STABLECOINS E CBDCS: HEGEMONIA DO DÓLAR, POLÍTICA MONETÁRIA, SOBERANIA NACIONAL

Publicado em 26/10/2026 - ISBN: 978-65-272-2867-7

Título do Trabalho
STABLECOINS E CBDCS: HEGEMONIA DO DÓLAR, POLÍTICA MONETÁRIA, SOBERANIA NACIONAL
Autores
  • Carlos Eduardo Carvalho
  • João Paulo Nicolini Gabriel
Modalidade
Resumo Expandido (para Associados AKB) / Extended Abstracts (AKB members)
Área temática
Área 6. Economia Monetária e Financeira e Dinâmica Inflacionária
Data de Publicação
26/10/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/akb2026-697763/1579106-stablecoins-e-cbdcs--hegemonia-do-dolar-politica-monetaria-soberania-nacional
ISBN
978-65-272-2867-7
Palavras-Chave
stablecoin, CBDC, GENIUS Act, dólar, yuan digital, moeda
Resumo
INTRODUÇÃO O artigo destacará três questões: - os significados do GENIUS e suas implicações: reafirmação da hegemonia do dólar; integração das plataformas digitais ao arcabouço institucional dos EUA; barrar iniciativas da China para ampliar o uso do yuan digital e sua presença financeira no mundo; - os problemas e as iniciativas para a difusão das CBDCs, em especial da China; - implicações para a política monetária e para o entendimento da moeda em tempos de criptografia e mudanças nas formas da moeda e das atividades financeiras. Adicionalmente, situar o GENIUS dentro das iniciativas e das políticas gerais do governo Trump e do conjunto de forças que este governo representa, que o precederam e que vão além do governo específico neste momento PROBLEMA DE PESQUISA A incorporação das stablecoins à estrutura regulatória dos Estados Unidos, com a aprovação do Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act (GENIUS Act), em 18/07/2025, deve ser lida como um movimento explícito na disputa por soberania monetária. Incorporar instrumentos privados de pagamento à órbita estatal reposiciona o exercício do poder monetário em um ambiente marcado pela digitalização do dinheiro e pela competição entre infraestruturas financeiras globais. Trata-se de preservar e ampliar a centralidade internacional do dólar, proteger a estabilidade do sistema financeiro e acomodar interesses dos grandes bancos e das plataformas digitais. O GENIUS criou a payment stablecoin, definida como ativo digital utilizável como meio de pagamento, com registro criptográfico e possibilidade de compensação no mercado aberto por meio de instituições autorizadas a operar com o Fed. Essas stablecoins devem manter lastro integral em ativos líquidos de alta qualidade, sobretudo dólares e títulos do Tesouro americano de até 93 dias, além da garantia de resgate ao par. A emissão é restrita a instituições autorizadas, payment stablecoin issuers, que devem ser empresas criadas com essa finalidade, inclusive por bancos, ou pessoas físicas, ou subsidiárias de grupos estrangeiros, desde que sediadas nos EUA e submetidas à regulação doméstica. O arranjo cria uma separação clara entre ativos digitais aptos a operar como meios de pagamento estáveis e os demais. O emissor aufere o rendimento do lastro, o usuário obtém liquidez e previsibilidade de valor, inclusive em transações internacionais, e o Tesouro obtém maior demanda por títulos da dívida pública. O interesse por stablecoins cresceu por combinar liquidação quase instantânea, baixo custo operacional, alcance transfronteiriço e preço estável. Entre 2020 e 2025, o estoque global passou de menos de US$ 30 bilhões para algo próximo a US$ 230 bilhões. A concentração é elevada. O USDT, da Tether, supera US$ 130 bilhões, enquanto o USDC, da Circle, US$ 30 bilhões. Embora ainda modestos frente aos mercados globais de capitais, são volumes já suficientes para alterar práticas de pagamento internacional, facilitar remessas e oferecer proteção privada em economias marcadas por elevada volatilidade cambial ou restrições de acesso ao dólar. Em países da América Latina, empresas e famílias podem gerir diretamente sua exposição cambial com o acesso a instrumentos privados em dólar, fora do alcance imediato da política monetária. O GENIUS formaliza a vertente mais consensual da resposta americana à digitalização do dinheiro: incorporar stablecoins privadas ao perímetro regulatório estatal como instrumento de preservação da soberania monetária e da centralidade do dólar. A tentativa de avançar para uma reorganização mais ampla do mercado de criptoativos, proposta no Digital Asset Market Clarity Act (CLARITY Act), revelou-se politicamente mais conflitiva e permanece paralisada no Congresso. O impasse reflete a disputa entre Wall Street, que defende enquadramento prudencial próximo ao do sistema financeiro tradicional, e a indústria cripto, que resiste à supervisão e à equiparação regulatória. O resultado é uma estratégia seletiva: disciplina firme onde há interesse