TRANSHUMANISMO E RELIGIOSIDADE: TRANSFORMAÇÕES DA CRIATURA EM DEUS?

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
TRANSHUMANISMO E RELIGIOSIDADE: TRANSFORMAÇÕES DA CRIATURA EM DEUS?
Autores
  • Felipe Donadon
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1269301-transhumanismo-e-religiosidade--transformacoes-da-criatura-em-deus
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Transhumanismo, Religião, Mortalidade
Resumo
O transumanismo surge como um movimento intelectual, científico e cultural que propõe o uso de tecnologias emergentes para aumentar as nossas as capacidades humanas, superar limitações biológicas inatas e, potencialmente, alcançar a imortalidade (BOSTROM, 2005). Os pilares que envolvem essa vertente incluem inteligência artificial, biotecnologia, nanotecnologia, engenharia genética e a cibernética (KURZWEIL, 2005). Além disso, os preceitos do transumanismo instigam conceitos filosóficos e religiosos ao propor uma transcendência humana que seria equiparada àqueles atributos tradicionalmente associados ao divino (HALL, 2016). Em contrapartida, a religiosidade procura, de uma forma ou de outra, oferecer respostas à finitude, tateando determinadas expectativas tais como da imortalidade da alma ou ressurreição (ELIADE, 1992). No entanto, as promessas transumanistas parecem minar o campo religioso ao sugerir que o ser humano se torne o criador da sua própria salvação, agora não mais pela fé, mas sim através da técnica (MERCANTANTE, 2020). Alguns autores como Nick Bostrom (2005) e Ray Kurzweil (2005) exploram a superação das limitações humanas por meio da tecnologia. No entanto, possuímos uma outra vertente, a do pós-humanismo, em que pensadores como Rosi Braidotti (2013) questionam a centralidade do conceito de "humano", propondo assim uma emergência de novas formas de existência híbridas. Um exemplo disso que podemos notar dentro do âmbito da ficção ser dá pelos personagens ciborgues, presentes na animação Ghost in The Shell (1995), ou até no filme cult norte-americano BladeRunner (1982) de Ridley Scott, no qual em ambas as histórias nosso mundo passa a ser permeado por outras entidades não-humanas, mas criações da tecnologia. Além disso, a análise pós-humanista incorpora perspectivas teológicas que abordam as intersecções entre fé e tecnologia, conforme discutido por Cole-Turner (2011). A discussão aponta que as prerrogativas transhumanistas não só se apresentam como uma alternativa à religião, como também acabam replicando as mesmas estruturas simbólicas religiosas só que de forma secularizada. Como podemos ver, por exemplo, a crença na “singularidade tecnológica”, atua como uma narrativa escatológica, prometendo uma nova era com a superação da inteligência humana pela inteligência artificial (VINGE, 1993; KURZWEIL, 2005). Além deste ponto escatológico que podemos mencionar, temos também a busca pela imortalidade, na qual se substitui a esperança espiritual e religiosa que possamos ter, por projetos de engenharia genética, criogenia ou até mesmo transferência de consciência para suportes digitais (MANZANO, 2020). Nota-se que dentro da abordagem transhumanista se mobilizam discursos com forte conotação soteriológica e apocalíptica, mesmo que estes possuam uma roupagem científica (FUKUYAMA, 2002). Isso mostra que, ao invés de remover o aspecto religioso, esse movimento o reconfigura dentro de um novo contexto. Apesar disso, existem correntes religiosas que dialogam positivamente com tais avanços de perspectivas sobre o uso da tecnologia, em que se interpreta o aprimoramento humano como uma forma de colaboração com a obra criadora de Deus (COLE-TURNER, 2011). Apesar das similaridades, há alguns que críticos alertam para o risco de uma “idolatria tecnológica”. A busca da criatura para se tornar deus parece apresentar algumas narrativas míticas como, por exemplo, aquelas da Torre de Babel ou a rebelião de Prometeu (ELIADE, 1992; MERCANTANTE, 2020). Essa forma de crítica, por sua vez, ressalta o perigo inerente da substituição da fé no transcendente por uma fé cega sobre a técnica, inaugurando assim uma “nova religião do progresso” (FERRY, 2017). A promessa de imortalidade e transcendência, antes ligadas ao sagrado, é agora reconfigurada em projetos técnicos que atribuem ao ser humano o papel de criador e redentor, antes reservado somente à própria figura de Deus (KURZWEIL, 2005; BOSTROM, 2005). Dentro desse viés, a humanidade parece buscar simbolicamente assumir aspectos divinos, mas que em contra-partida, isso não necessariamente representaria o fim de uma religiosidade, mas na realidade uma metamorfose. A questão é, uma metamorfose para qual tipo de perspectiva? Talvez uma que influencie ainda mais um aspecto egóico e megalomaníaco de nossa espécie, tentando arquitetar a si mesma como algo a ser idolatrado. Dentro da atual conjuntura, é de suma importância aprofundarmos o diálogo entre transumanismo e religião, de maneira que possamos ter uma chance de repensar as fronteiras entre ciência e espiritualidade que norteiam estes paralelos (COLE-TURNER, 2011). A questão central não é apenas se o ser humano estaria tentando se tornar deus, mas que tipo de humanidade — ou pós-humanidade — se criaria à partir dessa transformação, e afinal, que tipo de “deuses”, em última instância, seriamos nós? REFERÊNCIAS BOSTROM, Nick. In Defense of Posthuman Dignity. Bioethics, v. 19, n. 3, p. 202-214, 2005. COLE-TURNER, Ronald (Org.). Transhumanism and Transcendence: Christian Hope in an Age of Technological Enhancement. Washington: Georgetown University Press, 2011. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. Trad. Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. FERRY, Luc. A revolução transumanista: como a técnica e as NBIC vão transformar o nosso cotidiano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. FUKUYAMA, Francis. Our Posthuman Future: Consequences of the Biotechnology Revolution. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2002. KURZWEIL, Ray. The Singularity is Near: When Humans Transcend Biology. New York: Viking, 2005. MANZANO, Felipe. A imortalidade digital: reflexões filosóficas sobre transumanismo, mente e tecnologia. São Paulo: Paulus, 2020. MERCANTANTE, Ashley L. Religion and the Technological Future: An Introduction to Biohacking, Artificial Intelligence, and Transhumanism. Santa Barbara: Praeger, 2020. VINGE, Vernor. The Coming Technological Singularity. NASA Conference Publication 10129, 1993.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

DONADON, Felipe. TRANSHUMANISMO E RELIGIOSIDADE: TRANSFORMAÇÕES DA CRIATURA EM DEUS?.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1269301-TRANSHUMANISMO-E-RELIGIOSIDADE--TRANSFORMACOES-DA-CRIATURA-EM-DEUS. Acesso em: 09/02/2026

Trabalho

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