“ERAM DUAS VENTAROLAS”: ARQUÉTIPOS AFRO-BRASILEIROS DE IEMANJÁ E IANSÃ NA CLÍNICA JUNGUIANA

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
“ERAM DUAS VENTAROLAS”: ARQUÉTIPOS AFRO-BRASILEIROS DE IEMANJÁ E IANSÃ NA CLÍNICA JUNGUIANA
Autores
  • M.ª Renata Felix Canal
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Psicologia
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1262178-eram-duas-ventarolas--arquetipos-afro-brasileiros-de-iemanja-e-iansa-na-clinica-junguiana
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
Psicologia Analítica;Iemanjá;Iansã
Resumo
A psicologia, historicamente construída sobre bases eurocentradas e coloniais, negligenciou os saberes e vivências de sujeitos negros. Com o avanço dos debates decoloniais, torna-se urgente ressignificar a clínica a partir de perspectivas que reconheçam a diversidade cultural, simbólica e espiritual dos povos racializados. Nesta direção, a pesquisa propõe articular a psicologia analítica de Jung com epistemologias afro-brasileiras e os saberes iorubás como recurso para expandir a escuta clínica e promover uma prática mais plural, situada e comprometida com a justiça epistêmica. A pesquisa parte do reconhecimento de que os Orixás, longe de se restringirem a narrativas religiosas, constituem arquétipos coletivos capazes de atuar sobre o inconsciente individual e coletivo, abrindo possibilidades terapêuticas situadas, éticas e culturalmente sensíveis. Particularmente, o estudo propõe um mergulho simbólico e clínico nas imagens de duas divindades femininas do panteão iorubá: Iansã (Oyá) e Iemanjá (Yemoja) através da cantiga “Eram duas ventarolas”. A escolha por essas duas figuras femininas se justifica não apenas pela sua presença marcante no imaginário coletivo brasileiro, mas pelo que representam enquanto forças simbólicas de travessia, acolhimento, morte e renascimento. A pesquisa propõe uma ampliação simbólica que reconhece na oralidade, na ancestralidade e nos mitos afro-brasileiros uma via legítima de elaboração psíquica, deslocando a hegemonia de referenciais greco-romanos e judaico-cristãos tradicionalmente utilizados na psicologia ocidental. Este resumo tem, portanto, como objetivo central refletir sobre as potências terapêuticas dos arquétipos de Iansã e Iemanjá na clínica junguiana, considerando as formas como essas imagens podem emergir a partir da oralidade popular e dos saberes afro-brasileiros. Para isso, parte-se do referencial teórico que sustenta a pesquisa, passando pela análise simbólica da cantiga “Eram duas ventarolas” e pela articulação desses saberes com o inconsciente coletivo, e pelas considerações que apontam para uma clínica decolonial, comprometida com a escuta de subjetividades negras em suas complexidades. A cantiga “Eram duas ventarolas”, entoada em diversos contextos ldas religiões afro-brasileiras, apresenta-se como uma rica expressão dessa oralidade simbólica. Sua repetição melódica e invocatória evoca os nomes de Iansã e Iemanjá, duas forças femininas que se entrelaçam no mar e no vento, no acolhimento e na travessia: “Eram duas ventarolas Duas ventarolas ventando no mar Eram duas ventarolas Duas ventarolas ventando no mar Uma era Iansã, eparrey A outra era Iemanjá, Odociá Uma era Iansã, eparrey A outra era Iemanjá, Odociá” A cantiga opera como um mito cantado — uma miniatura narrativa que, em poucos versos, encapsula imagens arquetípicas profundas. As “ventarolas” que sopram sobre o mar são metáforas vivas da presença das orixás, e da fusão de seus elementos naturais (vento e água) como expressões do inconsciente. A invocação por seus nomes sagrados aciona também a dimensão ritual da palavra, que não apenas descreve, mas faz acontecer: cantar é evocar, é criar presença. Do ponto de vista clínico, integrar a escuta dessa oralidade ao espaço analítico permite romper com a lógica colonial da neutralidade e da universalidade. Ao acolher símbolos vivos que atravessam o corpo e a história de muitos sujeitos racializados, a clínica junguiana torna-se um território de enraizamento