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Apresentação

Desempenhei o papel de Coordenadora da Comissão Científica do 24o Congresso Brasileiro de Psicodrama e 2o Congresso da International Association for Group Psychotherapy and Group Process (IAGP)-Regional Latino-americano, tive o privilégio de trabalhar com as presidentes, Ana Cristina Caldeira e Graça Campos, e com as demais componentes da Comissão, Adriana Piterbarg, Conceição Couto Machado, Margareth Calmon e Juliana Soares e das colegas que nos agraciaram com seus pareceres e avaliações. Na condução da dimensão científica dos congressos, me senti em um grupo de mulheres diferentes, reunidas pela genuína sororidade. Uma irmandade vivida de modo psicodramático, com confrontos, avanços e retrocessos nas dinâmicas conservadas do trabalho acadêmico-técnico, em um grupo de mulheres em postos de decisão. Como boas líderes sociometristas, mais do que sobreviver, ampliamos essa sócio dinâmica complexa e desafiadora para as demais comissões, cocriamos nossa placenta social, geramos um momento vibrante, vívido, compartilhado presencialmente, na PUC-MG e, de modo virtual, em diversas cidades e países.

Questionando as conservas - sempre! - os Anais dos congressos não foram produzidos pela Comissão Científica, mas sim, pela Diretoria de Publicações da Federação Brasileira de Psicodrama-FEBRAP. A partir dessa instância, a presente produção é de natureza mais pautada pela Comunicação Social do que propriamente pelo cânone acadêmico, o que, como militante da popularização do conhecimento, esperanço[1] ser importante para nosso tempo. Como já alertava Jacob Levi Moreno, a ampliação do acesso ao conhecimento a partir da nossa relação com as máquinas, nos convida a ampliar os espaços de expressão e os modos de interação, a humanizar essa disseminação do conhecimento, mais a partir das relações de confiança entre a diversidade de humanos - a democracia sociométrica - e menos a partir do privilégio da enunciação dos especialistas. Esperanço que essa publicação seja um evento, uma reunião de textos muito acessada por quem pratica, estuda, cria a partir dos conceitos e técnicas desenvolvidos por psicodramatistas e psicoterapeutas e facilitadores de grupos.

E como apresentar essa coleção de resumos de tantas atividades, sobre tantos assuntos, em diferentes sotaques do português e em outras línguas? Contando histórias. Quem já leu meus textos sabe, tenho uma predileção pela história das palavras, em especial do português brasileiro, recheado de palavras de outras línguas e de criações próprias, a partir do português dos colonizadores. E, na impossibilidade de comentar com justiça epistemológica os resumos das diversas modalidades de trabalhos que compõem a presente publicação, peço sua compreensão, leitora, para uma pequena digressão sobre a palavra Anais: “substantivo masculino plural. Obra que relata os acontecimentos de cada ano. Obra que registra a história de algo ou de alguém; história. Publicação periódica de ciências, artes ou letras. Livro que registra as memórias, as lembranças, as recordações pessoais. Etimologia: do latim annaes. Sinônimo de: arquivo, história, catalogação, memórias.” (Dicionário Houaiss online).

Pois é, essa palavra antiga, esse substantivo masculino talvez não se preste a denominar esse conjunto de resumos que autoras enviaram, antes de suas apresentações, e que foram apreciados e alterados a partir da avaliação e curadoria de muitos colegas que desempenharam o papel de pareceristas. Ainda mais se considerarmos que o tema dos Congressos foi: “Que mundo queremos? Eu, Você, Nós!” Expressão talvez ingênua nesses tempos de hiperconsumo, mas questão fundamental para artistas, filósofos, ativistas e cientistas, que concebem o mundo como criação humana e não como realidade externa. Pergunta que, nós psicodramatistas, empregamos para convidar para cenas que “brincam” com o espaço/tempo, com realidades suplementares. Então, o que apresento aqui é bem pouco história, memória ou catálogo, mas certamente, são arquivos.

Apresento origens, o começo da história que se desenrolou durante o ano em que preparamos os Congressos… E as origens são importantes, são sementes para novos começos mais do que para conservação dos momentos vividos. É das origens que o presente surge como anúncio do futuro. Apresento essas origens como sementes que já germinaram na primavera mineira, esperançando que sigam gerando flores e frutos.

Mais do que desejar, sei que os trabalhos aqui sintetizados, em muitas modalidades de escrita, elaboradas a partir de múltiplos lugares de fala e pertencimento, seguem espalhando sementes no movimento psicodramático, nos movimentos de psicoterapia de grupo e processos grupais. Que suas flores e frutos sejam histórias de confronto, de confluências, de criações pautadas pelo respeito, inclusão e parceria latino-americana, promovendo conhecimentos e práticas sobre e com grupos. Que nossos arquivos, nossas origens, sejam iniciadores de ações de cocriação de um mundo em que a produção do conhecimento e o registro e valorização das práticas e saberes sejam frutos de sócio dinâmicas de colaboração e voltados para ações de promoção da saúde e do bem viver.

 

Brasília, 09 de fevereiro de 2025.

                                                                                   Valéria Brito



[1] Conjugo aqui o verbo esperançar, criado por Conceição Evaristo.




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