ORALIDADE DA MULHER NEGRA COMO ESTRATÉGIA PARA A MANUTENÇÃO DAS TRADIÇÕES AFRICANAS NA UMBANDA: DISCUTINDO A MEMÓRIA NO PODCAST ‘VOZES ANCESTRAIS’

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
ORALIDADE DA MULHER NEGRA COMO ESTRATÉGIA PARA A MANUTENÇÃO DAS TRADIÇÕES AFRICANAS NA UMBANDA: DISCUTINDO A MEMÓRIA NO PODCAST ‘VOZES ANCESTRAIS’
Autores
  • Rita Donato
  • Ketlyn Costa do Nascimento
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Comunicação
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1267392-oralidade-da-mulher-negra-como-estrategia-para-a-manutencao-das-tradicoes-africanas-na-umbanda--discutindo-a-mem
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Memória. Tradição oral. Mulher negra. Umbanda. Vozes Ancestrais.
Resumo
Rita Donato Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) Ketlyn Costa do Nascimento Faculdade Paulus de Comunicação (FAPCOM) A luta da população negra do Brasil pelo reconhecimento de saberes ancestrais começou durante o processo de colonização do país, quando pessoas escravizadas foram obrigadas a recriar códigos gestuais, sonoros e verbais para interagir e sobreviver às estratégias elaboradas para o apagamento das raízes africanas. Nesse ambiente de tensão, a oralidade se consolidou como uma prática de resistência essencial para a manutenção da cultura desse povo – seja por meio da arte, da música, da culinária, da religião –, e a personagem central para manter essa tática ativa é mulher negra, responsável por reproduzir oralmente rezas, receitas e canções tradicionais jamais registradas em livros oficiais, como se não tivessem contribuído com a história do país. Nas palavras de Pollak (1989, p. 5), essa memória renegada, denominada como “subterrânea”, “[...] ocupa toda a cena cultural, o setor editorial, os meios de comunicação, o cinema e a pintura, comprovando o fosso que separa de fato a sociedade civil e a ideologia oficial de um partido e de um Estado que pretende a dominação hegemônica”. Isso significa que quando as memórias marginalizadas são articuladas de geração em geração, invadem as memórias oficiais, do homem branco, provocando tensão e disputa. Daí, surgem novas reivindicações, lutas e riscos à visão dominante/oficial para garantir que determinada cultura não seja fadada ao esquecimento programado. Quando o autor trata desse conflito, expõe a “fronteira entre o dizível e o não dizível” e mostra como as “memórias subterrâneas” são reduzidas violentamente diante da “[...] memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor” (Pollak, 1989, p. 8). O “não-dito”, que sempre esteve à margem, quando invade o espaço público, denota o perigo porque reivindica reconhecimento, rompe a aceitação dos discursos ideológicos e propõe um novo enquadramento da memória: aquele que reconhece a importância desse povo. Isso faz da memória um campo para discussão das relações de poder, segundo os Estudos Culturais – que investigam a memória como mutável, moldada para beneficiar discursos dominantes. É esse pensamento que, há séculos, favorece figuras escravocratas em detrimento de escravizadas. Do ponto de vista da memória cultural, teóricos dessa corrente analisam narrativas históricas, tradições orais, práticas rituais, monumentos, artefatos e outras formas de representação como potência na preservação e na transmissão da memória coletiva de um grupo ou de uma sociedade – isso inclui a análise de como memórias compartilhadas de eventos históricos, experiências culturais e traumas coletivos influenciam a construção das identidades cultural e nacional. Halbwachs (1990, p. 48) atesta que é mais fácil acessar a memória de um grupo do que uma lembrança vivida exclusivamente por um indivíduo. Uma das técnicas para garantir que essas “memórias subterrâneas” sejam validadas é a história oral, uma abordagem metodológica que preserva relatos verbais. Esse método questiona registros históricos ao valorizar comunidades marginalizadas que lutam contra o apagamento ao oralizar crenças e valores. A oralidade organiza os saberes de forma única, como o pensamento aditivo e um caráter conservador das tradições. Esse conservadorismo, longe de ser uma limitação, é essencial para a preservação do conhecimento e da identidade cultural, especialmente em sociedades onde a transmissão dos saberes ocorre predominantemente de forma oral (Galvão e Batista, 2006). É a linguagem popular que cumpre o papel de armazenar e transmitir informações culturais não manuscritas. Segundo os autores, o aprendizado