cultural e ancestral. Não se trata de “interpretar” a cantiga como se fosse um sonho ou um poema, mas de reconhecer seu potencial de ativação psíquica, sua capacidade de operar curas sutis, de nomear experiências, de narrar o indizível. Iemanjá representa o encontro turbulento das águas, a oscilação interna, os conflitos emocionais e psíquicos. Ao contrário de Nanã, que se caracteriza pelo distanciamento afetivo e pelo desapego dos filhos, Iemanjá tende a manter seus filhos próximos, por vezes através de vínculos intensos e até conflituosos. Essa dimensão revela seu aspecto mais ambivalente, muitas vezes descrito como o da “mãe terrível”: aquela que cuida, mas também aprisiona; que ama, mas cobra presença e lealdade incondicional. Sant’Anna (2025) mostra que, no Brasil, Iemanjá é frequentemente representada sob traços europeizados — pele clara e corpo esguio —, em contraste com sua matriz afro-diaspórica original, que a concebe como mulher negra e robusta, símbolo de acolhimento e força materna. Do mar ao vento, podemos nos transportar para Iansã, também conhecida como Oyá. É reconhecida nas tradições afro-brasileiras como uma orixá de intensa força, coragem e transformação. Iansã é, ao mesmo tempo, mãe guerreira e cuidadora, figura que sintetiza a força do búfalo e a delicadeza da borboleta. Essa combinação de potência e sutileza é o que a torna capaz de proteger suas filhas e filhos com firmeza, sem deixar de expressar sensibilidade e ternura. Senhora dos furacões e das reviravoltas existenciais, Iansã carrega em si o poder de dispersar o mal e de abrir caminho para o novo. Sua presença anuncia não apenas a mudança, mas a coragem necessária para atravessá-la. Iansã é descrita por Barbosa Júnior (2014) como uma entidade de intensa ambivalência simbólica, reunindo sensualidade e fúria, liberdade e intensidade. Senhora dos ventos, tempestades, trovões e dos espíritos desencarnados, ela expressa movimento, paixão e transformação. Essa dualidade entre destruição e proteção a torna uma das figuras mais complexas e fascinantes do panteão africano (Barbosa Júnior, 2014). Como propõem Alencar, Carvalho e Mangeth (2024), inspiradas pela obra de Bell Hooks, a subjetividade negra — e, em especial, a feminina — deve ser compreendida em sua profundidade ética, espiritual, afetiva e política. Iansã encarna essas dimensões de modo pleno, sendo uma figura arquetípica que aponta caminhos de resistência, cuidado e reconstrução. Sua presença, tão reverenciada quanto temida, continua a inspirar práticas de cura, de liderança e de transformação coletiva no contexto das espiritualidades afro-brasileiras. Ao articular os Itans de Iemanjá e Iansã à psicologia analítica, esta proposta amplia a escuta clínica, reconhecendo que os símbolos que emergem não são neutros, mas moldados por histórias, contextos, ancestralidades e resistências. Integrar os arquétipos dessas orixás à clínica junguiana é reconhecer que o inconsciente também é negro, feminino, aquático, ventoso, ancestral. É permitir que a análise seja território de cura, mas também de reencantamento do mundo. Referências Alencar, R. C., Carvalho, E. R., & Mangeth, L. V. (2024). Afeto, ancestralidade e escuta radical: Interfaces da psicologia com saberes negros femininos. Editora Sankofa. Barbosa Júnior, A. (2014). Orixás: A força ancestral do sagrado. São Paulo: Editora Pallas. Sant Anna, V. (2025). Três mães: Ancestralidade, consciência coletiva, formação ética. In S. M. B. Tommasi (Org.), Diálogos na UNIPAZ Goiás 2021: Mãe: símbolo sagrado do amor (Vol. III). Ed. dos Autores. https://unipazgoias.org.br/wp-content/uploads/UNIPAZ-2021-III-Completo.pdf
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

CANAL, M.ª Renata Felix. “ERAM DUAS VENTAROLAS”: ARQUÉTIPOS AFRO-BRASILEIROS DE IEMANJÁ E IANSÃ NA CLÍNICA JUNGUIANA.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1262178-ERAM-DUAS-VENTAROLAS--ARQUETIPOS-AFRO-BRASILEIROS-DE-IEMANJA-E-IANSA-NA-CLINICA-JUNGUIANA. Acesso em: 12/02/2026

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