A BANALIDADE DO MAL NO SÉCULO XXI: O CASO LOUISE OGBORN SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA SOCIAL

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
A BANALIDADE DO MAL NO SÉCULO XXI: O CASO LOUISE OGBORN SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA SOCIAL
Autores
  • Andreia da Fonseca Araujo
  • Camila Orlandi
  • Giovanna Dias Fernandes
  • Giovanna de Freitas Menezes
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Psicologia
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271490-a-banalidade-do-mal-no-seculo-xxi--o-caso-louise-ogborn-sob-a-perspectiva-da-psicologia-social
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
obediência à autoridade, conformidade social, banalidade do mal, biopolítica, psicologia social
Resumo
O presente trabalho analisa o caso de Louise Ogborn, jovem vítima de abusos sexuais e psicológicos na unidade do McDonald’s em que trabalhava, localizada em uma pequena cidade dos Estados Unidos, após um trote telefônico em que o interlocutor se passava por policial. O episódio, ocorrido em 2004, tornou-se amplamente conhecido por meio do filme Obediência (2012) e da série documental Não atenda o telefone! (2022), evidenciando como obediência cega, manipulação psicológica e naturalização de normas institucionais podem levar indivíduos comuns a atos de violência. A problemática central da pesquisa consiste em compreender de que maneira a obediência à autoridade, aliada à pressão social e à banalização de práticas institucionais, pode suprimir a autonomia crítica e ética dos sujeitos, favorecendo a repetição de condutas abusivas em contextos aparentemente banais. O estudo busca articular a análise do caso de Louise Ogborn com referenciais teóricos da Psicologia Social e da Filosofia Política, a fim de compreender como estruturas de poder e discursos de autoridade influenciam o comportamento humano e impactam negativamente relações institucionais e sociais. O desenvolvimento da pesquisa fundamenta-se em estudos clássicos da Psicologia Social e em reflexões filosóficas críticas. Stanley Milgram, por meio de seus experimentos sobre obediência à autoridade, demonstrou que indivíduos comuns podem agir de forma cruel quando posicionados como agentes de uma autoridade percebida, deslocando de si a responsabilidade moral e legitimando condutas que violam princípios éticos. Solomon Asch, ao investigar a conformidade social, evidenciou como a pressão dos pares pode levar indivíduos a abdicar de sua percepção pessoal em favor do consenso coletivo, mesmo quando este é claramente equivocado. Philip Zimbardo, em seu experimento da prisão de Stanford, mostrou que a atribuição de papéis sociais e a estrutura situacional podem favorecer comportamentos abusivos, despersonalizando vítimas e reforçando papéis de poder. Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de Eichmann, cunhou a noção de banalidade do mal, indicando que atrocidades podem ser cometidas por pessoas comuns que suspendem o pensamento crítico e se tornam engrenagens de sistemas burocráticos. Michel Foucault, por sua vez, contribuiu com a noção de biopolítica e disciplina dos corpos, evidenciando como práticas de vigilância e normatização moldam subjetividades obedientes e docilizadas. Esses referenciais permitem compreender como obediência, conformidade e disciplina operam simultaneamente na naturalização da violência e na supressão do julgamento crítico. A pesquisa é qualitativa, de caráter documental, com análise crítica das produções audiovisuais, mostrando que o falso policial construiu uma narrativa convincente, articulando símbolos de autoridade legítima e reforçando a ideia de cumprimento de protocolos institucionais. A gerente do restaurante e outros funcionários obedeceram às ordens gradualmente mais abusivas, deslocando de si a responsabilidade e legitimando os atos em nome de uma autoridade percebida. A escalada de violência, desde a revista pessoal até o abuso sexual, segue a lógica dos experimentos de Milgram, em que cada passo anterior legitima o seguinte, gerando dessensibilização moral. A pressão grupal e a ausência de dissenso também se fizeram presentes: apenas a intervenção de Thomas Simms, funcionário terceirizado que recusou seguir as ordens, rompeu a espiral de obediência, atuando como “parceiro dissidente”, conforme descrito por Asch. O comportamento de Walter Nix Jr., noivo da gerente e autor das violências mais graves, pode ser interpretado à luz da análise de Zimbardo, mostrando como a internalização de papéis sociais pode levar indivíduos sem histórico de violência a práticas abusivas em contextos de autoridade simbólica e impunidade. O episódio ilustra ainda a desumanização da vítima e a disciplina dos corpos descritas por Foucault, na medida em que Louise foi gradualmente privada de identidade, objetos pessoais e autonomia, tornando-se um corpo dócil submetido a ordens externas. Os resultados indicam que o caso representa uma manifestação contemporânea da banalidade do mal, nos termos de Arendt, evidenciando como práticas de obediência e conformidade, articuladas a dispositivos institucionais de poder, favorecem a suspensão do julgamento ético e a reprodução da violência em contextos cotidianos. Além da dimensão psicológica, o caso gerou debates jurídicos e institucionais: Louise processou o McDonald’s e recebeu indenização, já que a empresa havia sido alertada sobre golpes semelhantes, mas não preparou seus funcionários para resistir à manipulação de falsas autoridades. Isso reforça a importância de refletir sobre responsabilidade institucional e desenvolver mecanismos de prevenção e resistência à obediência acrítica em ambientes de trabalho. Conclui-se que o caso de Louise Ogborn permite uma leitura aprofundada sobre os mecanismos de obediência, conformidade e disciplina na sociedade contemporânea, mostrando que atos de violência podem emergir da normalização da obediência cega e da ausência de reflexão crítica diante de ordens e normas institucionais. A Psicologia Social, articulada à filosofia política, oferece ferramentas para compreender como fragmentação da responsabilidade, pressão social e internalização de discursos de autoridade favorecem a suspensão do julgamento moral. Refletir sobre esses mecanismos é fundamental para construir práticas institucionais mais éticas, críticas e humanizadoras, promovendo autonomia ética e resistência a dinâmicas opressivas. As referências utilizadas para este trabalho foram ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999; ASCH, S. E. Effects of group pressure upon the modification and distortion of judgments. In: GUETZKOW, H. (Ed.). Groups, leadership, and men. Pittsburgh: Carnegie Press, 1951, p. 177–190; ASCH, S. E. Opinions and social pressure. Scientific American, New York, v. 193, n. 5, p. 31-35, nov. 1955; FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1998; FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Lisboa: Edições 70, 2013; GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2008; GUTTING, G.; OKSALA, J. Michel Foucault. 2022; MILGRAM, S. Obediência à autoridade: uma visão experimental. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983; MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec, 2001; NÃO ATENDA O TELEFONE! (Don’t Pick Up the Phone). Dir.: Sara Mast. Reino Unido: WAG Entertainment, 2022. Série documental, 3 episódios (48 min); OBEDIÊNCIA (Compliance). Dir.: Craig Zobel. EUA: Bad Cop/Bad Cop Film Productions, 2012. Filme, 90 min. ZIMBARDO, P. G. The Stanford Prison Experiment, 1999-2025.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

ARAUJO, Andreia da Fonseca et al.. A BANALIDADE DO MAL NO SÉCULO XXI: O CASO LOUISE OGBORN SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA SOCIAL.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271490-A-BANALIDADE-DO-MAL-NO-SECULO-XXI--O-CASO-LOUISE-OGBORN-SOB-A-PERSPECTIVA-DA-PSICOLOGIA-SOCIAL. Acesso em: 15/02/2026

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