MENINAS NEGRAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA E SUAS RELAÇÕES COM GÊNERO, RAÇA E MATEMÁTICA EM UMA ESCOLA ESTADUAL DE UBERABA

Publicado em 27/03/2026 - ISSN: 3086-4682

Título do Trabalho
MENINAS NEGRAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA E SUAS RELAÇÕES COM GÊNERO, RAÇA E MATEMÁTICA EM UMA ESCOLA ESTADUAL DE UBERABA
Autores
  • Ana Gabriele Naves Barbosa
  • Carla Cristina Pompeu
Modalidade
Resumo - Apresentação de Trabalho
Área temática
Estudos de Gênero e Sexualidades e suas Interseccionalidades em Educação Matemática
Data de Publicação
27/03/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/anaisegsem/1398634-meninas-negras-da-educacao-basica-e-suas-relacoes-com-genero-raca-e-matematica-em-uma-escola-estadual-de-uberab
ISSN
3086-4682
Palavras-Chave
Educação Matemática; Interseccionalidade; Meninas Negras; Escola Pública; Identidade e Pertencimento
Resumo
Nós, mulheres pesquisadoras em Educação Matemática, predominantemente, já nos deparamos com incômodos que atravessam nossas trajetórias, tais como: por que a Matemática, muitas vezes, ainda se constrói como um território hostil para corpos dissidentes, femininos, negros e periféricos? Essas inquietações, que movem nossa prática investigativa e formativa, encontram respaldo no campo da Educação Matemática crítica e interseccional (Ole Skovsmose, 2001; Patricia Hill Collins e Sirma Bilge, 2020). Assim, nesta pesquisa em andamento, buscamos compreender como meninas pretas e pardas, estudantes dos oitavos e nonos anos de uma escola pública estadual de Uberaba (MG), vivenciam e atribuem sentido às suas relações com a Matemática, ao passo que constroem coletivamente modos de resistência frente às estruturas de gênero, raça e desigualdade social que atravessam a escola e o ensino dessa disciplina. A presente investigação integra o projeto “Meninas da Educação Básica, Graduandas e Professoras nas Áreas de Ciências Exatas Apropriando-se de Estratégias de Pesquisa de Opinião e Constituindo-se como Produtoras de Conhecimento sobre as Relações entre Gênero, Raça e Matemática”, financiado pelo CNPq e desenvolvido em rede entre diferentes instituições mineiras (UNIVALE, 2023). Nosso recorte local visa acompanhar, ao longo de um ano, as experiências de onze meninas racializadas do Ensino Fundamental II, de modo a compreender suas percepções, afetos e sentidos atribuídos à Matemática. Mais do que um estudo sobre aprendizagem, interessa-nos a forma como estas aprendem, questionam, interpretam e compreendem matemática, gênero e raça, produzindo conhecimento matemático a partir de suas realidades. Inspiradas em Simone de Beauvoir (2009), reconhecemos que a construção da identidade feminina é historicamente marcada por uma lógica de dominação simbólica, que posiciona a mulher como o “Outro” em relação ao homem. Grada Kilomba (2012), por sua vez, tensiona essa compreensão ao propor que a mulher negra ocupa o lugar do “Outro do Outro”, evidenciando as camadas de exclusão que atravessam o ser mulher e o ser negra na nossa sociedade. Essas formulações teóricas dialogam diretamente com o campo da Educação Matemática, na medida em que a Matemática hegemônica, a dita Matemática com “M” maiúsculo, segundo Roger Diego Matos Gondim e Roger Miarka (2017), se construiu historicamente a partir de ideais de neutralidade, universalidade e objetividade, ocultando que é um saber socialmente produzido, racializado e generificado. Entendemos, assim, que discutir gênero, raça e desigualdade social na Matemática é discutir quem pode ocupar o lugar de quem ensina, aprende e produz conhecimento. Thays Alves de Oliveira, Daniele Costa Silva e Vanessa Franco Neto (2024) questionam o “imperialismo da Matemática”, isto é, o modo como a disciplina se impõe como campo de poder e exclusão, silenciando outras epistemologias e vozes. Para compreender esse contexto complexo, escolhemos um referencial teórico que se ancora em uma perspectiva interseccional (Collins & Bilge, 2020), a qual compreende que gênero, raça, classe e outros marcadores sociais não atuam de forma isolada, mas se entrecruzam na constituição das experiências. As meninas participantes da pesquisa não são apenas estudantes, mas jovens que vivem a sobreposição de desigualdades. Desta