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Apresentação
Apresentamos os anais da VII Conferência da Teoria Histórico Cultural e Ciência Tecnologia e Sociedade, Mediações da Identidade, e entendemos que ainda não somos tudo o que somos, assim como pouco sabemos do que nos diz respeito enquanto corre o tempo, estamos em processo. A vida social, as nossas memórias presentes em nosso modo de viver. Somos a igualdade do mundo desigual, o desequilíbrio de tudo. Pedaço coerente de um pensamento, a ordem lógica de uma ideologia, a crença que vive entre nós, e além, o que está dentro e fora ao mesmo tempo, a voz meritocrática que diz que merecemos ser ou não. O que somos derrete com a vela do tempo, e antes de nos vermos fora de nós, nos vemos como quem se perde e se encontra.
A identidade é um termo complexo, e ao mesmo tempo simples de entender. A proveniência significativa da palavra identidade surge de Idem (o mesmo, em Lat.), e por nossa inferência, a sua qualidade. O mesmo social cultural, histórico, o sujeito em sua qualidade identificada, uma qualificação de ser em si mesmo o que se professa a dizer, a se mostrar. Somos todos a resposta histórica cultural que nos identifica, e nos define.
Em Crátilo de Platão estão essas nuances de um ser nomeado, sabendo que o nome não é o ser. Dizer-se quem se é, ao mesmo tempo significa sermos quem somos através do que dizemos, e não do que somos sem a investidura, a coberta nomeada do que dizemos ser. De qualquer modo nos apresentamos, crentes que levamos conosco a nossa inteireza sólida de sermos quem propalamos ser. E há quem diga quem somos, que nos apresentemos a nós mesmos, e então somos levados a saber que somos através do outro. E confirmamos ou não, porém sempre voltados ao mesmo, àquele que a cada tempo na construção do pensamento como nos ensina a teoria histórico cultural em Vygotsky, a sermos quem no espaço contextual da existência, da realidade em movimento dizemos quem ser.
A identidade nos revela como parte de um nicho confirmativo, de que somos nós mesmos e socialmente. A identidade genética da raça humana, o que mais importa como seres da dúvida, da incerteza e jamais seres da invariabilidade, no imediato do agora e do porvir, no dizer de Nietzsche (1974) aquele que está a caminho de ser, um ser além da absolutidade, do racional e transcendental, da vaidade e do peso lógico das razões, a expectativa e o movimento em direção a um humano melhor. Em Vygotsky, a humanidade é reconhecida desde a sua história através da vivência e da experiência cultural social.
A igualdade no emaranhado ilógico das diferenças. Construtores de nossas certezas, de verdades que amanhã bem cedo se tornarão incertas, erros, descaminhos, somos o nome, e atrás dele, na cobertura da ordem orgânica, humana, nomeada, levados a nos transformarmos em alguém à procura de ser. Nada é definitivo, estanque, ninguém corre até o muro dos horizontes a fim de conceber o abismo, ao sermos nós mesmo amuralhados, abismados com a “trave nos olhos” (Bíblia, Mateus 3-5). Sem retirar aquilo que nos cega, não temos como retirar a do outro, sem o conhecimento, sem compartilhar a experiência da vida não poderemos entender os nossos passos, como ensina Nietzsche, um passo cria um abismo entre o ser e o não ser, cria distâncias e o terrível óbvio que nos toma como suficientes e auto-centrados.
Assim também é a identidade personal, de (persona, do grego), a máscara que inventamos, que construímos como uma inteireza de personalidade, um papel social a mostrar quem somos no palco existencial. Sabemos que mesmo acompanhados ainda estamos sós, necessitamos todos os dias alcançar o outro, dizer a que vimos, contar-lhe quem somos. E ao nos apresentar deixamos imediatamente de ser quem somos para nos atermos a quem somos no espaço da convivência. No contexto onde emergimos. Confirmamos, buscamos todas as justificativas para informar de onde viemos, para onde iremos, e o que fazemos aqui. E isso porque o humano, dentro da solidão, ainda é um ser plural, complexo, diverso em conjunto com os demais, mesmo com os ausentes, acompanhado da identidade e de sua transmutação.
Certamente, não serei o que sou senão uma parte; quanto mais sou diluído nas relações e interações sociais, nesse embate, nessa luta em nos tornarmos quem acreditamos ser. Um ser vitral, de estilhaços, a cada momento, quebrados, trincados, devolvidos em pedaços, todos os dias somos quem “junta os cacos” em busca de formar novamente a pessoa, a máscara vital, e a nos identificarmos como seres sociais e em transformação. Identidade, o mesmo, a máscara, a forma habitável onde nos escondemos e nos prevalecemos em querer ser, crentes de que somos.
A primeira base de uma identidade surge da construção de um conceito de si, como diz Vygotsky (pensamento e linguagem) que é feito de vínculos coerentes que sustentam a sua especificidade. A relação e a interação social é sempre renovada, e não temos como frear o pensamento, a criatividade, senão transformar o que pensamos ser no que seremos ou no que pensamos ser, e no que o outro pode pensar que somos, quem nos vê atuar no mundo. Há nisso um complexo que sobrepõe o conceito, em sua base factual em relação aos vínculos lógicos que o definem.
