FÉ, DIVÃ E PERIFERIA: INTERFACES ENTRE RELIGIOSIDADE E SOFRIMENTO PSÍQUICO.

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
FÉ, DIVÃ E PERIFERIA: INTERFACES ENTRE RELIGIOSIDADE E SOFRIMENTO PSÍQUICO.
Autores
  • Rodrigo de Oliveira Silva
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271328-fe-diva-e-periferia---interfaces-entre-religiosidade-e-sofrimento-psiquico
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Divã Comunitário; Igreja; Periferia; Sofrimento Psíquico.
Resumo
O tema Fé, Divã e Periferia parte de uma investigação acerca das interfaces entre religiosidade e sofrimento psíquico em contextos de vulnerabilidade social. Busca-se compreender de que maneira as práticas religiosas, especialmente no âmbito do movimento evangélico pentecostal, podem se relacionar com o sofrimento psíquico, seja contribuindo para sua intensificação, seja atuando como caminho de cuidado e ressignificação. A pesquisa desenvolve-se a partir da experiência do projeto “Tamu Junto”, iniciativa que emerge de uma reflexão teológica sobre o território periférico, propondo-se a pensar a igreja à luz dos desafios dos “becos, bocas e bicos”. Expressão criada no contexto de minhas reflexões e vivências no território periférico, constituindo-se como uma categoria hermenêutica voltada à interpretação dos atravessamentos que marcam as experiências sociorreligiosas e as formas de elaboração do sofrimento psíquico nesses espaços. A ideia de “becos”, emerge da concepção de que a vida periférica se inscreve em um substrato social marcado por espaços subjetivamente estreitos, de difícil circulação, que aperta o sujeito no trânsito da vida e o expõe tanto ao temor dos movimentos suspeitos quanto às experiências de “becos sem saída”. As “bocas” por sua vez, remetem tanto ao local simbólico do tráfico de drogas quanto à representação de furo, buraco ou falta, aspectos que se relacionam com os atravessamentos das desigualdades e vulnerabilidades estruturais, intensificados pela lógica neoliberal. Ademais, “bocas” também podem simbolizar as múltiplas vozes que atravessam o território, desde as que gritam por sobrevivência, como o choro da criança abandonada, até as que clamam por esperança, como as orações que escapam pela porta entreaberta da pequena igreja pentecostal. Por fim, o termo “bicos” alude aos “corres” pelo “pão de cada dia”, expressões próprias da linguagem periférica, associadas aos empregos informais que marcam a luta cotidiana da periferia pela sobrevivência econômica. Além disso, “bicos” evocam as manifestações daqueles que resistem a projetos que se propõem a pensar a fé para além da circunscrição institucional do templo. Nesse contexto, o projeto “Tamu Junto” propõe o acesso ao processo analítico e terapêutico por meio de uma igreja periférica localizada no bairro do Jardim Ângela, em São Paulo, considerado na década 1990 pela Organização das Nações Unidas (ONU) um dos lugares mais violentos do mundo (DIMENSTEIN, 2006). O estudo problematiza o lugar da escuta e do cuidado psíquico no cotidiano da população pobre e busca compreender em que medida a vivência religiosa, particularmente no movimento evangélico pentecostal, influencia as formas de nomear, expressar e lidar com o sofrimento psíquico em territórios marcados pela escassez de recursos, pela violência e precariedade institucional. Parte-se da hipótese de que o território periférico, atravessado por desigualdades estruturais, insegurança, ausência de políticas públicas efetivas e intensificação da lógica neoliberal, constitui-se um locus propício ao agravamento das experiências de sofrimento psíquico. Considerando essa articulação, propõe-se a noção de um sofrimento estrutural do território, sustentado por dinâmicas de violência simbólica que incidem sobre as experiências cotidianas dos sujeitos e contribuem para a produção de sentimentos de insuficiência, culpa e desamparo. Tais condições, ao se manifestarem de forma particular na periferia, configuram um conjunto de afetos e vivências que denominamos de “páthos periférico”, conceito que busca compreender os atravessamentos específicos que caracterizam a vida e o sofrimento nos territórios periféricos. Nesse cenário, infere-se que a igreja pode assumir relevância na organização da vida de muitas pessoas, funcionando como recurso simbólico, comunitário e afetivo, de modo que sua possível atuação como “divã comunitário” e setting terapêutico, tenderia a favorecer a dinâmica da escuta e circulação da palavra e do afeto, oferecendo ao sujeito a possibilidade de ser ouvido e acolhido em sua dor. Entretanto, os reflexos históricos sugerem que a igreja carrega consigo muitas problemáticas, tensões e limites que precisam ser considerados e superados. Entre esses limites, destacam-se os discursos que espiritualizam o sofrimento, especialmente o sofrimento psíquico, o que pode contribuir para intensificar a angústia. Expressões como: “falta de Deus”, “ausência de fé” ou até mesmo “consequência do pecado”, mostram-se como capazes, em determinadas situações, de acentuar a dor emocional. Ainda assim, diante da escassez de caminhos viáveis para o cuidado existencial, presume-se que a presença dessa comunidade de fé, em seu caráter psicanalítico e terapêutico, configura-se como a hipótese de um espaço subjetivo capaz de oferecer escuta e cuidado aos sujeitos marginalizados. Dessa forma, problematizar essa temática, considerando que a religiosidade pode ser tanto um processo de cura quanto um fator de adoecimento, constitui-se como um compromisso social e uma tentativa de compreender de que forma ela pode contribuir para os processos de cuidado e promoção da saúde psíquica. Além disso, essa pesquisa busca ampliar o debate interdisciplinar entre as Ciências da Religião e a Saúde Pública, colaborando para a construção de práticas de acolhimento e cuidado destinadas ao enfrentamento do sofrimento psíquico de sujeitos em contextos periféricos. REFERÊNCIAS ALENCAR, Gedeon. Assembleia de Deus – origem, implantação e militância (1911–1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. D’ANDREA, Tiaraju. Contribuições para a definição dos conceitos periferia e sujeitas e sujeitos periféricos. Novos estudos CEBRAP, v. 39, n. 1, p. 19–36, jan. 2020. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução de Mariana Echalar. 1. reimpr. São Paulo: Boitempo, 2016. DIMENSTEIN, Gilberto. 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Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SILVA, Rodrigo de Oliveira. FÉ, DIVÃ E PERIFERIA: INTERFACES ENTRE RELIGIOSIDADE E SOFRIMENTO PSÍQUICO... In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271328-FE-DIVA-E-PERIFERIA---INTERFACES-ENTRE-RELIGIOSIDADE-E-SOFRIMENTO-PSIQUICO. Acesso em: 13/02/2026

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