INDEPENDÊNCIA DO BANCO CENTRAL: NASCIMENTO, VIDA E SOBREVIDA DE UM CONCEITO

Publicado em 26/10/2026 - ISBN: 978-65-272-2867-7

Título do Trabalho
INDEPENDÊNCIA DO BANCO CENTRAL: NASCIMENTO, VIDA E SOBREVIDA DE UM CONCEITO
Autores
  • Nuno Jorge Rodrigues Teles Sampaio
Modalidade
Resumo Expandido (Público Geral/Não Associados AKB) / Extended Abstracts (Non AKB members)
Área temática
Área 6. Economia Monetária e Financeira e Dinâmica Inflacionária
Data de Publicação
26/10/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/akb2026-697763/1579156-independencia-do-banco-central--nascimento-vida-e-sobrevida-de-um-conceito
ISBN
978-65-272-2867-7
Palavras-Chave
Banco central, Novo Consenso Maqcroeconômico, Brasil
Resumo
Introdução Embora a autonomia, legalmente formalizada, do Banco Central do Brasil (BCB) seja recente, a discussão pública e política em torno da independência do banco central no Brasil remonta aos anos noventa. Na esfera internacional, a defesa da independência do banco central remonta aos anos oitenta, então entendida como condição para o combate à inflação. Desde então, os bancos centrais têm colecionado sucessivos insucessos em seus objetivos políticos – do controle da massa monetária à estabilidade financeira. Porém, o seu poder e independência em relação aos mecanismos de deliberação democrática não têm diminuído. Pelo contrário, tal como uma ideia zumbi, a independência dos bancos centrais tem crescido ao longo das últimas décadas, aumentando, assim, a discricionariedade da política monetária que a independência visava explicitamente combater. Este artigo parte de um texto de discussão, mais alargado, organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, sobre a independência dos bancos. Neste artigo, procura-se escrutinar o nascimento, a vida e a sobrevida da independência do banco central enquanto ideia e prática na condução da política monetária. Partindo da síntese keynesiana, dominante no pós-segunda Guerra Mundial, este artigo analisa as críticas monetaristas e novo clássicas, base teórica da independência do Banco central, e sua elaboração no “Novo Consenso Macroeconômico”. O artigo argumenta que, embora a evidência empírica e teórica, sobretudo no contexto da Crise Financeira Global (CFG), tenha desafiado este consenso intelectual, não se observa, hoje, um enfraquecimento político da independência dos bancos centrais. Pelo contrário, assistiu-se nos últimos anos a uma reconfiguração das suas funções, com reforço do seu poder, alinhada com os interesses de velhos e novos agentes financeiros. Finalmente, o artigo discute as especificidades deste debate no contexto da subordinação financeira do Brasil. A independência do BCB e o regime de metas de inflação assumem aqui uma declinação exacerbada, refletida no novo enquadramento legal de sua autonomia e em uma postura política particularmente agressiva. Problema de pesquisa O artigo analisa a trajetória do conceito de independência do banco central enquanto ideia teórica e prática institucional, questionando por que razão esta ideia sobreviveu e se reforçou apesar dos seus reiterados insucessos empíricos e do abalo intelectual provocado pela Crise Financeira Global de 2008. O problema central é, portanto, o da expansão do poder tecnocrático dos bancos centrais — caracterizada como uma "ideia zumbi" (Qanas e Sawyer, 2024) — num contexto em que a discricionariedade da política monetária, que a independência visava explicitamente combater, aumentou, já que para lá dos objetivos explícitos de combate à inflação, observamos um banco central cada vez mais atuante nos mercado financeiros, garantindo preços de ativos, naquilo que Gabor (2023) denomina como derisking state. Objetivos Escrutinar o nascimento, a consolidação e a sobrevida da independência do banco central enquanto conceito teórico e dispositivo institucional, desde as suas origens na crítica monetarista e novo clássica até à sua configuração atual, com atenção particular às especificidades do caso brasileiro no quadro da subordinação financeira periférica. Metodologia O trabalho parte de uma abordagem de história do pensamento econômico e economia política, articulando revisão teórica da literatura macroeconômica convencional, de raiz neoclássica, com análise crítica da evidência empírica e teórica relevante. Para o caso brasileiro, combina análise institucional do regime de metas de inflação e da autonomia formal do BCB (aprovada em 2021) com enquadramento teórico heterodoxo, mobilizando a literatura sobre financeirização subordinada (Kaltenbrunner e Painceira, 2018) e a crítica pós-keynesiana e estruturalista à política monetária brasileira (Modenesi e Modenesi, 2012, Summa e Serrano, 2018; Bresser-Pereira et al., 2020). Principais resultados A independência do banco central emergiu não de uma evidência empírica robusta, mas da hegemonia teórica do neoliberalismo nos anos 1980, ancorada nas críticas monetaristas de Friedman (1962, 1969, 1970) e dos novo clássicos como Kydland e Prescott (1977), Barro e Gordon (1983) ao viés inflacionário da política econômica ativista, dita discricionária por estes autores. Face ao falhanço empírica e político do monetarismo (Kaldor, 1985), o Novo Consenso Macroeconômico, na sua síntese entre os novos clássicos e contributos neokeynesianos, conferiu aos bancos centrais maior flexibilidade e poder no novo regime de metas de inflação, encapsulado na regra de Taylor, aprofundando paradoxalmente a discricionariedade que a independência pretendia eliminar — legitimada pela figura do banqueiro "conservador" e pela credibilidade junto aos mercados (Rogoff, 1985; Alesina e Summers, 1993). A crise de 2008 desafiou o consenso intelectual sem, no entanto, enfraquecer o poder institucional dos bancos centrais. Pelo contrário, estes assumiram novos papéis (compradores de último recurso, gestores de preços de ativos), ampliando o seu poder tecnocrático ao serviço dos interesses do mercado financeiro (Gabor, 2023; Teles e Reitermajer, 2026). As questões da independência e do escrutínio democrático dessas instituições públicas ganham, por isso, relevância acrescida (Monnet, 2024). No Brasil, o regime de metas de inflação e a independência do BCB assumem uma forma exacerbada, condicionada pela subordinação financeira periférica. O principal canal de transmissão da política monetária à inflação é o canal cambial, voltado à atração de capitais de curto prazo, o que gera uma das mais elevadas taxas de juros reais do mundo, com custos persistentes sobre o produto, o emprego e a distribuição de renda. Num resultado institucional singular, é o Tesouro brasileiro que acaba por assumir o papel de mitigador de risco do mercado financeiro, emitindo títulos pós-fixados indexados à Selic e intervindo diretamente na compra de títulos para sustentar os preços de mercado, invertendo a relação de dependência entre as autoridades fiscal e monetária identificada pela literatura. Referências ALESINA, A.; SUMMERS, L.H. Central bank independence and macroeconomic performance: some comparative evidence. Journal of Money, Credit and Banking, v. 25, n. 2, p. 151-162, 1993. BARRO, Robert J.; GORDON, David B. Rules, discretion and reputation in a model of monetary policy. Journal of monetary economics, v.12, n. 1, p.101-121,1983. BRESSER-PEREIRA, L.C.; PAULA, L.F.; BRUNO, M. Financialization, coalition of interests and interest rate in Brazil. Revue de la régulation [on-line], n. 27, 2020. Disponível em: https://journals.openedition.org/regulation/16636#quotation. FRIEDMAN, M. 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Quinze anos de rigidez monetária no Brasil pós-Plano Real: uma agenda de pesquisa. Brazilian Journal of Political Economy, v. 32, n. 3, p. 389-41, 2012. MONNET, E. Balance of power: Central banks and the fate of democracies. EUA: University of Chicago Press, 2024. QANAS, J. l; SAWYER, M. Independence’of central banks and the political economy of monetary policy. Review of Political Economy, 2024, 36.2: 565-580, 2024. ROGOFF, K., 1985, The Optimal Degree of Commitment to an Intermediate Monetary Target, Quarterly Journal of Economics 100, p. 1169-1189, 1985. SUMMA, R.; SERRANO, F. Distribution and conflict inflation in Brazil under inflation targeting, 1999–2014. Review of Radical Political Economics, v. 50, n. 2, p. 349-369, 2018. TELES, N.; REITERMAJER, C. Shadow money and shadow banks in Brazil: A case of subordinated derisking. Competition & Change, 2026.
Título do Evento
XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira
Cidade do Evento
São Cristóvão
Título dos Anais do Evento
Anais do XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SAMPAIO, Nuno Jorge Rodrigues Teles. INDEPENDÊNCIA DO BANCO CENTRAL: NASCIMENTO, VIDA E SOBREVIDA DE UM CONCEITO.. In: Anais do XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira. Anais...Aracaju(SE) Hotel Del Mar, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/akb2026-697763/1579156-INDEPENDENCIA-DO-BANCO-CENTRAL--NASCIMENTO-VIDA-E-SOBREVIDA-DE-UM-CONCEITO. Acesso em: 06/11/2026

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