CARTOGRAFIA DO INTERVALO À AULA DE CIÊNCIAS: DESLOCAMENTOS DE CORPOS, CURRÍCULOS E DISPUTAS POR EXISTÊNCIA

Publicado em 27/03/2026 - ISSN: 3086-4682

Título do Trabalho
CARTOGRAFIA DO INTERVALO À AULA DE CIÊNCIAS: DESLOCAMENTOS DE CORPOS, CURRÍCULOS E DISPUTAS POR EXISTÊNCIA
Autores
  • Augusto Helberty Silva
  • Ezequias Cardozo da Cunha Júnior
Modalidade
Resumo - Apresentação de Trabalho
Área temática
Estudos de Gênero e Sexualidades e suas Interseccionalidades em Educação Matemática
Data de Publicação
27/03/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/anaisegsem/1398696-cartografia-do-intervalo-a-aula-de-ciencias--deslocamentos-de-corpos-curriculos-e-disputas-por-existencia
ISSN
3086-4682
Palavras-Chave
Ensino Integral, Educação em Ciências, Docência, Interseccionalidade.
Resumo
Este resumo apresenta uma cartografia afetivo-política das experiências de um professor de Ciências em uma escola estadual de Ensino Fundamental II da rede pública de Minas Gerais, em Uberlândia, vividas em 2025 com uma turma do sétimo ano. Essas experiências aconteceram em dois regimes pedagógicos distintos: de um lado, na atuação como docente de Ciências Naturais, responsável por desenvolver conteúdos previstos no currículo oficial (biomas brasileiros e classificação biológica); de outro lado, na atuação como responsável pelo Intervalo do Integral, entre 11h30m e 13h, período oficialmente descrito como um momento recreativo do turno integral (manhã e tarde). A cartografia foi produzida a partir das narrativas do próprio professor e acompanha deslocamentos de corpos, espaços, normas e afetos ao longo do ano letivo. Esses deslocamentos evidenciam tensões entre o currículo formal, as expressões de gênero, raça, classe e sexualidade presentes na turma e as condições de existência dentro do ensino de Ciências na escola pública. No início do ano letivo, o professor via as aulas de Ciências como espaço para ensinar conteúdos essenciais como a classificação dos seres vivos, os biomas e grupos biológicos, seguindo o plano anual e preparando os e as estudantes para as avaliações. Ele supunha que a disciplina era neutra em relação à sociedade. No entanto, ele ensinava meninas e meninos racializados, de bairros periféricos e com diferentes corporalidades e identidades. Essas diferenças eram tratadas nas aulas apenas como contexto social dos e das estudantes, não como parte da educação científica. Esse é o primeiro ponto de tensão desse trabalho: a crença de que existe um modo neutro de ensinar Ciências. Paralelamente à aula formal, a escola mantinha uma proposta institucional para o Intervalo. Essa proposta seguia um modelo padronizado, com atividades ditas produtivas e seguras, oferecidas sem diálogo real com a turma. A adesão foi baixa. A maioria da turma recusava participar e preferia apenas descansar. Diante disso, o professor decidiu escutar a turma e começaram a surgir outras propostas. Metade da turma passou a propor práticas culturais e corporais próprias: dança K-pop, dança Vogue, batalhas de rima e poesia falada (slam), circulação de memórias e referências negras, periféricas e indígenas. Essas práticas não surgiram apenas como entretenimento, mas como afirmação coletiva de existência. Meninos e meninas dançaram Vogue e K-pop, testando outras maneiras de viver masculinidades e feminilidades. As batalhas de rima trouxeram as vozes do território, com seus sonhos e realidades. Referências negras e indígenas entraram não como tema do livro didático, mas como presença encarnada. Esse espaço, que aconteceu inicialmente em uma sala, com caixa de som, com proximidade e confiança, tornou-se um lugar de invenção política. Um território provisório de afirmação interseccional e queer, no qual os e as estudantes produziram, entre si e com o professor, modos de existir em que raça, gênero, classe, território e sexualidade aparecem juntos, como atravessamentos inseparáveis na vida de corpos historicamente marcados pela exclusão (Akotirene, 2019; Butler, 1990). Essa experiência também produziu uma fratura interna no professor. Ele percebeu que, nas suas aulas de Ciências, esses corpos não apareciam dessa forma. Sua aula, tratada até então como neutra, operava como silenciamento, colaborando com um currículo oculto que nega esses corpos como produtores legítimos de conhecimento. Essa percepção não foi confortável e exigiu do professor uma reposição ética do seu papel docente, pensado como prática política e de liberdade (hooks, 1994). Quando esse espaço criado no Intervalo ganhou força, a gestão escolar interveio. A organização foi alterada e a turma deixou de ocupar a sala, que funcionava como abrigo, e passou a ser levada para a quadra, junto com outras turmas e sob vigilância de outras pessoas. A caixa de som deixou de circular e as práticas foram redistribuídas em formatos considerados legítimos pela escola: parte dos meninos no futebol, das meninas no vôlei, o K-pop ficou restrito às turmas do Ensino Médio e o slam desapareceu. Essa mudança espacial não é neutra porque reinscreve um binarismo de gênero, regula corpos e desejos em público e transforma uma experiência coletiva insurgente em atividade controlada e administrável (Britzman, 1995; Butler, 1990). O que era um território menor, um espaço inventado, vivo e insurgente, foi capturado pela máquina maior, normalizado e repartido (Deleuze; Guattari, 1997). Diante dessa captura, restou ao professor reconhecer que a aula de Ciências, antes entendida como neutra, deveria ser assumida como lugar de disputa pela possibilidade de existir. O que estava em disputa, então, não era apenas o conteúdo de Ciências, mas quem tem o direito de permanecer inteiro/a dentro dessa aula. A resposta do professor foi tentar deslocar essa função de abrigo interseccional para dentro da aula de Ciências. A pergunta pedagógica mudou e deixou de ser “como eu explico Ciências?” para “como eu garanto que as diferenças possam existir na aula de Ciências?”. Essas narrativas destacam que as disputas em torno de gênero, raça, classe e sexualidade não acontecem apenas em discursos sobre esses temas, mas são organizadas materialmente pela escola, inclusive pela gestão dos espaços e definição do que conta como atividade legítima. Ao acompanhar essas disputas e suas consequências sobre a docência com uma turma do sétimo ano, essa cartografia indica que o ensino de Ciências precisa ser entendido também como intervenção micropolítica capaz de enfrentar tentativas de normalização dos corpos e redução de suas formas de existência a papéis socialmente aceitáveis. O ensino de Ciências, nesse sentido, não é só ensino e aprendizagem, é também disputa de mundos por vir.
Título do Evento
Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática - E²GSEM - 2ª Edição
Título dos Anais do Evento
Anais da Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SILVA, Augusto Helberty; JÚNIOR, Ezequias Cardozo da Cunha. CARTOGRAFIA DO INTERVALO À AULA DE CIÊNCIAS: DESLOCAMENTOS DE CORPOS, CURRÍCULOS E DISPUTAS POR EXISTÊNCIA.. In: Anais da Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática. Anais...Rio de Janeiro(RJ) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/anaisegsem/1398696-CARTOGRAFIA-DO-INTERVALO-A-AULA-DE-CIENCIAS--DESLOCAMENTOS-DE-CORPOS-CURRICULOS-E-DISPUTAS-POR-EXISTENCIA. Acesso em: 29/06/2026

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