MULHERES NOS BASTIDORES DA CULTURA VISUAL BUDISTA DOS PRIMEIROS SÉCULOS D.C.

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
MULHERES NOS BASTIDORES DA CULTURA VISUAL BUDISTA DOS PRIMEIROS SÉCULOS D.C.
Autores
  • Estela Piccin
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Ciência da Religião
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1253902-mulheres-nos-bastidores-da-cultura-visual-budista-dos-primeiros-seculos-dc
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
mulheres no budismo, cultura visual religiosa budista, Gandhara
Resumo
Monumentos budistas antigos, bem como seus relevos e pinturas, foram feitos pelo árduo trabalho de artesãos e trabalhadores braçais. Tal serviço e respectivos materiais eram financiados por patrocinadores que doavam bens à comunidade monástica. Tais doações eram feitas por parte das quatro saṅghas (monges, monjas, leigos e leigas), e até por indivíduos que não eram budistas, mas acreditavam na geração de méritos a partir desse ato. Vemos aqui pesquisas que investigaram registros desses doadores e indícios de seus papeis sociais e o que revelam sobre dinâmicas socioculturais e religiosas, o desenvolvimento de recursos iconográficos, simbólicos, narrativos, etc., da cultura visual religiosa budista da Índia e Ásia Central, com atenção para um grupo pouco investigado: doadoras mulheres, monjas e leigas. Por volta do séc. 2 a.C., mulheres participaram significativamente do patrocínio dos primeiros monumentos sobreviventes do budismo nas estupas de Bharhut e Sañci, e foram cruciais à sobrevivência de seus monastérios. Tais edifícios, seus relevos e cenas narrativas, foram erguidos pelo patrocínio coletivo de membros da realeza, comerciantes, artesãos e suas esposas e parentes. Inscrições de doação registram nomes e outros detalhes desses indivíduos (Skilling, 2001, p. 257). Doações a um estabelecimento religioso eram feitas para acumular méritos para esta e a próxima vida, quer os doadores fossem budistas ou não; isso incentivou sua expansão e embelezamento na Índia. Embora os planos de construção estivessem nas mãos de um monge, sua decoração narrativa muitas vezes não era planejada, mas seguia histórias favoritas de doadores individuais, cujos registros foram mantidos com cuidado em Sañci (Dehejia, 1997, p. 34; 131). Poucas mulheres aparecem nos registros budistas de Gandhāra, em comparação com centenas de inscrições da Índia central e do sul. Mas os registros encontrados são peculiares: por um lado não temos o registro de uma monja fazendo uma doação em Gandhāra, por outro lado temos o registro de uma mulher leiga que era proprietária e patrona de um monastério, indicando que adquirir tal status era possível para uma mulher (abastada). Há uma inscrição curiosa de doação feita por três esposas, que mencionam seu status social de esposa, mas utilizam o próprio nome apenas, ao invés de mencionarem o nome do marido ou filhos omitindo o próprio nome, como ocorre em Gandhāra, apresentando uma contradição dessa sociedade para com as mulheres (Shah, 2001, p. 102). Também, as inscrições de Gandhāra nem sempre eram feitas para serem vistas, pois eram enterradas junto com as relíquias, ou eram escritas quase como uma fórmula mágica: a publicidade do ato do doador era para o outro mundo, não para este. E.g., dentro de um ganso oco de cristal foi encontrada uma relíquia com uma dedicatória de Śirā, para que seus pais atingissem o estado de Buddha em um próximo renascimento. O ganso representa as almas dos falecidos, e não há indícios a respeito da identidade de Śirā para além de que ela era uma mulher abastada (Shah, 2001, p. 103). Com o passar do tempo, doadores passam a ser lembrados não só pela epigrafia, mas também pela imagem, especialmente em Gandhāra. Há muitos dignitários Kuṣān representados na arte budista de Gandhāra. Essas imagens não eram retratos de indivíduos, mas símbolos do ato de devoção, com um tipo generalizado de figuras masculinas e femininas (Rosenfield, 1967, p. 215). Embora eu não tenha uma contagem exata de quantas imagens de Gandhāra existam contendo figuras femininas de devotas e/ou doadoras, e qual seria sua porcentagem em comparação com imagens em que constam apenas homens devotos e/ou doadores, já encontrei cerca de 150 dessas imagens, o que é uma quantia considerável, levando em conta a precariedade em que tais artefatos foram encontrados, preservados ou datados. Enquanto em Gandhāra os doadores eram