PSICOTERAPIA COM CHATGPT NA CONTEMPORANEIDADE: CRÍTICAS A PARTIR DO PENSAMENTO JUNGUIANO

Publicado em 10/01/2026 - ISBN: 978-85-7814-633-7

Título do Trabalho
PSICOTERAPIA COM CHATGPT NA CONTEMPORANEIDADE: CRÍTICAS A PARTIR DO PENSAMENTO JUNGUIANO
Autores
  • Rafael Rodrigues de Souza
  • Clarissa de Franco
Modalidade
Edital de inscrição ( resumo expandido)
Área temática
Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Psicologia
Data de Publicação
10/01/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1245376-psicoterapia-com-chatgpt-na-contemporaneidade--criticas-a-partir-do-pensamento-junguiano
ISBN
978-85-7814-633-7
Palavras-Chave
ChatGPT, psicoterapia, psicologia analítica
Resumo
As transformações tecnológicas interativas avançam em ritmo acelerado. Desde os microcomputadores nos anos 1980, passando pela consolidação da internet nos anos 1990, pela revolução de 2007 com a chegada iPhone e, mais recentemente, o surgimento do ChatGPT em 2022 (e similares), temos assistido a sucessivas inovações que, apesar de prometerem eficiência, produtividade e crescimento econômico, geram também profundos impactos subjetivos nos sujeitos que as produzem e consomem. No cerne dessas transformações está o homo sapiens uma “tecnologia” de 300.000 anos, que é paradoxalmente atemporal e constantemente atual. O ideal de performance, impulsionado pelas tecnologias, provocou uma espécie de contágio psíquico (Torres, 2021), e ser produtivo tornou-se quase sinônimo de saúde e sucesso (Han, 2017; 2021). A busca por alta performance fez emergir figuras como os coaches, que inicialmente coletavam seus trabalhos para criar estratégias de melhoria de rendimento e, posteriormente, viraram “life-coaches”, pretendendo cuidar da totalidade da vida das pessoas. No entanto, esse movimento acabou fragilizado por sua baixa qualificação e mercantilização do sofrimento humano. Ainda assim, isso apontou para um fenômeno importante: o sofrimento psíquico crescente e a busca por ajuda. A pandemia de COVID-19 exacerbou esses sintomas. Problemas que antes pareciam “escondidos” tornaram-se públicos. No que tange o trabalho, com a intensificação do modelo home-office ficou evidenciado o sofrimento psíquico diante da pressão por resultados e da dissolução dos limites entre atividades profissionais e outras atividades vitais (Souza, 2022). Nesse cenário, surgem as promessas da saúde mental como novo nicho de mercado, transformando o cuidado em produto e criando “linhas de produção” de bem-estar: programas empresariais, cursos de inteligência emocional e modismos neurocientíficos que supostamente tentam resolver dores humanas com soluções tecnocráticas. Contudo, o problema reside justamente na tentativa de tratar o humano como máquina (Nicolelis, 2020). As tecnologias, antes criadas para facilitar a vida, passaram a ditar os modos de existência. Em nome da produtividade, busca-se recondicionar o ser humano para se adaptar ao sistema, e não o contrário. Tal lógica desconsidera o fator humano, que é imponderável, contraditório, subjetivo e simbólico. Contudo, as dores emocionais permanecem, e assim surge um fenômeno contemporâneo, que é a “psicoterapia” com o ChatGPT (Rousmaniere et al., 2025; Jung, K. et al., 2025). É nesse ponto que sugerimos a seguinte problematização: o que a psicoterapia com ChatGPT significa se analisada à luz da psicologia analítica? Parece-nos que tal caminho adotado revela, na verdade, uma evitação do encontro e confronto consigo por meio do outro, que é humano (Jung, 2013). O sujeito, tomado pela angústia e em busca de alívio imediato, recorre a um “terapeuta” que não sente, não se emociona, não se encanta e, portanto, não faz um espelhamento (Jung, 2013). Numa perspectiva junguiana, a cura não se dá pela eliminação do sintoma, mas pela integração das polaridades da psique (Jung, 2012a). A relação terapêutica é também um espaço simbólico de elaboração, onde transferências e contratransferências são fundamentais (Jung, 2012b). A IA, por mais avançada, não acessa esse campo simbólico-afetivo desta maneira; o que ela faz é uma espécie de “eletrificação” dos afetos (Balestrini Junior; Contrera, 2024). Apesar disto, essa busca também expressa um anseio que é legítimo: uma dor e sofrimento reais por trás dessa procura. Essa substituição do outro humano pela máquina reflete uma falência das relações, mas ao mesmo tempo destaca dois aspectos do capitalismo: 1) as dificuldades de arcar com os custos da psicoterapia, um produto que ainda é “premium”, portanto, não acessível a boa parte da população – mesmo que exista um desejo