O ABANDONO APÓS ADOÇÃO: UMA DISCUSSÃO SOBRE OS PREJUÍZOS AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Publicado em 30/12/2020 - ISBN: 978-65-5941-071-2

Título do Trabalho
O ABANDONO APÓS ADOÇÃO: UMA DISCUSSÃO SOBRE OS PREJUÍZOS AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
Autores
  • Larissa Abdo Corrêa
  • Thaís Souza Beneti
  • Elaine Cristina da Fonseca C. Pettengill
Modalidade
Comunicação oral (Resumo expandido)
Área temática
Psicologia
Data de Publicação
30/12/2020
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/conigran2020/261280-o-abandono-apos-adocao--uma-discussao-sobre-os-prejuizos-ao-desenvolvimento-infantil
ISBN
978-65-5941-071-2
Palavras-Chave
Adoção. Filiação Adotiva. Efeitos Psicológicos da Adoção. Devolução após Adoção. Pais Adotivos.
Resumo
INTRODUÇÃO: Ainda que a “devolução” de crianças adotadas não seja uma ocorrência frequente nos processos de adoção no Brasil, os casos que ocorrem precisam ser estudados visando soluções e não apenas aceitação dos motivos apresentados pelos pais adotantes. Segundo o Estatuto da criança e do adolescente (ECA), Lei no 8.069 Artigo 39 § 1, a adoção é irrevogável, ou seja, não se pode anular e nem voltar atrás. A volta à casa de acolhimento por parte do adotante aponta para um insucesso no processo de filiação, que é entendido por alguns teóricos como uma “devolução” (LEVY, PINHO e FARIA, 2009). Este estudo favorece a reflexão a respeito dos danos psicológicos à criança que é “devolvida”. Mudanças no processo de adoção precisam ocorrer, como maior rigor na seleção dos pretendentes-futuros pais adotivos, de modo que este estudo pode contribuir, enquanto ferramenta teórica e científica, para que sejam implementadas medidas legais que favoreçam uma reavaliação sobre as motivações dos futuros pais para a adoção. OBJETIVO: discutir sobre os prejuízos ao desenvolvimento da personalidade da criança quando ela é adotada e “devolvida” pelos pais adotivos. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo bibliográfico, com acesso às bases de dados da internet como Sciello, Pepsic e Google acadêmico, utilizando-se artigos publicados no período entre 2004 e 2018 a partir dos descritores: adoção, efeitos psicológicos da adoção, devolução após adoção, pais adotivos. Encontramos no total de 36 artigos na internet, entre eles, utilizamos 30 artigos, tendo como critérios de inclusão os artigos publicados no período de 2004 e 2018, que abordasse sobre o problema da devolução de crianças após adoção. Como critérios de exclusão, artigos publicados há mais de 14 anos e que abordasse outros fatores de risco à saúde mental da criança e que não tivesse relação com o problema da devolução após adoção. RESULTADOS: verificou-se que a devolução de crianças adotadas é um fenômeno considerado pela literatura como algo desastroso, que vulnerabiliza desenvolvimento da criança a tal ponto que melhor seria para ela que a tentativa de adoção nem fosse feita. Em seus estudos sobre “devoluções” Ghirardi (2008, p. 114) aponta que “é uma experiência que reedita vivências anteriores ligadas ao desemparo e mobiliza intenso sofrimento psíquico tanto para crianças quanto para os adotantes”. Já para Falcão (2017) muito embora exista o caráter irrevogável após a efetivação da adoção, pode ocorrer o desinteresse do adotante para com o adotado, não estabelecendo de fato a filiação adotiva e optam por devolver para a Justiça. Conforme Schettini (2009), os pais adotivos são “testados” em sua capacidade de tolerar e compreender a criança, em suas oscilações de humor, a revivência do medo do abandono, a insegurança quanto ao amor dos pais adotivos. Por isso a importância do sentimento de pertencimento, do estabelecimento dos processos significativos da filiação. Ghirardi (2015) refere que o filho por adoção está implicado no imaginário parental dos pais, ao seu modo de filiação. Tal imaginário envolve fatores extremamente intrínsecos e subjetivos, que podem estar equivocados e cheios de fantasias, gerando expectativas as quais a criança poderá não suprir, fantasias essas que precisam ser desmistificadas antes da conclusão da adoção. Sendo assim, ao ser “devolvida” a criança pode apresentar comportamentos de desajustamento como regressão a etapas anteriores do seu desenvolvimento emocional, tendência antissocial, comportamento dependente e até uma propensão a delinquência. Isso porque segundo Erikson (1963), se durante o Estágio da Confiança x Desconfiança o bebê não puder estabelecer um vínculo de confiança considerável com a figura materna, pois a interação entre a mãe e a