Isso se dá com o mundo nomeado, o mundo do qual participamos. No entanto, estamos em transformação, movidos pela história e cultura, atuantes no mundo em que os desiguais se tornam a totalidade possível de uma humanidade, de sermos todos completamente humanos. Essa talvez, seja a identidade primeira de sermos a unidade total da totalidade em que inseridos, somos diversos. Essa é a contradição de sermos unidos em separado, o complexo objetal da realidade inconstante.
No complexo, diz Vygotsky, esses vínculos podem ser tão diversificados quanto o contato diversamente fatual e a semelhança fatual dos mais diversos objetos, que estão em relação lógica e concreta entre si. Os vínculos humanos demandam outras generalizações, participam das incertezas, e das complexas atividades orgânicas que constituem o sujeito. As funções psicológicas superiores integradas a toda organicidade humana com a vida cultural social, a estrutura filogenética e ontogenética, as emoções com os nossos sentimentos, a ordem racional apreendida, o pensamento em palavras na dinâmica relacional, artística e criativa.
Bem possível que possamos dizer que a identidade de cada um de nós seja essa construção social, ao mesmo tempo em que ao ser quem somos, deixamos de sê-lo por nossa caminhada no tempo em que tudo se transforma. Não somos a garantia estanque das certezas absolutas, porém, somos carregados pelas atividades sociais.
Algo diz que somos o que aparentamos ser, a estrutura do corpo, o que aparece como uma forma, um jeito de expressar, a voz, o modo como nos relacionamos mostra alguma identidade. Definimos quem somos a partir da história que funda a ordem de um mundo social do qual aceitamos ou somos levados a fazer parte. O artista se diz artista a partir de sua expressão artística. Teoria e prática, a praxis (p?a?t????) social, o trabalho do artista diz quem ele é, o que o identifica.
O conto Identidade de Machado de Assis, mostra bem isso, se alguém parecido com um rei, um faraó toma seu lugar, ele, no lugar é o faraó, mesmo não sendo para o leitor que o percebe. Mas em si mesmo, ele é o faraó. Ainda que haja uma espécie de fraude, um engano, uma troca, o que não é torna-se o que realmente é na base pontual de ser, de estar investido em ser assumidamente. O imperador falso é um imperador verdadeiro aos olhos de sua gente, e nas ações imperiais que toma, mas é falsa a falsidade desse imperador. No entanto, certa de que o seja, sabendo-se que não é.
De outra maneira, um homem comum, como no conto de Machado de Assis, pode tomar o lugar de um rei, e um rei pode se tornar um homem comum. No momento em que descobre que jamais se identificou com a sua posição, sendo rei, nunca o foi. Uma vez que a aparente escolha se define como reconhecimento social, o ex-rei, descoberto como infeliz, e com isso, sentindo-se incapaz, não mais aceitando a sua condição, jamais poderá voltar ao seu trono porque aquele homem comum que se identifica com o papel de rei é o rei. A identidade pode ser uma condição, no caso, uma troca condicionada do qual o sujeito social se torna reconhecido por ser aquilo que aparenta e com o qual se nomeia.
Contrariando Machado de Assis, as aparências carregam uma identidade em sua aparência, isto é uma incorporação identificável, a representação do que aparece necessitando, portanto, de uma confirmação pública social, relacional e interacional, um conhecimento a ser adquirido e apresentado, uma performatização de um conhecimento. Isso porque, a lembrar o ditado popular: “o hábito não faz o monge."
Nesse sentido, a formação humana, a preparação disponibilizada no tempo, o conhecimento adquirido definem um caminho de ser de uma identidade.
Acreditamos que haja uma dimensão diagonal em meio a essas estruturas, um caminho em que estejam todas essas categorias estruturais interligadas, a teoria histórico cultural pode nos ajudar. o artista é ao mesmo tempo reconhecido por si mesmo e socialmente, todas as ações produtivas desde períodos, fases, e outras interligações podem ser percebidas a partir de uma visão integrada dos contextos sociais, históricos e culturais da qual participa.
Na verdade, desde Pavlov, como mostra Vygotsky, o ato reflexo é supervisionado por um líder no comando, e tem, para nós um duplo estado de relação, ao treinar o cão a responder a um comando, o sujeito também é comandado. Ao impor limites, também se limita. Se o cão toca a campainha por ter sido instruído a fazê-lo, de outro modo o treinador deverá vir à porta para atender ao que foi proposto, premiar o bom comportamento. Assim, também, reproduzir, como repetir a ordem sistemática, assumir um padrão, não corresponde à libertação criadora do aprendizado ou da construção de uma identidade.
Pensamos um tanto diferente, seguimos a teoria histórico-cultural, acreditamos que o humano é um ser em processo, a identidade de alguém, relacionada com a sua cultura, também se relaciona com a história de todos os demais humanos. Um pouco do que pensamos ser alcançado outras identidades, e o que nos leva a vestir nossas mais profundas certezas produz também no ambiente transformador e mediador na vida social um outro papel, e outras identidades.
Pedro Moreira da Silva Neto
Curitiba, 30 de agosto de 2025.
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Responsável
Dra. Maria Sara de Lima Dias
mariadias@utfpr.edu.br
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