sistêmico e regulação mais frouxa e tolerante onde o custo político é elevado. Essa escolha é reforçada pela Casa Branca. Em janeiro de 2025, ordem executiva assinada por Donald Trump proibiu o desenvolvimento de uma moeda digital de banco central nos EUA. Sob o argumento de proteger a privacidade e limitar o alcance do Estado sobre transações individuais, Washington fechou a via estatal da digitalização da moeda nacional e optou por exercer sua soberania pela regulação do dinheiro privado lastreado em títulos do Tesouro. O arranjo pretende ampliar a soberania monetária pelo controle da infraestrutura jurídica, regulatória e financeira que sustenta a circulação global do dólar digitalizado. O desenho regulatório reflete aprendizados com problemas recentes, como o colapso do ecossistema Terra/Luna, em 2022, e a investigação de 2019 sobre o uso das reservas do USDT. Formou-se o consenso de que estabilidade em grande escala exige ativos líquidos, verificáveis e juridicamente protegidos. As plataformas de intermediação permanecem como o elo menos transparente do sistema, por acumularem funções de custódia, negociação e até de incentivo à alavancagem e à especulação com stablecoins. A consolidação de um marco rigoroso para os emissores reduz riscos, mas não elimina problemas associados à circulação de grandes volumes fora do perímetro bancário tradicional. O dinheiro digital não dissolve a hierarquia monetária internacional. Ao contrário, pode reforçá-la pelo avanço estatal sobre a infraestrutura da liquidação financeira. O dólar permanece como unidade de conta dominante e expande seu uso como meio de pagamento e reserva de valor, através de canais privados, fragmentados e distribuídos globalmente, mas ancorados no sistema jurídico e financeiro americano. Trata-se de projeção de poder baseada não em coerção direta, mas sim em infraestrutura tecnológica avançada, difícil de controlar pelos demais Estados nacionais. Países como o Brasil ficam diante do dilema de obter ganhos de eficiência no curto prazo sem perder a capacidade de governar sua própria soberania monetária. O presidente do BCB afirmou que 90% das transações com criptoativos no país usam stablecoins para pagamentos e compras no exterior. E o debate sobre regulação das criptomoedas segue concentrado na intermediação, e não nas implicações monetárias mais amplas. O contraste com a estratégia chinesa é instrutivo. Renminbi digital e instrumentos de liquidação transfronteiriça coordenados por bancos centrais dependem de acordos entre governos. Oferecem garantia estatal e reduzem a exposição a intermediários privados estrangeiros, mas enfrentam dificuldades para ampliar escala e diversificar demanda, inclusive pela ausência de oferta ampla para estrangeiros de ativos seguros e líquidos denominados em yuans. Na Europa, a ausência de um mercado de dívida unificado e com liquidez ampla limita o alcance de iniciativas em euros. A tecnologia avança e a regulação também, mas a escassez relativa de ativos líquidos como os americanos restringe a atratividade. Em suma: não é a inovação tecnológica que sustenta uma moeda internacional, e sim a liquidez e a profundidade dos mercados em que é transacionada e a percepção sobre as capacidades de seu emissor. METODOLOGIA Acompanhar a regulamentação das disposições do GENIUS Act no Congresso e as posições representativas dos interesses das plataformas, do Fed e dos grandes bancos Rever e sistematizar os debates em curso sobre as implicações das stablecoins e das CBDCs para a demanda e a oferta de moeda e para a política monetária. OBJETIVOS E PRINCIPAIS RESULTADOS ESPERADOS Comprovar a hipótese que as payment stablecoins favorecem de forma significativa a demanda por dólares como reserva de valor em países com problemas de inflação e desconfiança nas capacidades fiscais do Estado. Aprofundar a compreensão dos objetivos do governo Trump e das forças que o apoiam. Identificar a analisar medidas tomadas por estes países para enfrentar o problema Acompanhar as iniciativas da China para favorecer os uso internacional do yuan e os resultados obtidos.
Título do Evento
XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira
Cidade do Evento
São Cristóvão
Título dos Anais do Evento
Anais do XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

CARVALHO, Carlos Eduardo; GABRIEL, João Paulo Nicolini. STABLECOINS E CBDCS: HEGEMONIA DO DÓLAR, POLÍTICA MONETÁRIA, SOBERANIA NACIONAL.. In: Anais do XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira. Anais...Aracaju(SE) Hotel Del Mar, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/akb2026-697763/1579106-STABLECOINS-E-CBDCS--HEGEMONIA-DO-DOLAR-POLITICA-MONETARIA-SOBERANIA-NACIONAL. Acesso em: 06/11/2026

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