AS MÃOS DE BUDA E DE CRISTO: UM ESTUDO DOS GESTOS MANUAIS ENQUANTO SIGNOS RELIGIOSOS NA ICONOGRAFIA

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
AS MÃOS DE BUDA E DE CRISTO: UM ESTUDO DOS GESTOS MANUAIS ENQUANTO SIGNOS RELIGIOSOS NA ICONOGRAFIA
Autores
  • Klaus D'Orásio Leão
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1262499-as-maos-de-buda-e-de-cristo--um-estudo-dos-gestos-manuais-enquanto-signos-religiosos-na-iconografia
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Budismo; Cristianismo; Soteriologia; Cultura visual; Iconografia
Resumo
No âmbito de meu projeto de pesquisa para o Mestrado em Ciências da Religião, a preocupação com de que maneira a iconografia religiosa revela e reflete uma gama de perspectivas doutrinárias, cosmológicas e soteriológicas das tradições nas quais estão inseridas, levou à investigação sobre dois objetos de pesquisa: um ícone de Jesus Cristo, datado do século VI, e uma thangka (forma de arte tradicional indo-tibetana) de Buda Śākyamuni, datada do século XVIII. Como o objetivo geral do projeto de pesquisa é investigar ambas as imagens para traçar um diálogo entre as diferentes perspectivas religiosas que elas revelam (focando principalmente no aspecto soteriológico), e os objetivos específicos passam pela investigação e análise dos elementos que constituem essas imagens, eventualmente nos deparamos com um aspecto muito importante encontrado nelas: os gestos manuais realizados pelas figuras representadas. Partindo do referencial teórico de Charles S. Peirce, fizemos uma pesquisa bibliográfica dos principais gestos manuais representados pela iconografia budista e pela cristã, compreendendo-os como signos para então tentar apontar as relações entre os significantes e os significados correspondentes, para suas respectivas religiões, e então buscamos o método da teoria de rede inter-relacional para promover o diálogo entre essas diferentes perspectivas soteriológicas. Do lado budista, nos debruçamos especialmente sobre artigos dos autores Heinrich Dumoulin (1984), Dale Saunders (1958) e Kathleen Matics (1998), para tentar entender melhor o contexto histórico do surgimento dos mudrā, como são chamados esses gestos manuais no budismo, e como suas relações de significação foram sendo consagradas pela tradição ao longo dos séculos. Do lado cristão, destacamos os autores Vladimir Lossky e Leónide Ouspensky (1982) e Wilma Tommaso (2017). A importância dos gestos tanto na narrativa como na história cristã também foi vista, e o material pesquisado indica que a origem desses gestos no cristianismo é muito nebulosa, tal como no budismo. Entre os resultados obtidos cabe apontarmos que de modo geral os mudrā (“selo” em sânscrito) podem ser classificados em duas categorias: aqueles usados em rituais esotéricos (tântricos) e aqueles que foram consagrados pela arte budista. Um texto budista japonês do século VI chega a listar mais de 300 mudrā, mas podemos limitar a seis o número de gestos que são amplamente usados em quase todas as tradições budistas. O significado desses gestos foi sendo sistematizado a partir dos séculos V e VI, de modo que há inconsistências de sentido em obras anteriores a esse período. Também investigamos um pouco mais a fundo o que o bhūmisparśa-mudrā (“tocar o solo”), pode implicar no que diz respeito à soteriologia budista. No contexto budista, esse gesto diz respeito a um momento específico da narrativa de vida do Buda, em que ele realiza o completo despertar e, confrontado por Mara e seus lacaios, toca e “invoca” a terra como testemunho de sua realização da paz definitiva. Em algumas tradições ocorreu a representação de combinações de mais um mudrā, como é o caso do abhaya-mudrā e o varada-mudrā (associado a bênçãos e generosidade). A partir dessa investigação, foi elaborada uma correlação com a soteriologia budista, entendendo que neste sistema não há uma salvação vinda de outro agente que não o próprio sujeito religioso, de modo que o gesto de tocar o solo realizado pelo Buda implica num sentido soteriológico bem diferente da bênção cristã. Por outro lado, no cristianismo o significado dos gestos manuais presentes