de ter um processo conduzido por um ser humano; 2) a resistência a uma psicoterapia que leve em consideração a multiplicidade interior do sujeito, tal como propõe a psicologia junguiana, dado que ela destoa do ideal pragmático e de velocidade hegemônicos na contemporaneidade. Temos então dois problemas que, supostamente, o ChatGPT resolve: o custo, que é zero, e a pressa, que é patente na atualidade. Contudo, a saúde mental não pode ser pensada como um estado permanente de produtividade, foco e, suposto, controle emocional. Isso é um reducionismo incompatível com a complexidade humana. Por isso evocar o propósito da sustentabilidade, nesse sentido, é necessário, mas uma sustentabilidade que não é apenas ecológica, mas também subjetiva e ampla (Thompsom, 2014). Sustentar o humano em sua inteireza, com suas contradições, com pausas, com criatividade e com angústia, é também “sustentar” a própria existência (Jung, 2012b). Meios rápidos e, em tese, acessíveis para minimizar a angústia, apesar de parecerem efetivos, na verdade, só reforçam a mesma. Indo para nossas considerações finas, podemos afirmar, portanto, que a prática da chamada “psicoterapia” com o ChatGPT sugere tanto uma desilusão com a experiência humana quanto uma tentativa de controle sobre a dor – não confiamos em nós mesmos e não dispomos de meios de remunerar a nós mesmos; é a vitória da máquina versus a tecnologia de 300.000 anos mencionada no início do texto. Isso é sintoma de um tempo em que a subjetividade é tratada como “falha técnica” e não como potência criativa. A psicologia analítica oferece uma via alternativa, reconhecendo que o sofrimento e a dúvida fazem parte da condição humana. O desafio atual é lembrar que ainda somos seres naturais, que sonham, choram, criam, erram e amam, e que a cura, nesse sentido, se dá no encontro com o outro humano, e não na programação de um algoritmo. Naturalmente, esta breve crítica abre espaço para que pesquisas mais profundas sobre o tema sejam desenvolvidas a posteriori. Referências BALESTRINI JUNIOR, José Luiz; CONTRERA, Malena Segura. O sonho eletrificado: humanos sonham com ovelhas elétricas? Galáxia (São Paulo, online), v. 49, p. 1–24, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/gal/a/JTSq6Mb3PNN5HtD44xZStwy/. Acesso em: 5 ago. 2025. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2 ed. ampliada. Petrópolis: Vozes, 2017. HAN, Byung-Chul. Favor fechar os olhos: em busca de um outro tempo. Petrópolis: Vozes, 2021. JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos, transferência. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a. JUNG, Carl Gustav. Mysterium coniunctionis, vol. 14/1: pesquisas sobre a separação e composição dos opostos psíquicos na alquimia. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b. JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. JUNG, Kyuha; LEE, Gyuho; HUANG, Yuanhui; CHEN, Yunan. “I’ve talked to ChatGPT about my issues last night.”: Examining mental health conversations with large language models through Reddit analysis. arXiv, preprint arXiv:2504.20320 [cs.HC], 29 abr. 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2504.20320. Acesso em: 4 ago. 2025. NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo: Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020. ROUSMANIERE, Tony; ZHANG, Yimeng; LI, Xu; SHAH, Siddharth. Survey: ChatGPT may be the largest provider of mental health support in the United States. Sentio Counseling Center – AI Blog, San Francisco, 18 mar. 2025. Disponível em: https://sentio.org/ai-blog/ai-survey. Acesso em: 4 ago. 2025. SOUZA, Rafael Rodrigues de. Trabalho, sofrimento psíquico e autorrealização: uma leitura simbólica e crítica do drama contemporâneo. São Paulo: Eleva Cultural, 2022. THOMPSON, Willian Irwin (Org.). GAIA – Uma teoria do conhecimento. 4. ed. São Paulo: Gaia, 2014. TORRES, Leonardo. Contágio psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.
Título do Evento
Congresso Metodista 2025
Cidade do Evento
São Bernardo do Campo
Título dos Anais do Evento
Anais do Congresso Metodista – 2025
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SOUZA, Rafael Rodrigues de; FRANCO, Clarissa de. PSICOTERAPIA COM CHATGPT NA CONTEMPORANEIDADE: CRÍTICAS A PARTIR DO PENSAMENTO JUNGUIANO.. In: Anais do Congresso Metodista – 2025. Anais...Sao Bernardo do Campo(SP) Umesp, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/congresso-metodista-2025/1245376-PSICOTERAPIA-COM-CHATGPT-NA-CONTEMPORANEIDADE--CRITICAS-A-PARTIR-DO-PENSAMENTO-JUNGUIANO. Acesso em: 09/02/2026

Trabalho

Even3 Publicacoes