forma, optamos pela pesquisa participante (Maria Luisa Sandoval Schmidt, 2006; Pedro Demo, 2008), alicerçando-nos no compromisso com a escuta e com a produção coletiva do conhecimento. Compreendemos que investigar com, e não sobre, implica deslocar a lógica da observação distanciada para o encontro dialógico. Por tal razão, nos reunimos, enquanto grupo composto por mulheres e meninas, semanalmente em atividades vinculadas ao NEPSO*. Não menos importante, articulamos entrevistas semiestruturadas, que permitem conhecer as trajetórias das meninas e perceber práticas, gestos e silenciamentos que nem sempre se traduzem em questionários ou entrevistas estruturadas. Ao longo dos primeiros meses de campo, temos percebido que a relação das meninas com a Matemática é permeada por ambivalências. De um lado, há um discurso internalizado de que a disciplina é “difícil” e “para poucos”; de outro, emergem práticas de resistência: elas se apoiam mutuamente, se encorajam a responder e celebram acertos coletivos. Assim, a Educação Matemática que defendemos é, portanto, uma prática de “estranhamento”, no sentido queer do termo (MatematiQueer, 2025). Finalizamos reafirmando que discutir gênero e raça em Educação Matemática é discutir democracia, justiça social e o direito de existir plenamente. É assumir que não há neutralidade no ensino, que toda prática educativa é política e que, portanto, deve ser comprometida com a equidade. Ao narrarmos as experiências das meninas, narramos também nossas próprias trajetórias como mulheres que escolheram permanecer nas ciências exatas. Como nos ensina Gondim e Miarka (2017), exercitar uma “matemática menor” é exercitar a vida, uma matemática que se faz acontecimento, verbo e movimento. É nesse movimento que seguimos: escrevendo, escutando, aprendendo e resistindo juntas. Referencial BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. COLLINS, Patricia Hill; BILGE, Sirma. Interseccionalidade. São Paulo: Boitempo, 2020. DEMO, Pedro. Pesquisa participante: saber pensar e intervir juntos. 2. ed. Rio de Janeiro: Liber Livro, 2008. DE OLIVEIRA, Thays Alves; SILVA, Daniele Costa; NETO, Vanessa Franco. Não há neutralidade: que Matemática é essa que utilizamos? Seminário Internacional de Pesquisa em Educação Matemática, p. 1–12, 2024. GONDIM, Diego Matos; MIARKA, Roger. A constituição de um plano de intensidades: aprender e matemática e diferença e escrita-avalanche e... Perspectivas da Educação Matemática, v. 10, n. 22, p. 115–131, 2017. KILOMBA, Grada. Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag, 2012. MATEMATIQUEER. Informações institucionais e temáticas da 1ª Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática (E²GSEM). Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2025. NEPSO. Sobre. Disponível em: http://www.nepso.net/sobre. Acesso em: 27 out. 2025. SKOVSMOSE, Ole. Educação Matemática Crítica: A Questão da Democracia. Campinas: Papirus, 2001. SCHMIDT, Maria Luisa Sandoval. Pesquisa participante: alteridade e comunidades interpretativas. Psicologia USP, v. 17, p. 11–41, 2006. UNIVERSIDADE VALE DO RIO DOCE (UNIVALE).Meninas da educação básica, graduandas e professoras nas áreas de ciências exatas apropriando-se de estratégias de pesquisa de opinião e constituindo-se como produtoras de conhecimento sobre as relações entre gênero, raça e matemática. Proposta submetida à Chamada CNPq/MCTI/MMulheres nº 31/2023 – Linha 2, Projeto em Rede Regional. Governador Valadares: UNIVALE, 2023. Não publicado.
Título do Evento
Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática - E²GSEM - 2ª Edição
Título dos Anais do Evento
Anais da Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

BARBOSA, Ana Gabriele Naves; POMPEU, Carla Cristina. MENINAS NEGRAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA E SUAS RELAÇÕES COM GÊNERO, RAÇA E MATEMÁTICA EM UMA ESCOLA ESTADUAL DE UBERABA.. In: Anais da Escola de Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática. Anais...Rio de Janeiro(RJ) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/anaisegsem/1398634-MENINAS-NEGRAS-DA-EDUCACAO-BASICA-E-SUAS-RELACOES-COM-GENERO-RACA-E-MATEMATICA-EM-UMA-ESCOLA-ESTADUAL-DE-UBERAB. Acesso em: 29/06/2026

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