JEAN MESLIER, UM PADRE MATERIALISTA E ATEU

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
JEAN MESLIER, UM PADRE MATERIALISTA E ATEU
Autores
  • Welington de Freitas Gomes
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271017-jean-meslier-um-padre-materialista-e-ateu
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Ateísmo; Religião; Materialismo; Religião Cristã; Catolicismo; Jean Meslier.
Resumo
Solitário e confidente dos seus próprios pensamentos, o padre Jean Meslier, viveu numa pequena aldeia ao sul da França, Étrépigny, no período de 1664 a 1729. A curiosidade por conhecer a história deste padre surge com tal interesse por ser considerado na história da filosofia como o primeiro ateu do século XVIII. E neste caso, o seu ateísmo é defendido de maneira absoluta e não a uma divindade específica. No entanto, o cura de aldeia convivendo ao lado dos camponeses da região experimentou a difícil realidade vivida por homens e mulheres com os desafios da vida no campo. O trabalho desses campesinos com a terra se tornava ainda mais difícil, pois além da labuta diária, tinham que lidar com os altos impostos cobrados pela nobreza. Essa realidade tem um correspondente direto, a Religião Cristã que legitimava os interesses da nobreza, apresentando uma realidade como manifestação da vontade divina. A partir deste cenário, o padre Jean Meslier escolheu estar ao lado dos camponeses, denunciando as atrocidades cometidas pela nobreza e a hipocrisia vivida pelo clero da sua época. Como os séculos 16 e 17 eram marcados por uma intolerância religiosa atroz, suas denúncias eram feitas a luz de velas com a pena em riste não poupando críticas severas ao clero e a nobreza. Entre o sermão pregado nas manhãs de domingo e a pena carregada de revolta percorria os papeis escrevendo um Testamento. Este Testamento foi guardado a sete chaves e confidenciado a um amigo, que ficou incumbido de trazer a público assim que a sua morte acontecesse. Neste volumoso Testamento, ele ridiculariza a igreja, a nobreza, não poupava palavras para denunciar as injustiças sociais e o pensamento idealista. Meslier manifestou sua revolta ao dizer que “todos os grandes da Terra e todos os nobres fossem enforcados e estrangulados com as tripas dos padres”. Essa expressão sentencia os representantes de Deus e consequentemente a negação de Deus para afirmação humana. Para o cura Meslier, a esperança propagada pela religião foi caracterizada de ilusória, sendo que, esta foi a ferramenta responsável por legitimar tamanha injustiça no mundo. Entretanto, é importante observar que a religião tem apresentado enquanto função social, legitimar a desigualdade apoiando a nobreza no poder como manifestação da vontade divina. Para Jean Meslier, uma realidade que se apresenta enquanto manifestação divina transbordando sofrimento e dor não teria sentido atribuir a uma divindade. Pois, ou a divindade é má e perversa ou ela não existe. Fazer uso dos textos “ditos” sagrados alimentando a fé do povo numa caminhada de sofrimento e dor não faz sentido algum para Meslier. No que tange a filosofia, o advento da modernidade, e a filosofia moderna desenvolvida por René Descartes, vai encontrar Jean Meslier como seu grande opositor. Meslier irá compreender que a realidade apresentada por Descartes no Discurso do Método tem como fundamento, Deus. Ou seja, entre a res cogitans, a coisa pensante e a res extensa, o corpo, temos o chamado dualismo cartesiano. A coisa pensante, ou seja, o sujeito não consegue colocar em dúvida o ato de duvidar de que esta pensando e por consequência lógica, chega a conclusão do chamado cogito cartesiano: “Penso, logo existo”. Quanto ao mundo exterior, a realidade que se apresenta, ela só pode existir baseada numa divindade sumamente boa que não iria me enganar. Neste caso, Descartes utiliza o argumento do sonho para provar a existência do mundo exterior, tendo Deus como fundamento desta realidade e da bondade de Deus por não ser um mentiroso. Para Meslier, esse dualismo cartesiano inaugurado com a Modernidade tende a legitimar uma realidade organizada e controlada por Deus, mas que na verdade não responde aos problemas sociais. Convivendo com a dureza da vida do camponês em seu cotidiano, Meslier nega por completo o dualismo cartesiano e defende uma metafísica materialista. Estar em convívio com o povo pobre e humilde, enquanto alguns vivem da exploração do trabalho destes que sofrem não abre espaço para Meslier falar de uma divindade que se importa com o povo. Um deus que não interfere na história a partir de atributos como onipotente, onipresença e onisciência e que não esteja a favor dos mais fracos, no caso dos camponeses, não tem motivos para ser cultuado. A interpretação bíblica firmada em dogmas e doutrinas tendo a tradição como autoridade objetiva, não representa mais sentido para Meslier. A objetividade elaborada pela racionalidade cartesiana, ou seja, a busca pela verdade absoluta não atribui sentido a existência humana por estar distante da realidade dolorida do povo. Jean Meslier percebe que ao adotarmos um conceito de verdade de maneira absoluta que legitima uma realidade em nome de Deus, e ter representantes desse Deus pregando mentiras e enganos, tal divindade merece ser negada para afirmar o humano. Para o pesquisador Paulo Piva, Meslier é considerado o primeiro ateu stricto senso da história da filosofia. Para o padre, a religião é considerada um embuste, pura superstição, uma anedota que se espalhou ao longo do tempo. Outro fator importante é procurar compreender o que o levou a apostatar da fé de forma radical, mas sem deixar de cumprir suas funções sacerdotais. Tendo a Bíblia como um livro sagrado e que desempenha um papel importante na vida das pessoas, é interessante entendermos nesta dialética entre a hermenêutica do texto e a realidade vivida a construção de sentido para vida. A partir destas questões caminhamos dialogando na busca por compreensão, sobre a importância da Religião no mundo contemporâneo. Uma religião e neste caso, a religião cristã católica, parece legitimar a negação do humano. A religião a partir de seus manuais e catecismos está colaborando com um processo de desumanização destituindo o humano de sua humanidade? A partir deste pequeno esboço iremos percorrer dialogando, tendo como objetivo traçar apontamentos introdutórios sobre o ateísmo do padre Jean Meslier e pensar o papel da religião no mundo contemporâneo. Caminhando sempre para o bom desenvolvimento humano. A sua humanização. Bibliografia DESCARTES, René. Coleção Os pensadores. Abril Cultural. MESLIER, Jean. Mémoire. Seleção e adaptação: Armand Farrachi. Tradução: Luís Leitão. Antígona. 2003. PIVA, Paulo Jonas de Lima. Ateísmo e revolta: Os manuscritos do padre Jean Meslier. São Paulo. Alameda Editorial. 2006. ONFRAY, Michel. Tratado de Ateologia: física da metafísica. Tradução: Monica Stahel. São Paulo. WMF Martins Fontes, 2007.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

GOMES, Welington de Freitas. JEAN MESLIER, UM PADRE MATERIALISTA E ATEU.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1271017-JEAN-MESLIER-UM-PADRE-MATERIALISTA-E-ATEU. Acesso em: 12/02/2026

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