representados de maneira padrão, em Kizil, (c. 600 d.C.) passaram a ser representados doadores específicos, com atributos de suas características da realeza e inscrições indicando seus nomes (Sun, 2023, p. 5). Na famosa estela de pedra do Buda de Sarnath, do séc. 5, que retrata o primeiro sermão, está uma figura de doadora feminina facilmente imperceptível. As miniaturas de doadores serviam para reduzir a distância entre o tempo narrativo e o tempo vivido. Mas aqui enfatizamos o fato de que uma mulher forneceu os recursos para a fabricação de uma das obras mais elaboradas e renomadas da arte budista, e foi representada nela como que ouvindo o primeiro giro da roda do Dharma. Na parte inferior da imagem, onde estão representados os cinco ascetas, há uma figura feminina à esquerda, e atrás dela uma criança. Há representações similares que tanto mostram apenas os cinco ascetas – desconsiderando a simetria –, quanto inserem um sexto asceta para dar simetria, porém este é representado da mesma maneira que os outros. Mas a mulher de nossa imagem é representada em uma pose diferente da dos demais e em um plano diferente, um pouco mais à frente. Trata-se de uma leiga com riqueza e status, visto que está adornada. Isso sugere que essa leiga, talvez da realeza, teria doado os recursos para a confecção do Buda de Sarnath e foi representada na composição, como se ela também estivesse ouvindo o primeiro sermão, em uma fusão espaço-temporal (Kim, 2020, p. 5-6). Também há figuras humanas, muitas vezes ignoradas, em imagens do Leste da Índia entre os séculos 8 e 12 d.C., que foram produzidas por artesãos a pedido de devotos, predominantemente leigos, e doadas à comunidade religiosa, e os devotos eram retratados ou nomeados na inscrição para corroborar sua doação. Há nomes de doadores(as) gravados no chão do templo de Bodhgaya, possivelmente próximos de sua representação em esculturas do século 14 (Bautze-Picron, 2014, p. 1). Ao longo deste trabalho é possível perceber que os registros de doações para a confecção da arte budista tiveram fases de só texto, só imagem, e imagem em conjunto com texto, porém nem sempre tais registros foram feitos para serem vistos, muitas vezes assumindo um caráter de “encantamento” para a obtenção dos resultados esperados na próxima vida. É possível que em alguns casos os doadores apenas tenham doado o dinheiro e feito algum pedido de dedicatória, mas também é possível que em muitos casos os doadores tenham influenciado na escolha do tema a ser representado, e seria interessante investigar se há padrão ou peculiaridade na gama de temas escolhidos pelas doadoras femininas em contraste com os demais. De qualquer maneira, é importante saber que a metade mais desconsiderada da saṅgha quádrupla – leigas e monjas – tenham participado de maneira tão direta da construção e ornamentação de muitos dos monumentos mais consagrados da arte budista. Referências: BAUTZE-PICRON, C. Images of donors in the Buddhist art of Eastern India, 2014. DEHEJIA, V. Discourse in Early Buddhist Art: Visual Narratives of India. Munshiram Manoharlal Publishers, New Delhi, 1997. DEHEJIA, V. Artist, Scribe, Monk/Nun, Viewer: Visual Narratives at Early Buddhist Sites. Gandhara Connections Lecture, 2022. KIM, J. Reading Time: the Sarnath Buddha and the Historical Significance of Donor Portraits in Early Medieval South Asia. South Asian Studies, 2020. MILLIGAN, M. The Economic Power of Women in Early South Asian Buddhism. Indian Economic & Social History Review, 56.1 (2019): 1-25. ROSENFIELD, J. M. The Dynastic Art of the Kushans. University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 1967. SHAH, K. K. The Problem of Identity: Women in Early Indian Inscriptions. Oxford University Press, 2001. SKILLING, P. Nuns, Laywomen, Donors, Goddesses: Female Roles in Early Indian Buddhism. Journal of the International Association of Buddhist Studies, Vol. 24, N. 2, 2001. SUN, R. Cultural Connections Between China and Foreign Civilizations Through the Kucha Donor Images in the Kizil Caves. Journal of Student Research, Vol. 12/1,2023.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

PICCIN, Estela. MULHERES NOS BASTIDORES DA CULTURA VISUAL BUDISTA DOS PRIMEIROS SÉCULOS D.C... In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1253902-MULHERES-NOS-BASTIDORES-DA-CULTURA-VISUAL-BUDISTA-DOS-PRIMEIROS-SECULOS-DC. Acesso em: 08/02/2026

Trabalho

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