em ícones parece ter sido sistematizado e melhor preservado na tradição ortodoxa, razão pela qual demos maior atenção a autores que pesquisam essa vertente. A influência dos gestos de oratória greco-romanos é uma das hipóteses para a origem dos gestos representados na iconografia cristã, mas outros autores, como Maria Chumak (2020), apontam uma possível influência indiana dos próprios mudrā, que teriam sido absorvidos pelo cristianismo (duas das principais variantes cristãs do gesto de bênção são idênticas ao prana-mudrā e ao prithvi-mudrā). Conforme explica Wilma Tommaso, o cristianismo ortodoxo — que enxerga nos ícones muito mais que imagens decorativas, mas sim objetos de veneração — estabeleceu um cânone, um conjunto de padrões e normas que guiam a execução desses ícones, o que permite estudar de maneira mais criteriosa não apenas alguns dos “tipos” iconográficos mais disseminados, como é o do Cristo Pantocrator, mas também os elementos que o compõem, como os gestos manuais recorrentes nesse tipo de ícone. Nesse sentido, encontramos na obra de Dionísio de Fourna, autor do Manual do pintor do Monte Athos, uma das principais referências adotadas pelos ortodoxos para a execução de ícones. É nessa obra que se explica, por exemplo, que o significado de uma posição específica dos dedos de Cristo é uma forma de recriar o cristograma ICXC, gesto conhecido como bênção “à maneira grega”. Aqui, o gesto de bênção aponta para uma noção soteriológica bastante diferente da budista, uma vez que o autor do gesto, o Cristo, é o agente principal da salvação do crente. Concluímos que a investigação dos gestos manuais presentes nas iconografias budista e cristã, a partir de categorias da semiótica peirceana (signo, significado, referente, objeto), nos permitiu fazer um levantamento de alguns dos principais signos gestuais, suas origens históricas, e correlacioná-los com seus significados, compreendendo-os dentro dos parâmetros doutrinários de seus respectivos sistemas simbólicos religiosos. A dessubstancialização dos signos e seus significados, a partir das proposições da teoria de rede inter-relacional, permite promover o diálogo, no âmbito soteriológico, entre religiões que se fundamentam em lógicas muito distintas (criacionismo e interdependência), que determinam suas identidades em seus diversos aspectos. Essa investigação é parte importante do projeto de pesquisa, e será replicada nos meses seguintes para estudar outros signos presentes nas imagens analisadas, como as auréolas, para mais adiante realizarmos o diálogo entre esses dois registros religiosos e artísticos, mediante o uso do método da teoria de rede inter-relacional. Referências CHUMAK, Maria. Influences of the East on Early Christian Iconography. Open Journal for Studies in History, v. 3, n. 1, 2020. DUMOULIN, Heinrich. The Person in Buddhism: Religious and Artistic Aspects. Japanese Journal of Religious Studies, v. 11, n. 2/3, p. 143–167, 1984. MATICS, Kathleen. Gestures of the Buddha. Bangkok: Chulalongkorn University Press, 1998. OUSPENSKY, Léonide; LOSSKY, Vladimir. The meaning of icons. Crestwood, N.Y.: St. Vladimir’s Seminary Press, 1982. SANTAELLA, Lucia; NÖTH, Winfried. Introdução à Semiótica. 2019. São Paulo: Editora Paulus SAUNDERS, Dale. Symbolic Gestures in Buddhism. Artibus Asiae, v. 21, n. 1, p. 47, 1958.‌ TOMMASO, Wilma Steagall De. O Cristo Pantocrator: da origem às igrejas no Brasil, na obra de Cláudio Pastro. São Paulo: Paulus, 2017. TSAI, Plínio Marcos. Os elementos da rede budista-taoísta na Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional. Revista de Filosofia Modernos & Contemporâneos do IFCH da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, v. 8, n. 18, p. 147, jan./jun., 2024
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

LEÃO, Klaus D'Orásio. AS MÃOS DE BUDA E DE CRISTO: UM ESTUDO DOS GESTOS MANUAIS ENQUANTO SIGNOS RELIGIOSOS NA ICONOGRAFIA.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1262499-AS-MAOS-DE-BUDA-E-DE-CRISTO--UM-ESTUDO-DOS-GESTOS-MANUAIS-ENQUANTO-SIGNOS-RELIGIOSOS-NA-ICONOGRAFIA. Acesso em: 16/02/2026

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