ocorre por meio da repetição, da prática e das narrativas que conectam as gerações e provocam disputa de espaço. Isso evidencia que a oralidade é não apenas uma ferramenta de comunicação, mas um mecanismo indispensável para a continuidade cultural, a preservação ancestral, asseguram Galvão e Batista (2006). Trata-se de um pilar estruturante em contextos onde a escrita não desempenha papel central, como na Umbanda, religião de matriz afro-indígena-brasileira, que se fundamenta na oralidade para a transmissão de conhecimento e estreitamento de laços comunitários, espiritualidade e memória (Iyagunã, 2019). Como aponta Costa (2022), a oralidade também funciona como uma estratégia de resistência, permitindo que a religião se adapte às adversidades sem comprometer sua essência. Essa forma de articular o debate pode ser considerada um enfrentamento ao sistema, uma postura que começou a se fortalecer a partir de 1970, quando ocorreram “mudanças fundamentais nas concepções de identidade social nas comunidades negras. [...] no olhar crítico coletivo negro que foi central para uma política de resistência transmitida oralmente” (hooks, 2019, s/p). De acordo com essa visão, a música (o som, o canto, a letra) e a mulher negra teriam sido fundamentais para a sobrevivência dos descendentes de escravizados, sobretudo, no processo de afirmação, “[...] pois pode-se acreditar que a música manteve sua capacidade comunicativa, organizativa, de afirmação identitária e de aglutinação em torno dos mesmos pressupostos e práticas culturais” (WERNECK, 2013, s/p). A tradição oral e a audição praticadas pelas mulheres negras teriam atualizado esses conteúdos durante séculos, reorganizando os territórios culturais diante dos conflitos da diáspora. Para contribuir com esse debate, este trabalho discute como mulheres negras usam a linguagem popular para combater políticas de apagamento do saber ancestral. Neste recorte, apresenta-se um trabalho desenvolvido no contexto da graduação em Jornalismo para observar a oralidade como o principal meio de transmissão de práticas e rituais sagrados e debater como esse instrumento pode abrir margem para a interpretação, já que a ausência de registros permite que sejam adaptados, reinventados ou esquecidos. Deste problema surgiu o projeto experimental “Vozes Ancestrais”*, podcast em quatro episódios, com duração entre 10 e 15 minutos, que trata a performance da oralidade para a manutenção e resistência da Umbanda. A produção explora a função essencial da transmissão oral na preservação e na continuidade das tradições religiosas dessa matriz. A partir da técnica de história oral, a série em áudio conta com entrevistas em profundidade com estudiosos, sacerdotes e praticantes da religião, proporcionando reflexão sobre a importância do discurso falado, do uso da linguagem popular na preservação da memória coletiva da Umbanda e no fortalecimento da identidade cultural dessas comunidades. *Disponível em: https://open.spotify.com/show/7LaaAjui61LCWEtb1J9YtO REFERÊNCIAS COSTA, Luana Corrêa. Memória de ouvido: produção partilhada do conhecimento na umbanda. 2022. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8161/tde-20092022-174146/. Acesso em: 29 nov. 2024. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda. 1990. HOOKS, bell. Anseios: raça, gênero e políticas culturais. São Paulo: Elefante. 2019. GALVÃO, Ana; BATISTA, Antônio. Oralidade e escrita: uma revisão. Cadernos de Pesquisa, v. 36, n. 128, maio/ago. 2006. Disponível em: https://abre.ai/lAIq. Acesso em: 29 nov. 2024. IYAGUNÃ, Dalzira. A Oralidade e a Linguagem do Candomblé. In: IV COPENE SUL, 2019, Jaguarão. Anais [...]. Ancestralidades, Conquistas e Resistências em Tempo de Intolerância, 2019. POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989. WERNECK, Jurema. Macacas de Auditório? Mulheres negras, racismo e participação na música popular brasileira. BRASIL. Prêmio Mulheres Negras contam sua história. Brasília: Presidência da República, Secretaria de Políticas para Mulheres, 2013.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

DONATO, Rita; NASCIMENTO, Ketlyn Costa do. ORALIDADE DA MULHER NEGRA COMO ESTRATÉGIA PARA A MANUTENÇÃO DAS TRADIÇÕES AFRICANAS NA UMBANDA: DISCUTINDO A MEMÓRIA NO PODCAST ‘VOZES ANCESTRAIS’.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1267392-ORALIDADE-DA-MULHER-NEGRA-COMO-ESTRATEGIA-PARA-A-MANUTENCAO-DAS-TRADICOES-AFRICANAS-NA-UMBANDA--DISCUTINDO-A-MEM. Acesso em: 11/02/2026

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