METAS DE INFLAÇÃO NA PERIFERIA: CÂMBIO ADMINISTRADO, ACUMULAÇÃO DE RESERVAS E INSTABILIDADE FISCAL-FINANCEIRA

Publicado em 26/10/2026 - ISBN: 978-65-272-2867-7

Título do Trabalho
METAS DE INFLAÇÃO NA PERIFERIA: CÂMBIO ADMINISTRADO, ACUMULAÇÃO DE RESERVAS E INSTABILIDADE FISCAL-FINANCEIRA
Autores
  • Julio Fernando Costa Santos
Modalidade
Resumo Expandido (para Associados AKB) / Extended Abstracts (AKB members)
Área temática
Área 6. Economia Monetária e Financeira e Dinâmica Inflacionária
Data de Publicação
26/10/2026
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
pt-BR
Página do Trabalho
https://www.even3.com.br/anais/akb2026-697763/1573590-metas-de-inflacao-na-periferia--cambio-administrado-acumulacao-de-reservas-e-instabilidade-fiscal-financeira
ISBN
978-65-272-2867-7
Palavras-Chave
metas de inflação; inflação por conflito distributivo; intervenção cambial; reservas esterilizadas; dívida pública; economias emergentes.
Resumo
Este artigo analisa a fragilidade macroeconômica de economias emergentes que operam sob uma combinação institucional aparentemente coerente, mas internamente tensionada: regime de metas de inflação, compromisso fiscal com a geração de superávits primários e taxa de câmbio formalmente flexível, embora sujeita a intervenções recorrentes da autoridade monetária. A hipótese central é que esse arranjo, frequentemente tratado como um conjunto de instrumentos complementares de estabilização, produz efeitos distintos em economias financeiramente abertas e dotadas de moedas periféricas. Nessas economias, a política monetária, a política fiscal e a política cambial não podem ser compreendidas como blocos independentes, pois seus efeitos se propagam por meio de canais comuns: a taxa de câmbio, o prêmio de risco, os fluxos de capitais, a inflação, a distribuição de renda e a dinâmica da dívida pública. O ponto de partida do artigo é a crítica à representação convencional do regime de metas de inflação em economias pequenas e abertas. Nos modelos canônicos, a taxa de juros é apresentada como instrumento suficiente para estabilizar a inflação, enquanto a taxa de câmbio opera como variável de ajuste externo. Em economias emergentes, contudo, a taxa de câmbio não é apenas um preço relativo. Ela afeta diretamente os custos de produção, os preços de bens importados, os insumos intermediários, os salários reais, a rentabilidade das firmas, as expectativas inflacionárias e a percepção de risco dos investidores. Por isso, depreciações cambiais podem gerar inflação não apenas por repasse de preços externos, mas também por intensificarem conflitos distributivos entre trabalhadores, firmas, Estado e setor externo. A partir dessa perspectiva, o artigo desenvolve um modelo macrodinâmico compacto de inspiração pós-kaleckiana e rowthorniana. A inflação é tratada como resultado de um processo de conflito distributivo, no qual pressões de custo, mark-ups, reivindicações salariais e condições de utilização da capacidade produtiva interagem com choques cambiais e inflação importada. A política monetária reage aos desvios da inflação em relação à meta, mas sua ação não é neutra: elevações da taxa real de juros podem reduzir pressões inflacionárias ao comprimir a demanda e enfraquecer o conflito distributivo, ao mesmo tempo em que deprimem o investimento, elevam o custo da dívida e reforçam a fragilidade fiscal-financeira. O modelo também incorpora a lógica da flutuação administrada. Bancos centrais de economias emergentes intervêm no mercado cambial porque grandes oscilações da taxa de câmbio afetam a inflação, a distribuição de renda e as condições financeiras. A acumulação de reservas internacionais pode, nesse sentido, funcionar como mecanismo de proteção contra choques externos, reduzindo a vulnerabilidade cambial e o prêmio de risco. No entanto, quando essa acumulação é esterilizada para preservar o controle sobre a taxa doméstica de juros, o setor público passa a carregar ativos externos de menor rendimento financiados por passivos domésticos mais custosos. Assim, a mesma política que busca reduzir a fragilidade externa pode gerar custos fiscais e quase fiscais relevantes. O argumento principal é que a esterilização transforma a administração cambial em um problema de estabilidade macrofinanceira. Ao preservar diferenciais de juros, ela pode reforçar incentivos à entrada de capitais, ampliar a sensibilidade da taxa de câmbio ao prêmio de risco e aumentar o estoque de passivos domésticos remunerados. Como a dívida pública afeta o prêmio de risco, e este, por sua vez, influencia a depreciação cambial e a taxa de juros necessária para estabilizar a inflação, a condição de sustentabilidade da dívida torna-se não linear. Mesmo com funções comportamentais simples, o sistema pode gerar múltiplos estados estacionários compatíveis com a meta de inflação, incluindo uma configuração de baixa dívida localmente estável e uma configuração de alta dívida associada a instabilidade ou dinâmica de sela. A análise mostra, portanto, que a estabilidade do tripé macroeconômico é condicional. Metas de inflação, disciplina fiscal e câmbio administrado podem estabilizar a economia apenas quando os efeitos de retroalimentação entre dívida, risco, câmbio, inflação e juros permanecem contidos. Caso contrário, políticas concebidas para estabilizar preços e reduzir a vulnerabilidade externa podem produzir o resultado oposto: maior fragilidade fiscal-financeira, menor investimento, maior dependência de juros elevados e redução da capacidade de absorver choques. A contribuição do artigo consiste em demonstrar que a fragilidade das economias emergentes não decorre apenas de choques externos ou de desequilíbrios fiscais isolados, mas da própria interação entre subordinação monetária, conflito distributivo, intervenção cambial esterilizada e dinâmica da dívida pública.
Título do Evento
XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira
Cidade do Evento
São Cristóvão
Título dos Anais do Evento
Anais do XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

SANTOS, Julio Fernando Costa. METAS DE INFLAÇÃO NA PERIFERIA: CÂMBIO ADMINISTRADO, ACUMULAÇÃO DE RESERVAS E INSTABILIDADE FISCAL-FINANCEIRA.. In: Anais do XIX Encontro da Associação Keynesiana Brasileira. Anais...Aracaju(SE) Hotel Del Mar, 2026. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/akb2026-697763/1573590-METAS-DE-INFLACAO-NA-PERIFERIA--CAMBIO-ADMINISTRADO-ACUMULACAO-DE-RESERVAS-E-INSTABILIDADE-FISCAL-FINANCEIRA. Acesso em: 06/11/2026

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