias de abandono pelas instâncias de poder, como no trecho a seguir: Como é horrivel ver um filho comer e perguntar: “Tem mais? Esta palavra “tem mais’’ fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais. [...]Quando um politico diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade. (Jesus, 2020, p. 42). Carolina de Jesus explicita que o problema da fome e seus efeitos eram conhecidos pelas instâncias de poder sem que houvesse qualquer intervenção efetiva. Desse modo, a privação alimentar não pode ser lida como fatalidade. A narrativa deixa claro que a escassez coexistia com o desperdício: alimentos que se deterioravam nos armazéns aguardando a valorização dos preços; descarte de alimentos com produtos químicos para impedir seu consumo pela população favelada. A violência desse paradoxo é capturada em uma cena emblemática, em que Carolina presencia um homem comendo carne crua e podre retirada do lixo e registra sua indignação: "Isto não pode ser real num paiz fértil igual ao meu." (Jesus, 2020, p. 43). A conclusão inevitável é de que não havia desabastecimento real, mas uma dinâmica de produção e administração social da miséria, o que confirma a análise de Castro (1984), para quem as causas fundamentais da fome no Brasil são "mais produto de fatores socioculturais do que de fatores de natureza geográfica."(Castro, 1984, p. 58). Quando esse extermínio gradual não mata o corpo, ele corrói a subjetividade. O suicídio é tratado, na narrativa, não como um gesto isolado e individual, mas como uma saída para a “condição permanente de estar na dor” (Mbembe, 2016, p 146) de uma população marginalizada: Quando eu fui catar papel encontrei um preto. Estava rasgado e sujo que dava pena. [...] O seu olhar era um olhar angustiado como se olhasse o mundo com despreso. Indigno para um ser humano. Estava comendo uns doces que a fabrica havia jogado na lama. Ele limpava o barro e comia os doces. Não estava embriagado, mas vacilava no andar. Cambaleava. Estava tonto de fome! [..] Encontrei com ele outra vez, perto do deposito e disse-lhe: —O senhor espera que eu vou vender este papel e dou-te cinco cruzeiros para o senhor tomar uma media. [...] — Eu não quero. [...] Eu já sei o que vou fazer da minha vida. Daqui uns dias eu não vou precisar de mais nada deste mundo. Eu não pude viver nas fazendas. Os fazendeiros me explorava muito. Eu não posso trabalhar na cidade porque aqui tudo é a dinheiro e eu não encontro emprego porque já sou idoso. Eu sei que eu vou morrer porque a fome é a pior das enfermidades. (Jesus, 2020, p. 56). Na narrativa de Carolina de Jesus, vizinhos e pessoas conhecidas desistem da vida motivados pela fome. A própria autora cogita algumas vezes a ideia: “Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estomago. E por infelicidade eu amanheci com fome.” (Jesus, 2020, p. 93). Essa projeção se estende até os filhos: “Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive, precisa comer. (2020, p. 161). O fato de Carolina de Jesus cogitar o suicídio em família revela a dimensão da violência da fome, que destrói até mesmo o desejo de continuar vivendo. Essa possibilidade reforça a leitura da fome como tecnologia da necropolítica que, conforme Mbembe (2016), opera sobre corpos que já foram reduzidos à condição de "morte em vida", biologicamente mantidos, mas esvaziados das demais dimensões humanas. Nesse sentido, a morte, segundo o autor, seria uma espécie de libertação. É justamente a condição de "morte em vida" que Carolina de Jesus evoca na data de 13 de maio, aniversário da abolição da escravatura: "assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!" (Jesus, 2020, p. 36). Ao estabelecer essa comparação, a autora expõe a fome como atualização de um regime de dominação que nunca se encerrou. Considerações Finais Este estudo teve como objetivo analisar a fome em Quarto de Despejo como dispositivo da necropolítica. A análise demonstrou que a insegurança alimentar narrada por Carolina Maria de Jesus não pode ser lida como um destino natural ou uma experiência individual, mas como produto de uma lógica estrutural de gestão da vida e da morte de populações racializadas e marginalizadas. A contribuição deste estudo para o campo dos estudos literários e das ciências sociais reside na proposição de uma leitura de Quarto de Despejo que ultrapassa o registro da pobreza individual para revelar mecanismos de poder que, historicamente, elegem corpos negros e periféricos como alvo. Apontamos, como caminho futuro da pesquisa, a ampliação para outras obras de literatura periférica que tematizem a violência de Estado e a fome no Brasil. Referências AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares, 1984. FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005. JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2020. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, n. 32, p. 122-151, dez. 2016. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993. Acesso em 18 maio 2026. (1) Este trabalho é um recorte da pesquisa de mestrado intitulada “Necropolítica em Quarto de despejo: diário de uma favelada” desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagens da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), sob orientação do Prof. Dr. Cássio Roberto Borges da Silva.
Título do Evento
I CONAGAC – Congresso Nacional Agregando Conhecimento - IMS-CAT-UFBA
Título dos Anais do Evento
Anais do CONAGAC: Congresso Nacional Agregando Conhecimento: UFBA: IMS: CAT
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BARRETO, Aline de Souza; SILVA, Cássio Roberto Borges da. A FOME COMO MANIFESTAÇÃO DA NECROPOLÍTICA EM QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA.. In: Anais do CONAGAC: Congresso Nacional Agregando Conhecimento: UFBA: IMS: CAT. Anais...Vitória da Conquista(BA) UFBA - IMS - CAT, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/i-conagac-congresso-nacional-agregando-conhecimento-697414/1587659-A-FOME-COMO-MANIFESTACAO-DA-NECROPOLITICA-EM-QUARTO-DE-DESPEJO--DIARIO-DE-UMA-FAVELADA. Acesso em: 09/07/2026

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