A organização dos 8º Diálogos Franco-lusófonos é o encontro internacional que dá seguimento a uma série de eventos conduzidos alternadamente entre Brasil e França, que tiveram a última edição em 2023, na Universidade ENSA Paris Val de Seine. Em Paris, o colóquio foi ampliado para toda a francofonia e lusofonia, incluindo pesquisadores portugueses e africanos (https://anpur.org.br/wp-content/uploads/2023/02/DIALOGOS-2023_Chamada_PT.pdf).
Em todas as edições, o colóquio ocorre sob perspectiva interdisciplinar, internacional e comparativa, abordando o futuro das cidades mediante os desafios globais e locais, nas suas dimensões climáticas, socioambientais, econômicas, políticas e culturais. Nesta edição a Universidade Federal do Pará será a anfitriã e propõe um evento totalmente online os 4, 5 e 6 de novembro de 2026, para viabilizar a participação de brasileiros, europeus e africanos, com ênfase na crise climática global, nos processos ligados à exploração de ecossistemas, confrontando as necessidades de adaptação apontadas pelo 6º Relatório de Avaliação do IPCC (https://www.ipcc.ch/assessment-report/ar6/), e a relutância dos países na pactuação de metas durante a trigésima edição da Conferência das Partes - COP 30, realizada em novembro de 2025 em Belém.
Havia forte expectativa para que novas frentes de mitigação aos impactos causados pelas mudanças climáticas, cada vez mais frequentes e intensas fossem determinadas. Houve intensa mobilização da sociedade civil organizada na Cúpula dos Povos, com manifestações de sujeitos concretos, em especial os povos indígenas que habitam a floresta tropical, além de toda a sociodiversidade amazônica (ribeirinhos, quilombolas, extrativistas etc.) que não contribui para a crise, mas sofre com os efeitos causados por ela em primeira mão, exatamente devido à sua dependência de ecossistemas vivos e saudáveis. Diferentes questões foram abordadas durante o evento, todas voltadas para o desafio de motivar múltiplos atores (governos, empresas, consumidores) a mudar as práticas atuais de modo a frear esse cenário de impactos. Se já sabemos que devemos mudar, por que não conseguimos encontrar modos de realizar mudanças?
As principais discussões giraram em torno da capacidade dos governos de reagirem ativamente à emissão de gases de efeito estufa, adaptação climática e estratégias de financiamento da transição energética (Artaxo, 2025). O Brasil, como país periférico de histórico colonial, e a Amazônia, como região que sofreu dupla colonização (europeia e de expansão disruptiva da fronteira interna) contam com incontáveis situações de violência ambiental, em suas várias dimensões, que posicionam o debate sobre justiça climática como prioridade das negociações internacionais no campo político.
Tais resultados foram desanimadores face à realidade que havia sido discutida em evento preparatória ao 8º Colóquio, realizada em setembro de 2025 na Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo, quando pesquisadores franceses expuseram a magnitude de transformações sentidas na França, Espanha e no norte da África, com calor extremo decorrente das novas condições climáticas; e enquanto pesquisadores brasileiros se perguntavam qual o papel das cidades nesse contexto, em que precariedades históricas se somam às consequências climáticas, lado a lado com uma carência de informação sobre questões ambientais por parte de técnicos e sociedade em geral, e de articulação de equipes profissionais voltadas para o planejamento e governança de cidades com equipes capazes de compreender as mudanças ecossistêmicas. Se as cidades mediterrânicas pedem medidas urgentes, as cidades brasileiras carecem de abordagens bioregionais e anticoloniais. Nem a descarbonização avança, nem se considera a renaturalização como uma possibilidade efetiva, ainda que muito possível em contextos como o amazônico.
As florestas tropicais remanescente no planeta oferecem suporte para o reconhecimento de que as velhas dicotomias (urbano-rural, cidade-natureza, artificial-natural) só fazem sentido para sociedades convertidas à lógica econômica hegemônica, na medida em que as práticas cotidianas de grupos não convertidos, que interagem com mercados mas não são subordinados a eles, ainda oferecem inspiração sobre como poderá ser um mundo possível do futuro, adaptado ao fluxo das águas, biocêntrico, e orientado pelos limites ecossistêmicos.
Tais práticas elencam pontos ainda conectados com a perspectiva de vida abundante e justa, com segurança alimentar e salvaguarda dos biomas, já bastante distantes da realidade da metrópole periférica e de contextos centrais que sofrem com extremos climáticos e a escalada da tensão geopolítica de um mundo multipolar.
Contra esse pano de fundo, espera-se neste evento debater decisões tomadas no âmbito da COP 30, de modo a situar situações e experiências vividas nas cidades e territórios, reconhecendo que a agenda é global, mas a ação é localizada, e será no território que soluções multidimensionais viáveis à adaptação climática poderão ser alcançadas.