criança foi indevidamente suprida, isto pode gerar inúmeras frustrações e intenso sentimento de desamparo, contribuindo para o desenvolvimento de uma personalidade insegura e dependente. Durante o primeiro ano de vida, conforme Winnicott (1951/1978) o bebê necessita de um ambiente o mais estável possível, de modo a promover os processos de integração de seu Ego. Se o bebê, em especial, durante os 5 primeiros meses de vida, for adotado e posteriormente devolvido, o vínculo de confiança e segurança que precisa ser estabelecido entre o bebê e a mãe fica prejudicado, oferecendo risco ao desenvolvimento de psicoses, como o funcionamento psíquico autista, que se estrutura como uma manifestação defensiva do ego diante de ameaças de desintegração provocadas por “ruídos” no vínculo mãe-bebê oriundos por sua vez da instabilidade materna nos cuidados com a criança. Ainda para o autor a perda do ambiente bom e facilitador, que a criança pôde experimentar ao ter sido adotada, podem ser por ela vividos como um trauma, que tende a influenciar negativamente seus futuros vínculos afetivos, estabelecendo-se um padrão de desconfiança em vez de confiança e segurança. Mas quando há uma ruptura entre os laços afetivos, a criança pode interpretar esse acontecimento como um trauma em seu psiquismo, ocasionando grandes marcas que carregará por toda a sua vida. Dessa maneira, a perda do objeto bom, assim como a predominância do objeto mau, se correlaciona com as dificuldades de encontros bem-sucedidos entre a mãe ou cuidadora e o bebê, deixando-o assim, à mercê de angústias. Diante dos fatores de risco que prejudicam a personalidade da criança, Levy, Pinho e Faria (2009, p. 07) observaram com relação às reações mais comuns frente o segundo abandono, comportamentos como agressividade, rejeição a nova adoção, reações de negação à “devolução”, dificuldade de confiar em pessoas próximas, reações depressivas, episódios de choro, dificuldades escolares e cognitivas, autoculpabilização e distúrbios no sono. Após vivenciar novamente esta ruptura, tendem a agir de forma mais agressiva, verbal e fisicamente, assim como também tendem a apresentar comportamentos de mentira e manipulação e violação de normas familiares. Segundo estes autores, devido às falhas em seu desenvolvimento, a qual foi privada de cuidados maternos e paternos, ao vivenciar novamente esta privação, a criança fica mais propensa a comportamento autodestrutivo, pensamentos de incapacidade e insegurança, podendo então encasular o sentimento de culpa pela “devolução”. Os referidos autores ainda acrescentam que, entre as quinze crianças que foram “devolvidas” após adoção e que participaram de seu estudo, nove delas demonstravam conduta agressiva quando voltaram para a casa de acolhimento, apresentando também grande resistência em relação à possibilidade de serem inseridas a uma nova família substituta. Para Schoffer (2016) crianças que foram institucionalizadas possuem dificuldades em sua aprendizagem devido à ruptura de seus vínculos, uma vez que as relações entre as emoções de um indivíduo com a capacidade de aprender estão intimamente associadas. Portanto, quando a criança vivencia novamente o abandono, tende a perder a motivação e o desejo para aprender, carregando novamente um histórico de rejeição, a qual afeta diretamente em seus processos cognitivos, como memória, pensamento, raciocínio, uma vez que se sentem desamparadas e sem uma figura de apoio e incentivo. Para a autora, agressividade está interligada com a ruptura de vínculos afetivos, logo a criança tende a agir de uma forma mais ríspida, o que prejudica em suas relações interpessoais e consigo mesma. DISCUSSÃO: para Levinzon (2016, p. 71) refere que “pode-se encontrar perante a clínica da adoção, um intenso sofrimento psíquico, devido a sua peculiar condição de desemparo, rupturas, a criança tende a se tornar mais sensível as dificuldades ambientais as quais está submetida”. Desta forma, as crianças devolvidas após adoção manifestam em sua psicodinâmica a presença marcante do sentimento de ameaça à sua integridade, necessitando muitas vezes agredir ou atacar como forma de se proteger da ameaça interna do abandono e do sentimento de desamparo. Por meio de uma experiência profissional e acadêmica na Vara da Infância e Juventude – Núcleo de Adoção em Campo Grande/MS, verificou-se números significativos de casos de “devoluções” de crianças adotadas, sendo possível observar entre estas crianças, quando estas voltaram para a instituição de acolhimento, apresentaram perda da motivação em seus estudos, frustrações em viver em família, automutilação, ideações suicidas, embotamento afetivo, sentimento de tristeza e ansiedade. Ressaltando ainda, que ao ser “devolvida”, dependendo da idade, terá grandes dificuldades em ser adotada novamente, isso porque a maioria dos pretendentes preferem bebês e crianças até dois anos de idade, conforme o Cadastro Nacional de Adoção. Deste modo, uma das formas de atuação dos profissionais técnicos que trabalham na Vara da Infância, juntamente com a responsabilidade de zelar pela proteção dos direitos da criança, é o aprimoramento da escuta qualificada, sendo esta um ótimo instrumento a fim de minimizar os riscos de uma adoção comprometida e que pode culminar na “devolução” da criança. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Conclui-se que o afastamento do vínculo afetivo provocado por esse segundo abandono pode gerar sérios agravos no desenvolvimento da personalidade da criança. Observou-se que se faz necessário o acompanhamento psicológico da criança antes e após os processos adotivos, para que possam ser trabalhadas questões psíquicas e emocionais como o luto, porque às vezes com tão pouca idade, pode ter vivenciado várias perdas e rupturas de laços afetivos, primeiro de sua família biológica, depois a perda dos vínculos construídos nas casas de acolhimento e, em seguida, uma nova perda de vínculo afetivo quando é “devolvida” após adoção. É importante então o acompanhamento terapêutico para trabalhar mais uma perda vivenciada, para amenizar os sofrimentos e os prejuízos ao desenvolvimento. Recomenda-se a criação no Brasil de um sistema estatístico que possa gerar e armazenar dados de devoluções de crianças que vivenciaram o abandono após adoção, do mesmo modo a construção de mais estudos voltados a esta temática tão delicada e importante. Considera-se fundamental programas governamentais que visem uma preparação significativa dos pretendentes a adoção, sobretudo avaliações e estudos psicológicos da equipe do Juízo em especial, das Varas da Infância, que visem trabalhar a diminuição de riscos de devolução de crianças após adoção. Inserir as crianças institucionalizadas em uma família substituta, é uma responsabilidade integral do Estado, onde a criança possa estar em um lar que ofereça a garantia de todos os seus direitos sem a violação destes. Dessa forma, a equipe multidisciplinar deve realizar um trabalho minucioso para desmistificar as fantasias que norteiam a clínica da adoção. REFERÊNCIAS: BRASIL. Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm#art266>. Acesso em: 2019 ERIKSON, Erik H. (1963). 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LEVY, Lidia; PINHO, Patrícia Glycerio R.; FARIA, Márcia Moscon de. “Família é muito sofrimento”: um estudo de casos de “devolução” de crianças. Revista Psico, Rio Grande do Sul, v. 40, n. 1, p.58-63, 2009. MUNIZ, F. M. R. P. “Adoções que não deram certo: o impacto na “devolução” no desenvolvimento da criança e do adolescente na perspectiva de profissionais. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Universidade Católica de Pernambuco, Recife. 2016, 138 p. Disponível em: http://tede2.unicap.br:8080/handle/tede/246 Acesso em 05 fev. 2020. SCHOFFER, Carinne Juliê. A fragilidade de vínculos afetivos e seus desdobramentos. 2015. 24 f. TCC (Graduação) - Curso de Psicologia, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Santa Rosa, 2015. SCHETTINI FILHO, Luiz. Pedagogia da adoção: Criando e educando filhos adotivos. São Paulo: Vozes, 2009. 111 p WINNICOTT, Donald. W. (1978). Psicose e cuidados maternos. Em D. W. Winnicott (Org.), Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise (2ª ed. pp. 375-387). Rio de Janeiro: Francisco Alves (Original publicado em 1952).
Título do Evento
CONIGRAN 2020 - Congresso Integrado UNIGRAN Capital
Cidade do Evento
Campo Grande
Título dos Anais do Evento
Anais do CONIGRAN 2020 - Congresso Integrado UNIGRAN Capital
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital
DOI
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Como citar

CORRÊA, Larissa Abdo; BENETI, Thaís Souza; PETTENGILL, Elaine Cristina da Fonseca C.. O ABANDONO APÓS ADOÇÃO: UMA DISCUSSÃO SOBRE OS PREJUÍZOS AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL.. In: Anais do CONIGRAN 2020 - Congresso Integrado UNIGRAN Capital. Anais...Campo Grande(MS) UNIGRAN Capital, 2020. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/conigran2020/261280-O-ABANDONO-APOS-ADOCAO--UMA-DISCUSSAO-SOBRE-OS-PREJUIZOS-AO-DESENVOLVIMENTO-INFANTIL. Acesso em: 12/06/2024

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